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    Tarrafal e a Memoria

    O Advogado, Escritor e Político italiano Marco Túlio Cícero escreveu e cito que a “História é testemunha do passado, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida , anunciadora dos tempos antigos”. Neste contexto e na linha deste importantíssimo pensamento, o Advogado e Escritor Cícero, nascido a 3 de Janeiro do ano 106 antes de Cristo, tem um clara visão do que representa a História como “testemunha do passado ” e ” luz da verdade”. Nesta linha de análise , surpreende-me os que em Portugal e noutros lugares do mundo querem contrariar e apagar a ” luz da verdade “.

    A “luz da verdade ” como escreveu e pensou Cícero devia ser a bússola para que alguma classe política pudesse olhar para os factos da História não como um processo de vingar os horrores do passado, mas verificarem a importância de que esses horrores e tragédias não se repitam no século XXI. Infelizmente esta não é a realidade depois de 70 anos da criação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Há quem queira intencionalmente apagar da Memória Colectiva os factos trágicos da História da Humanidade. É impossível apagar os ais do Campo de Concentração do Tarrafal criado pela Ditadura salazarista, como jamais se esquecerá a primeira e a segunda Guerra Mundial e inquestionavelmente o que foi a dor da Escravatura, a Colonização, o Apartheid, o Holocausto, a Inquisição em Portugal e tudo que violou e ainda magoa a revisitar o passado face às manchas sangrentas da condição humana. Negar evidências da História e documentadas, é a pretensão de quem não consegue parar um minuto no tempo e admitir que as realidades supra citadas são marcas de lágrimas e de imenso sofrimento humano.

    Ao referir isto instalou-se em alguns sectores políticos e não só da Sociedade portuguesa uma polémica sem sentido e uma evidente negação aos arquivos da História nos domínios da opressão,da tortura e das mais bárbaras violações face à condição de ser-se Pessoa. No caso do terrível Campo de Concentração do Tarrafal , o Estado Novo quiz aniquilar física e psicologicamente os opositores políticos africanos e portugueses que lutavam com todas as forças das suas firmes convicções face à Ditadura e a uma Guerra Colonial imposta cujas consequências todos sabemos pelas diferentes realidades históricas. Logo, criticar as declarações do Presidente da República Portuguesa , Marcelo Rebelo de Sousa, face às reparações decorrentes da Escravatura e do Colonialismo , é claramente o não assumir e encarar com realismo que o futuro em qualquer domínio da História, só pode ser plural se assumirmos no plano politico e não só, as marcas tristes e repugnantes do que foi a Escravatura e a Colonização. Não estou mandatado para defender o senhor Presidente da República Portuguesa em nenhum domínio. Mas o pensamento livre e o direito de opinião é legítimo para qualquer outra corrente de reflexão que seja contrária ao do Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa.Por essa razão urge um debate sério, sem dogmas e preconceitos em relação à Escravatura e ao Colonialismo. E repito que relembrar e evocar esse lado sombrio da História de Portugal e de outros países que foram igualmente escravocratas e colonizadores, não é para vingar os horrores praticados face a quase 12 milhões de mulheres e homens acorrentados em navios e aos horrendos actos praticados. Lembrar em pleno século XXI a factualidade do que aconteceu é uma homenagem justa e que vai de encontro aos princípios dos Direitos Humanos em toda a plenitude para que não se repitam ,nem se estimule o ódio e a violência no actual domínio contemporâneo da Humanidade. Existem múltiplas formas de reparar os danos causados a Povos que foram sujeitos ao inqualificável comportamento de ditadores,executores e torturadores. No plano do Conhecimento, da Educação,da Saúde Pública e do respeito pleno pela Identidade Cultural de cada Povo , é a melhor avenida de reconciliação e pacificação dos espíritos e da imperativa dignidade humana.

    Continuar a silenciar o que não deve ser silenciado é ser cúmplice da tragédia e não respeitar o plasmado em Convenções internacionais ratificadas para o Ordenamento Jurídico Português e a própria Constituição da República Portuguesa. Tive e tenho a honra de conhecer homens e também mulheres que sofreram as agruras da brutalidade e da arrogância.

    Só uma assumida visão Humanista e uma Diplomacia inteligente e preventiva conseguirá consolidar em diferentes Geografias o mais puro e sólido Estado de Direito Democratico.

    Gabriel Baguet Jr
    Jornalista/Escritor

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