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    RDC: Ruanda por detrás dos ataques aos deslocados internos?

    O Ruanda negou estar envolvido no bombardeamento mortal dos campos de deslocados internos no leste da República Democrática do Congo (RDC). Entretanto, os EUA apelaram a uma investigação.

    O governador militar da província de Kivu do Norte, na República Democrática do Congo (RDC), Peter Cirimwami, afirmou que 15 pessoas morreram e outras 35 ficaram gravemente feridas na sequência de explosões em quatro campos de deslocados na semana passada.

    A cidade oriental de Goma tem-se debatido com um fluxo de deslocados internos provenientes dos territórios de Masisi, Rutshuru e Nyiragongo no Kivu do Norte, onde a milícia M23 controla vastas áreas.

    Um porta-voz das forças armadas congolesas no Kivu do Norte acusou os combatentes do M23 de terem disparado contra os campos de Lac Vert e Mugunga, nos arredores de Goma, na semana passada – alegações que foram rejeitadas pelo grupo.

    O que aconteceu nos campos de deslocados internos?

    De acordo com testemunhas dos bombardeamentos, as forças governamentais posicionadas perto dos campos tinham estado a bombardear os rebeldes nas colinas mais a oeste e, de acordo com um ativista, “o M23 retaliou atirando bombas indiscriminadamente”.

    Kambale Kiyoma, um congolês deslocado, descreveu o que aconteceu quando o campo de deslocados onde vive com a família foi atacado.

    “Acordámos de manhã e descobrimos que estavam a ser disparados projécteis daqui para as posições do M23. Passado algum tempo, o M23 retaliou”, disse Kambale, acrescentando que vários projécteis caíram em campos da zona.

    Kambale diz que se sente abandonado e pede que o Governo restabeleça a paz.

    Safi Kasembe, outro deslocado interno, disse à agência noticiosa AFP que o Governo instalou armamento de artilharia no campo de deslocados, o que coloca as suas vidas em perigo.

    “Estou aqui por causa da guerra. Fugimos das nossas aldeias e agora refugiamo-nos neste campo de deslocados, mas infelizmente, mesmo aqui, somos atingidos por bombas das posições rebeldes”, lamenta.

    Leste da RDC tornou-se “inabitável”

    Entretanto, numa cerimónia de homenagem às vítimas do bombardeamento, membros de vários movimentos de cidadãos denunciaram o recrudescimento da violência no leste da RDC e apelaram à justiça para as vítimas dos bombardeamentos dos campos de deslocados da semana passada.

    “As pessoas que fugiram da guerra, as pessoas que hoje se encontram em campos de deslocados, onde deveriam encontrar refúgio e segurança”, disse Christophe Muyisa, membro do Filimbi, um movimento político congolês que procura aumentar a participação dos jovens.

    “Eles não precisam de ajuda ou assistência. Precisam de paz e segurança para regressar às suas casas. Por isso, toda a ajuda atual, que é uma hipocrisia por parte da comunidade internacional, pedimos ao Governo que não dê importância”, acrescentou Muyisa.

    Josue Wallay, ativista da Fight for Change, um movimento da sociedade civil que defende a justiça social, afirma que o leste do país se tornou inabitável.

    “As pessoas que fugiram das suas aldeias e procuraram refúgio estão infelizmente a morrer de fome e a ser infligidas com mais uma morte atroz, bombardeadas e mortas”, disse Wallay.

    EUA exigem responsabilidade

    Os EUA condenaram o ataque e apelaram ao Ruanda para que punisse as forças por detrás do mesmo, não recuando nas acusações de que Kigali se está a intrometer nos assuntos do país vizinho.

    Questionado sobre se os EUA mantinham a sua reivindicação, o porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Matthew Miller, sublinhou: “absolutamente”.

    “O governo do Ruanda deve investigar este ato hediondo e responsabilizar todos os culpados. E nós deixámos isso claro para eles”.

    Ruanda nega envolvimento

    O porta-voz do governo ruandês, Yolande Makolo, respondeu que a acusação dos EUA era “ridícula”. Na rede social X escreveu que o Ruanda tinha um “exército profissional” que “nunca atacaria” um campo para pessoas deslocadas. “Para este tipo de atrocidade, basta olhar para as FDLR e o Wazalendo, apoiados pelas FARDC”, acrescentou.

    A publicação refere-se às Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda (FDLR), um grupo hutu fundado por oficiais hutus que fugiram do Ruanda depois de orquestrarem o genocídio de 1994 contra os tutsis, enquanto Wazalendo é uma seita cristã.

    Numa declaração no último domingo (05.05), o Ruanda afirmou que a tentativa do Departamento de Estado dos EUA de atribuir, imediatamente e sem qualquer investigação, a culpa ao Ruanda pela perda de vidas nos campos de refugiados era injustificada.

    Quais os objectivos do M23?

    O grupo rebelde há muito que é acusado de querer assumir o controlo dos recursos minerais do Congo, que incluem grandes depósitos de cobre, ouro e diamantes.

    O Congo possui também as maiores reservas mundiais de cobalto, um componente essencial das baterias para carros eléctricos e telemóveis.

    As tensões aumentaram em março de 2022, quando o M23, após uma década de relativa calma, atacou posições do exército congolês perto da fronteira entre o Uganda e o Ruanda, levando a população local a fugir para a sua segurança.

    Os Estados Unidos há muito que afirmam que existem provas que sustentam as acusações do Congo de que o Ruanda está a apoiar os rebeldes do M23.

    Washington tem procurado mediar a situação entre os dois países, tendo o Secretário de Estado Antony Blinken se reunido com o Presidente do Ruanda, Paul Kagame, em janeiro, à margem do Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, e manifestado a esperança de que todas as partes tomassem as medidas diplomáticas necessárias para resolver a situação.

    Por Isaac Mugabi

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    FonteDW

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