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    São Tomé: Suspeitas de corrupção geram chuva de críticas entre PGR e PJ

    A última semana ficou marcada pelas diligências da Polícia Judiciária (PJ) são-tomense envolvendo Américo Ramos e Carlos Vila Nova, membros do anterior Governo do ADI, liderado por Patrice Trovoada.

    De acordo com a DW África, o antigo ministro das Finanças e Economia Azul Américo Ramos e actual assessor para as questões económicas do Presidente da República, Evaristo Carvalho, foi detido pela PJ, na quarta-feira, 03. Após ter sido presente a interrogatório no tribunal de primeira instância, Américo Ramos ficou em prisão preventiva, a medida de coação mais gravosa.

    No dia seguinte, o ex-ministro das Obras Públicas Carlos Vila Nova, foi impedido de viajar para Portugal, tendo sido levado para as instalações da PJ para prestar declarações no dia seguinte. Na sexta-feira, 05, Carlos Vila Nova foi presente ao Ministério Público acabando por ser “colocado em liberdade por ter imunidade parlamentar, uma vez que é deputado”, explicou à Lusa fonte próxima do processo.

    Imunidade: sim ou não?

    No entanto, Marbel Rocha, directora-geral da Polícia Judiciaria, afirma que Carlos Vila Nova não tem imunidade parlamentar. “No mesmo dia em que o suspeito foi notificado a comparecer nesta polícia, o seu grupo parlamentar remeteu uma cópia da carta de reintegração do suspeito como deputado ao procurador-geral da República (PGR)”, explicou Marbel Rocha, em comunicado, acrescentando que: “diligências feitas por esta polícia junto da Assembleia Nacional (parlamento) apuraram que não houve a apreciação do pedido feito. Logo, o mesmo não é deputado”, disse.

    A mesma responsável garante que “há indícios mais do que suficientes” de que Américo Ramos, ex-ministro das Finanças e assessor para os assuntos económicos do Presidente da República, que se encontra em prisão preventiva desde quinta-feira, e Carlos Vila Nova estão implicados na prática dos crimes de participação económica em negócios, enriquecimento ilícito, corrupção passiva para acto ilícito e branqueamento de capitais.

    Troca de críticas

    Após as detenções, o procurador-geral da República são-tomense, Kelve Nobre de Carvalho, condenou “veementemente” a actuação da PJ, que disse ocorrer “à revelia das regras processuais vigentes” e “sem poderes delegados” pelo Ministério Público, “o titular da acção penal”. O responsável garantiu que vai procurar “restabelecer a legalidade” e advertiu para o risco de o país caminhar “para um Estado policial”.

    A directora-geral da Polícia Judiciaria Marbel Rocha respondeu às críticas este sábado, através de um comunicado: “O Ministério Público validou a detenção do suspeito, apresentado a juiz de instrução criminal, que decretou a medida de coação mais gravosa: a prisão preventiva. Assim sendo, onde está a usurpação de poderes do Ministério Público por parte da Polícia Judiciária?” questionou.

    Marbel Rocha sublinha ainda que as acusações proferidas pelo procurador-geral da República, Kelve Nobre Carvalho, tornam as relações entre as duas instituições difíceis. “As declarações ameaçadoras do PGR, proferidas com tamanha ligeireza e irresponsabilidade, afectam necessariamente a estreita colaboração funcional que deve existir entre o MP e a PJ no cumprimento da sua missão de prevenção, investigação e combate à criminalidade”, esclareceu.

    A PJ exprimiu ao procurador-Geral da República “o seu maior desagrado pela forma irreflectida, irresponsável e sensacionalista como desautorizou na praça pública uma instituição do Estado, fundamental na luta contra a criminalidade em geral e em particular contra os crimes de corrupção, branqueamento de capitais e outros crimes económicos e financeiros que vêm minando a economia” do país.

    Por sua vez, o executivo de Bom Jesus defendeu que a PJ “tem poderes para investigar os crimes de corrupção, peculato, participação em negócios, tráfico de influência e branqueamento de capitais, denunciados por qualquer cidadão, e poderes para deter suspeitos da prática dos mesmos”.

    ADI pede esclarecimentos

    Os deputados da Acção Democrática Independente (ADI) já fizeram saber que vão chamar o primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus, ao parlamento para prestar esclarecimentos sobre o sucedido. Numa conferência de imprensa no final da semana, o líder da bancada parlamentar da ADI, Abnildo d’Oliveira, acusou Jorge Bom Jesus de não saber “como dirigir o país” e de estar “de mãos atadas para cumprir as promessas eleitorais”. O primeiro-ministro, acrescentou, “não pode perseguir políticos para se manter no poder”.

    Também o antigo primeiro-ministro de São Tomé e Príncipe Patrice Trovoada considera que as detenções em causa são “politicamente motivadas e à margem da lei”.

    À Lusa, o ex-governante disse não ter conhecimento de estar a ser investigado e garantiu que não é arguido. “Nunca fui notificado de nada, nem como testemunha, nem como declarante e muito menos como arguido”, referiu.

    Desvios de 20 milhões

    Esta quinta-feira, 04, o executivo confirmou que por trás da detenção do ex-ministro das Finanças Américo Ramos poderia estar uma queixa feita à Polícia Judiciária (PJ), relativa a empréstimos contraídos pelo executivo anterior.

    O executivo chefiado por Jorge Bom Jesus refere-se a um empréstimo de 30 milhões de dólares (26,7 milhões de euros), contraído a um fundo privado internacional com sede em Hong Kong, e outro de 17 milhões de dólares (15,1 milhões de euros), contraído ao Fundo Soberano do Kuwait para a requalificação do hospital da capital são-tomense. Dos 30 milhões de dólares, diz o governo actual, apenas 10 milhões (8,9 milhões de euros) foram depositados na conta do Banco Central são-tomense na Caixa Geral de Depósitos (CGD) em Portugal, não se sabendo do paradeiro de outros 20 milhões de dólares (quase 19 milhões de euros). O valor destinava-se à construção da cidade administrativa, que nunca se concretizou.

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