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    Lula na Guiana: o que está em jogo para o Brasil na ‘Dubai da América do Sul’?

    Nesta quarta-feira (28/02), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarca em Georgetown, capital da Guiana, para participar da reunião da cúpula de líderes da Comunidade do Caribe (Caricom).

    Lula chega como convidado ao evento e deverá fazer o discurso de encerramento da reunião.

    Especialistas em relações internacionais e diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam, no entanto, que a visita de Lula ao país está longe de ser uma mera formalidade ou apenas a retribuição de um convite. Para eles, Lula chega à Guiana em um momento crucial na relação entre os dois países.

    No campo político, Lula chega ao país na condição de um dos principais líderes da América do Sul e três meses depois ter colocado a diplomacia brasileira para tentar diminuir a temperatura na crise entre a Venezuela e a Guiana em torno da região de Essequibo, uma área disputada há séculos pelos dois países e que é rica em minérios e petróleo.

    A ida de Lula ao país tem sido vista pela diplomacia brasileira como uma forma de consolidar a posição de liderança do Brasil na região e manter a tensão entre os dois países em situação contornável.

    No campo econômico, porém, a visita acontece em meio ao boom econômico vivido pela Guiana desde 2019, quando começou a exploração petrolífera no país. Desde então, a Guiana saiu da condição de um dos países mais pobres do hemisfério ocidental para a de uma das economias que mais cresce no mundo.

    Entre 2019 e 2023, o Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que o PIB do país tenha saído de US$ 5,17 bilhões (R$ 27,7 bilhões) para US$ 14,7 bilhões (R$ 68,2 bilhões), um salto de 184%. Tanto crescimento é visto como uma oportunidade de negócios que o país não pode ignorar.

    Nesse período, o fluxo comercial entre Brasil e a Guiana aumentou 2.700%.

    E é nesse cenário descrito como de desafios geopolíticos e oportunidades econômicas que Lula chega ao país.

    Essequibo, influência e liderança

    A Guiana fica no norte da América do Sul e faz fronteira com o Suriname, Brasil e Venezuela. Ele tem aproximadamente 800 mil habitantes. Segundo o governo, 39,8% da população é composta por pessoas de origem do leste indiano, 30% são negros de descendência africana, 10,5% são indígenas e 0,5% são de outras origens como chineses, holandeses e portugueses.

    Os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que a visita de Lula gera oportunidades de ganho político junto à Guiana e ao Caribe, uma região que é historicamente área de influência de países como os Estados Unidos e Reino Unido, mas que, recentemente, também passou a ser alvo de nações como a China.

    “A participação do presidente nas cúpulas da Caricom e da Celac mostra uma dinâmica de reaproximação do país com o Caribe e com a América Latina. Nos últimos anos, houve fechamento de embaixadas em alguns países caribenhos. Esse movimento demonstra que o Brasil tem, sim, um olhar especial para a região”, disse à BBC News Brasil a secretária de América Latina e Caribe do Ministérios das Relações Exteriores, Gisela Maria Figueiredo Padovan.

    A menção à Celac acontece porque, após a visita a Georgetown, Lula deverá participar da cúpula de chefes-de-Estado da Celac, que acontecerá em São Vicente e Granadinas.

    Nos últimos meses, a Guiana passou a chamar atenção das autoridades brasileiras por conta da crise entre o país e a Venezuela.

    Em meados de novembro, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, anunciou um referendo sobre a incorporação do território conhecido como Essequibo ao mapa do país. Maduro chegou a apontar um general para governar o futuro estado e determinou que agências e empresas estatais desse início ao processo de exploração e pesquisa petrolífera em áreas atualmente exploradas por empresas autorizadas pela Guiana.

    O governo da Guiana, por sua vez, criticou a medida e levou a questão para a Corte Internacional de Justiça, na Holanda, que emitiu uma decisão demandando que a Venezuela não tomasse nenhuma medida unilateral que resultasse na mudança das fronteiras do país.

    A Venezuela rechaçou a decisão e não reconheceu a autoridade do tribunal para mediar a crise.

    A região de Essequibo é disputada pelos dois países há pelo menos 150 anos, mas a escalada de tensão entre os dois países gerou temor no governo brasileiro de que a crise poderia sair de controle.

    A tensão foi tanta que as Forças Armadas reforçaram a quantidade de tropas e blindados em Roraima, Estado que faz divisa com a Guiana e com a Venezuela.

    Em paralelo, o governo brasileiro enviou emissários como assessor especial para Relações Internacionais do presidente Lula, o embaixador Celso Amorim, à Venezuela para tentar dissuadir Maduro em relação à escalada.

    Em dezembro, os dois países concordaram em cessar as declarações hostis sobre o tema, diminuindo a tensão e voltar a dialogar. O Brasil chegou a se colocar como um dos intermediários dessa conversa.

    Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dawisson Belém Lopes, o principal “motor” dessa visita de Lula ao país é a tentativa de consolidar o esfriamento da crise em torno de Essequibo.

    “O que move o Brasil é a ameaça de um conflito na nossa região. E um conflito aqui é tudo o que não se quer”, disse o professor à BBC News Brasil.

    O professor afirma que a atuação do Brasil na crise até o momento pode gerar dividendos políticos ao Brasil e a Lula.

    “A capacidade de o Brasil liderar os esforços para moderar essa crise sobre Essequibo pode se converter em capital político. Isso significa liderança regional. A crise entre Guiana e Venezuela foi uma oportunidade para o Brasil se projetar como grande líder da sua região”, afirmou Lopes à BBC News Brasil.

    Na avaliação do professor, a crise ainda não está totalmente debelada e pode voltar a causar preocupação com a aproximação do período eleitoral na Venezuela. Há previsão de eleições presidenciais no país ainda neste ano.

    “Não acho que a crise de Essequibo esteja definitivamente resolvida. É perfeitamente possível que o tema seja requentado e que Maduro resgate essa história para buscar legitimação e buscar os dividendos eleitorais fáceis. Todo cuidado é pouco”, disse o professor.

    A professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Carol Pedroso também avalia que a crise em Essequibo não está totalmente solucionada e que o Brasil ainda terá um papel importante nesse tema.

    O entendimento é de que diante da imprevisibilidade sobre o cenário político venezuelano, o Brasil tenha um papel mais relevante na região.

    “É preciso que a comunidade internacional, especialmente o Brasil que tem tomado à frente nesse processo de diálogo entre Venezuela e Guiana, siga acompanhando de perto a situação, até porque estamos falando também de um território fronteiriço e não nos interessa mais instabilidades que possam nos atingir”, disse a professora à BBC News Brasil.

    Gisela Padovan disse que um dos objetivos do Brasil na região é manter o diálogo em torno dessa crise aberto.

    “Em relação a Essequibo, o objetivo é consolidar os termos da declaração de Argyle e manter espaços de diálogo entre os dois países”, disse a embaixadora em menção à declaração conjunta entre Guiana e Venezuela assinada em Argyle, capital de São Vicente e Granadinas, em 14 de dezembro do ano passado e que foi responsável pela redução da temperatura da crise.

    Negócios com a ‘Dubai sul-americana’

    No campo econômico, os especialistas em relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o crescimento da economia guianense representa uma série de oportunidades para o Brasil.

    “Como a Guiana está no caminho de se tornar uma potência petroleira, já sendo chamada de ‘Dubai sul-americana’, as possibilidades comerciais já têm se ampliado bastante. Nos últimos anos, o comércio bilateral cresceu saindo da casa dos milhões e alcançando os bilhões de reais”, disse a professora Carol Pedroso.

    Dados levantados pela BBC News Brasil junto ao Ministério da Indústria, Comércio, Desenvolvimento e Serviços (MDIC) mostram a evolução do fluxo comercial entre os dois países.

    Em 2019, ano em que começou a exploração de petróleo na Guiana, a balança comercial entre o Brasil e a Guiana era de US$ 46,3 milhões.

    Em 2023, esse valor saltou para US$ 1,313 bilhão. A explosão no fluxo comercial se deu, especialmente, pelo aumento das exportações da Guiana para o Brasil. Em 2023, por exemplo, o país exportou US$ 986 milhões em produtos para o país. Desse total, 99,7% era composto por petróleo que o Brasil passou a comprar do país vizinho.

    Atualmente, o saldo dessa balança é favorável à Guiana. A diferença entre o que o Brasil exporta e o que importa do país é de US$ 659 milhões. Dos US$ 327 milhões exportados pelo Brasil ao país, a maior parte era composta por produtos manufaturados como torneiras, tubulações e revestimentos.

    Apesar disso, a professora Carol Pedroso avalia que há oportunidades a serem exploradas pelo Brasil no país.

    “Países que passam a dedicar a sua economia ao petróleo tendem a abandonar outras pautas produtivas, o que também abre a possibilidade para que o Brasil se torne fornecedor de outros bens e serviços […] caso esse crescimento econômico espetacular seja traduzido também em aumento do poder de compra de sua população, o potencial de fortalecimento do comércio bilateral se torna ainda mais relevante”, disse a professora.

    A avaliação é parecida com a da embaixadora Gisela Padovan.

    “Um dos nossos principais focos é a integração física entre o Brasil e a Guiana, especialmente pela estrada de terra que desejamos ver pavimentada entre Lethem e Linden. O outro foco é na oportunidade de expandir nossa presença comercial no país. O Brasil tem uma economia diversa e a Guiana está crescendo. Isso representa oportunidades para o país, sobretudo para a Região Norte”, disse a diplomata.

    Em meio ao crescimento sem precedentes da economia do país, a Guiana se transformou em uma espécie de canteiro de obras global com obras públicas sendo disputadas por empreiteiras de diferentes países. Entre eles estão a China, os Estados Unidos, Índia e o Brasil.

    É de olho nesse mercado que a diplomacia brasileira aponta que um dos focos comerciais do Brasil é a integração regional com o país.

    Atualmente, uma das principais obras de infraestrutura da Guiana é tocada por uma empreiteira brasileira, a Álya Construções, novo nome da Queiroz Galvão.

    A empresa já foi uma das maiores empreiteiras do Brasil, mas foi alvo da Operação Lava Jato.

    A empresa é responsável pela construção de um trecho de 121 quilômetros de uma rodovia que, quando concluída, deverá cruzar o país ligando as cidades de Lethem a Linden. A obra de US$ 190 milhões (R$ 939 milhões) é financiada por entidades brasileiras, mas pelo Banco de Desenvolvimento do Caribe.

    Procurada pela BBC News Brasil, a Álya Construções informou que não iria fazer comentários sobre as perguntas feitas pela reportagem.

    A rodovia é vista como importante para o Brasil porque Lethem fica na divisa com Roraima e poderá ser usada como via de escoamento de produtos brasileiros para o país.

    Além de obras de infraestrutura, empresários brasileiros, especialmente os que vivem em Roraima, já passam a olhar para o país vizinho como um potencial mercado consumidor.

    Em outubro, por exemplo, uma comitiva de 40 empresários brasileiros de Roraima foi a Georgetown para encontrar com executivos e possíveis clientes da Guiana.

    Outro setor que aparentemente também está de olho no crescimento da Guiana é o agropecuário. Roraima é conhecido pela produção de produtos como arroz e soja em áreas do chamado “lavrado”, um bioma semelhante ao Cerrado e que também existe na Guiana. Em canais do YouTube, já há produtores roraimenses buscando parcerias com produtores guianenses para produzir commodities agrícolas no país vizinho.

    Para além das oportunidades comerciais, tanto Dawisson Lopes quanto Carol Pedroso avaliam que uma maior atenção do Brasil em direção à Guiana também teria o objetivo de melhorar as condições do país na competição global por negócios e influência na região.

    “A Guiana e a Venezuela têm uma economia política do petróleo que é absolutamente pulsante e que tem uma escala muito importante e é claro que isso desperta interesse não só no Brasil, mas em outros atores regionais e extra-regionais. Não é à toa que os Estados Unidos e o Reino Unido se envolvem na crise de Essequibo. A aproximação brasileira pode ser reverter em ganhos econômicos para o país”, disse Lopes.

    A avaliação de Carol Pedroso é semelhante.

    “Justamente pelo fato de que a Guiana já ter as suas particularidades e possuir uma inserção internacional mais consolidada junto ao mundo anglo-saxão, isso reforça a importância de recolocarmos este país no nosso radar diplomático, pois trata-se de uma oportunidade importante para nós no âmbito político, econômico e estratégico”, disse a professora.

    Por Leandro Prazeres

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