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    Versão de Flávio Bolsonaro para caso das joias não engana nem o eleitor mais ingênuo

    Meu tio costumava colocar dinheiro no meu bolso escondido quando vinha me visitar em São Paulo. Eu já era crescidinho e a boa ação me emocionava por duas razões.

    Uma era ele imaginar que eu não percebia. Outra era alguém pensar que uma nota de cinco reais resolveria algum perrengue na cidade grande.

    Minha vó ia além. Diante de possíveis negativas, ela dava um jeito de embarcar tijolos de bolos de milho ou fubá em vasilhas hermeticamente fechadas das nossas malas e mochilas.

    Com outras palavras, é mais ou menos isso o que senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acredita ter acontecido com o presente enviado pela monarquia saudita a seu pai após uma visita da delegação do governo ao país.

    Na saída, como que para evitar embaraços, os sauditas teriam dado um jeito de enfiar os presentes na mochila de um assessor do ministro de Minas e Energia para que a surpresa só fosse descoberta no Palácio.

    Segundo Flávio Bolsonaro, em entrevista à Folha de S.Paulo, poderia ser um copo d’água, mas eram apenas joias avaliadas em R$ 16,5 milhões. Só não se sabia o que era porque pegava mal bisbilhotar o presente alheio, segundo o raciocínio do 01.

    “Se eu te der um presente lacrado e você disser ‘ó, entrega lá pro seu marido’, você vai abrir? Não. Você vai pegar o presente e vai dar lá para seu marido. Ninguém sabia o que tinha dentro”.

    Flávio Bolsonaro tenta, assim, transformar a história das joias sauditas em um bolo de milho da vó. A diferença, além dos valores envolvidos, é que o agrado e o beneficiário do agrado eram autoridades de Estado com negócios e interesses em comum.

    O senador jura que o pai “não agiu pessoalmente” para conseguir a liberação das joias e ficar com o conjunto, como havia ficado com outro pacote que passou pela alfândega sem ser declarado como presente ao Estado brasileiro.

    “Foi o ajudante de ordem dele”, disse o parlamentar.

    Mauro Cid, o ajudante de ordens, se transformava assim em um dos muitos aliados fieis de Bolsonaro largados na estrada para evitar contaminação.

    Há outros recados do 01 na entrevista.

    Um deles foi para seu irmão, o vereador Carlos Bolsonaro, atingido quando o senador afirmou que “a nossa comunicação era insuficiente” para ganhar a eleição presidencial de 2022. O 02 era um dos responsáveis por gerenciar as redes do pai durante o governo.

    Flávio deixou aos leões também o chefe da Receita Federal, onde supostamente aconteceu uma devassa nas movimentações fiscais de desafetos do então presidente, como o ex-ministro Gustavo Bebbiano, seu suplente Paulo Marinho e o procurador do Ministério Público do Rio responsável pelas investigações das supostas rachadinhas.

    Flávio diz “achar” que também foi alvo dos agentes bisbilhoteiros. Logo, é vítima, não interessado pelo acesso ilegal.

    É uma forma de dizer que quem acessou deve responder por si, já que não houve mandantes. Assim como quem tentou reaver as joias retidas na alfândega sem envolvimento “pessoal” do pai.

    Como sempre, a família é apenas “vítima” da história, dessas que sempre entram de gaiato por boa fé ou inexperiência.

    Acredita quem quer.

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