Domingo, Junho 23, 2024
24.9 C
Lisboa
More

    Amnistia Internacional diz que milhões de pessoas estão à “beira da fome” no sul de Angola

    A pior seca em 40 anos e o desvio de terras para a pecuária comercial estão na origem da crise que levou milhares a fugirem para a Namíbia

    Milhões de pessoas no sul de Angola enfrentam uma ameaça à sua própria existência devido à seca agravada pelas alterações climáticas que continua a devastar a região, alerta a Amnistia Internacional (AI) nesta quinta-feira, 22.

    Essas pessoas “estão à beira da fome, presas entre os efeitos devastadores das mudanças climáticas e o desvio de terras para a pecuária comercial”, diz em nota o director da organização para a África Oriental e Austral.

    Ante essa realidade, Deprose Muchena “apela às autoridades angolanas e à comunidade internacional para intensificarem os seus esforços de socorro, incluindo o fornecimento de assistência alimentar de emergência sustentada e regular e acesso a água limpa e segura para uso doméstico e consumo nas áreas rurais das províncias do Cunene e Huíla”.

    A situação no sul de Angola, segundo a AI, é um forte lembrete de que as mudanças climáticas já estão causando sofrimento e morte”.

    “A comunidade internacional, especialmente os Estados mais ricos e os maiores responsáveis pela crise climática, deve tomar medidas imediatas para cumprir suas obrigações de direitos humanos, reduzindo urgentemente as emissões e fornecendo a assistência técnica e financeira necessária ao governo e à sociedade civil local para apoiar as comunidades afetadas”, continua Muchena.

    Pastores e gado, Huíla, Angola.
    (DR)

    Seca e abandono

    A seca que aflige o Sul de Angola, “a pior em 40 anos, atingiu comunidades tradicionais que lutavam para sobreviver desde que foram despojadas de vastas áreas de pastagem”, continua a organização, que destaca que o “Governo angolano deve assumir a responsabilidade pelo seu próprio papel nesta terrível situação, garantir a reparação necessária às comunidades afectadas e tomar medidas imediatas para resolver a insegurança alimentar nas áreas rurais das províncias do Cunene e Huíla”.

    A AI reforça que “as autoridades angolanas devem parar de desviar terras das comunidades tradicionais nas áreas rurais das províncias do Cunene e Huíla”.

    Deprose Muchena afirma que “a criação de fazendas comerciais de gado em terras comunitárias expulsou as comunidades pastoris das suas terras desde o fim da guerra civil em 2002,uma mudança que deixou grandes sectores da população em insegurança alimentar e abriu caminho para uma crise humanitária”.

    E à medida que a comida e a água se tornam cada vez mais escassas, “milhares de pessoas fugiram das suas casas e buscaram refúgio na vizinha Namíbia”.

    A AI cita a organização não governamental com base na região dos Gambos, Associação Construindo Comunidades (ACC), que denuncia que “famílias de pastores tradicionais do município de Gambos, província da Huíla, estão a passar fome”.

    “ACC relatou que dezenas de pessoas morreram de desnutrição desde 2019, sendo os mais velhos e crianças os mais vulneráveis”, continua a nota que cita a distribuição de cestas básicas na região, onde as pessoas recorreram ao consumo de folhas para sobreviver.

    Seca, Huíla, Angola
    (DR)

    Fuga para Namíbia

    Os angolanos que vivem nas províncias do Cunene e Huíla foram especialmente atingidos pela persistente seca, lembra a AI, acrescentando que a época chuvosa de 2020/21 foi anormalmente seca, “o que significa que a situação deve piorar muito nos próximos meses”.

    Sem terra para cultivar, sem chuva e sem apoios, milhares de angolanos fugiram para a Namíbia, de acordo com a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV).

    “As autoridades da Namíbia registaram um total de 894 cidadãos angolanos nas regiões de Omusati e Kunene apenas em Março de 2021, enquanto no mês de Maio organizações não governamentais “relataram que mais de 7.000 angolanos, principalmente mulheres com filhos e jovens, haviam fugido para a Namíbia, e o número continua a aumentar”, diz a AI.

    Aquelas organização não governamentais denominaram a esses angolanos de “refugiados do clima, para chamar a atenção para o facto de a seca e a falta de recursos no sul de Angola os levarem a migrar para a Namíbia como uma medida desesperada para sobreviver”, segundo a AI

    A VOA tem vindo a noticiar, nos últimos meses, a morte de pessoas devido à fome, tendo a Igreja Católica indicado na semana passada que, pelo menos, cerca de 140 mil pessoas encontram-se nessa situação na província da Huíla.

    Organizações da sociedade civil pediram há três meses ao Governo quen declare o estado de emergência na região para facilitar o acesso à ajuda humanitária.

    Publicidade

    spot_img
    FonteVoA

    POSTAR COMENTÁRIO

    Por favor digite seu comentário!
    Por favor, digite seu nome aqui

    Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

    - Publicidade -spot_img

    ÚLTIMAS NOTÍCIAS

    Extrema direita avança como favorita nas eleições legislativas da França

    A apenas uma semana do primeiro turno das eleições legislativas na França, a extrema direita lidera as pesquisas e...

    Artigos Relacionados

    Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
    • https://spaudio.servers.pt/8004/stream
    • Radio Calema
    • Radio Calema