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    Síria: ‘Tenho de ficar escondido enquanto falo com o mundo’, diz ativista em Homs

    Enquanto soldados patrulham as ruas de Homs, ativistas sírios usam a tecnologia para driblar o regime e contar ao mundo o que se passa no principal reduto da oposição na Síria.

    Com a ajuda da internet, e escondidos em sótãos e porões, os jovens ativistas contaram à BBC Brasil como é viver numa cidade sitiada e sob bombardeiro das forças de Bashar al Assad.

    Há mais de uma semana, a cidade é alvo de intensa artilharia e de tanques das tropas leais ao governo.

    “É um trabalho incessante, de muito nervosismo, e perigoso. A polícia secreta anda pelas ruas controladas pelo governo. E nós temos que ficar escondidos, às vezes até em sótãos, para fazermos nosso trabalho”, disse Sofian, de 31 anos.

    Sofian explicou que usa telefone e modem via satélite para se comunicar com outros países árabes e o resto do mundo.

    “Através disso, eu falo com a imprensa internacional, coloco fotos e vídeos do que acontece aqui em Homs”, afirmou Sofian, pai de dois filhos.

    Enquanto falava com a BBC Brasil, Sofian disse que tropas do Exército patrulhavam sua rua à procura de manifestantes e pessoas ligadas à oposição.

    “Alguns amigos meus já foram presos pela polícia secreta. Todo cuidado é pouco”, salientou.

    Ativistas dizem que mais de 400 pessoas já morreram em Homs desde o início do mês, quando as forças de segurança lançaram uma ofensiva contra ao menos sete bairros dominados pela oposição, como Baba Amr, Inshaat, Deir Baalbah e Karm al-Zeitoun.

    Segundo o ativista, a padaria onde trabalhava foi danificada por disparos de tanques do governo, assim como muitas lojas na vizinhança.

    Em Homs, há relatos de intensos combates entre tropas do governo e combatentes rebeldes do Exército Livre Sírio, formado por desertores do Exército nacional e civis voluntários, nos bairros controlados pela oposição.

    Grupos de direitos humanos dizem que mais de 7 mil pessoas já morreram na Síria desde março do ano passado. O governo sírio alega que ao menos 2 mil membros das forças de segurança morreram em combates contra “gangues armadas e terroristas”.

    Riscos

    Ativista sírio em Homs. AP

    Sofian e outros ativistas fundaram um grupo chamado Confederação Livre de Homs, uma espécie de organização de ativismo na internet, incluindo uma página no Facebook, onde colocam fotos e notícias.

    “Mas cada trabalho é solitário e individual. Não trabalhamos em grupos para não sermos presos todos juntos. O trabalho não pode parar”, disse Sofian.

    Outro ativista, Jabri, de 28 anos, disse que cada notícia é verificada ao menos com duas fontes diferentes para que haja o minímo de erro ao repassar o que acontece em Homs para a imprensa internacional.

    “Nos comunicamos pelos telefones por satélite e por Skype. Tentamos ao máximo verificar cada ocorrência envolvendo mortes, ataques, confrontos e prisões de oposicionistas”, disse.

    “Não é algo profissional, não somos jornalistas, mas tentamos colher infromações de testemunhas para verificar cada evento. Isso dá mais credibilidade a nós quando passamos para a imprensa”.

    “É tudo o que podemos fazer, não somos combatentes, não temos armas aqui. O que podemos fazer é continuar registrando tudo a cada dia, mesmo sabendo dos perigos”

    Jabri, ativista sírio

    Jabri admite que o medo é um dos maiores desafios quando sai às ruas para filmar ataques de tropas do governo e colocar no YouTube.

    “Enquanto estou nas ruas, penso muito no meu pai e minha mãe. Eles ficam temerosos de que algo me aconteça, mas sempre me dizem que se orgulham de mim por tentar fazer o que é certo”, disse ele, que também revelou já ter perdido alguns amigos nas últimas semanas.

    Sem preparo

    Jabri contou que equipamentos como telefones, modems e computadores foram doações de fora da Síria.

    “Recebemos dinheiro e equipamentos de diversos lugares como Líbano, Árabia Saudita, Egito, França e Reino Unido. A maioria de sírios que moram no exterior e de organizações pró-democracia do Oriente Médio”, diz.

    O grande problema, segundo Jabri, é a falta de conhecimento de muitos ativistas sobre a internet e as ferramentas online.

    Manifestação em Homs. ReutersManifestantes tentam chamar a atenção do mundo para a repressão na cidade de Homs

    “A imensa maioria dos sírios não tem internet em casa. Poucos sabem usá-la de forma segura, usando ferramentas de segurança para evitar os monitores do governo. Então, tivemos que dar um treinamento rápido a várias pessoas do grupo que se tornaram ativistas da noite para o dia”, explicou.

    Para Jabri, o trabalho continua essencial, não importando se as informações serão usadas ou não pela mídia.

    “É tudo que podemos fazer, não somos combatentes, não temos armas aqui. O que podemos fazer é continuar registrando tudo a cada dia, mesmo sabendo dos perigos”.

     

    Fonte: BBC Brasil

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