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    Quem é quem no conflito na RDC

    Exércitos regionais, mercenários europeus e milícias estão a combater o grupo rebelde M23, apoiado pelo Ruanda, na República Democrática do Congo (RDC).

    As exuberantes florestas nas zonas fronteiriças do leste da República Democrática do Congo (RDC) têm servido como base operacional para vários grupos armados. À medida que o conflito se intensifica, as províncias orientais, ricas em minérios, tornaram-se também um campo de sangrentas batalhas de um número cada vez maior de países – incluindo o Ruanda, o Burundi e o Uganda, bem como para forças regionais de três nações da África Austral.

    Ao mesmo tempo, a RDC e o Ruanda estão envolvidos numa amarga disputa. Acusam-se mutuamente de apoiar grupos armados nas províncias orientais do Congo, Kivu do Norte e do Sul, Ituri e Tanganica.

    O aumento de violência alimenta o receio de que os combates possam transpor a fronteira. E isso com o envolvimento de rebeldes, milícias, forças estatais e regionais, empresas militares privadas e vigilantes locais – cada um deles movido por interesses e reinvindicações diversas.

    Quais são, efetivamente, os principais atores? Eis um resumo dos principais intervenientes:

    M23 e outros grupos armados

    Mais de 250 grupos armados locais e 14 grupos armados estrangeiros operam no leste da RDC, de acordo com um inquérito de 2023 realizado pelo Programa de Desarmamento, Desmobilização, Recuperação e Estabilização (P-DDRCS).

    O Movimento 23 de Março, ou M23, é o mais proeminente destes grupos. Constituído principalmente por pessoas de etnia tutsi, afirma estar a lutar para defender os tutsis congoleses da discriminação e de grupos extremistas como as Forças Democráticas para a Libertação do Ruanda (FDLR), uma milícia rebelde de etnia hutu. O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, vê há muito tempo as FDLR como uma ameaça ao país.

    “Adormecido” durante vários anos, o M23 ressurgiu em finais de 2021. Desde então, tem-se tornado cada vez mais forte. Comporta-se cada vez mais “como um exército convencional em vez de um grupo armado” e possui poder de fogo e equipamento cada vez mais sofisticados, segundo especialistas da ONU.

    Recentemente, os confrontos entre o M23 e as Forças Armadas congolesas intensificaram-se com os rebeldes a avançarem constantemente, nos últimos dias, em direção a Goma, a capital de Kivu do Norte.

    “A nossa família ficou bastante assustada e decidimos abandonar a cidade”, disse à DW Jean de Dieu Kulondwa, um residente em Goma. Juntaram-se aos mais de 5,5 milhões de pessoas deslocadas no leste da RDC, naquela que é uma das maiores catástrofes humanitárias do mundo.

    O envolvimento do Ruanda com o M23

    As Nações Unidas, a Human Rights Watch e outros observadores independentes documentaram o apoio do Ruanda aos rebeldes do M23, “incluindo a transferência de armas e munições, facilitando o recrutamento e até mesmo o apoio direto ao combate por parte das Forças de Defesa do Ruanda”, refere uma análise de 2023 para o Observatório Global do Instituto Internacional da Paz.

    Mais recentemente, o Exército ruandês foi acusado de utilizar armas sofisticadas, como mísseis terra-ar (SAM), no Congo. Um documento da missão de manutenção da paz da ONU no leste do Congo, a MONUSCO, citado pela agência noticiosa AFP no início de fevereiro, refere que a utilização de um sistema SAM móvel no país “indica uma escalada do conflito de forças convencionais”.

    Por sua vez, o Governo ruandês do Presidente Kagame, liderado pelos tutsis, acusa o Congo de apoiar a FLDR, o seu inimigo declarado. O grupo insurgente foi fundado por combatentes e famílias hutus que fugiram para o Congo após o genocídio ruandês de 1994, que viu cerca de um milhão de tutsis serem massacrados por extremistas hutus.

    Operação secreta do Burundi no Congo

    Cerca de 1.000 soldados do Burundi estão, alegadamente, no Kivu do Norte e Sul como parte de uma operação secreta. A agência de notícias Reuters, citando um relatório interno da ONU a que teve acesso, afirma que os soldados burundeses chegaram à RDC em outubro de 2023 e estão a combater com uniformes do Exército congolês.

    Esta situação não está relacionada com o destacamento de forças burundesas para o leste da RDC como parte da força regional da Comunidade da África Oriental, que se retirou em dezembro de 2023 depois de o Presidente congolês Félix Tshisekedi se ter recusado a renovar o seu mandato.

    Tem sido reportado que as tropas do Burundi combatem principalmente grupos rebeldes armados baseados no Congo e opositores ao Governo do Burundi, como a milícia RED-Tabara, responsável por ataques ao Burundi, que acusa o Ruanda de financiar e treinar esta milícia.

    Ao abrigo de um acordo bilateral assinado em 2021, o Governo do Congo está a pagar a conta do destacamento, que se diz rondar os 5.000 dólares (4.634 euros) por mês para cada soldado burundês.

    “Ao apoiar a RDC, o Burundi está a apoiar-se a si próprio, pois está a ajudar a neutralizar os rebeldes da RED-Tabara”, disse à DW o cientista político congolês Christian Moleka. Ao mesmo tempo, o Burundi está a ajudar a “eliminar a influência que o Ruanda, através das milícias pró-tutsi, pode exercer sobre o movimento RED-Tabara”.

    Uganda, operação conjunta

    As tropas ugandesas estão a combater no leste da RDC desde 2021 no âmbito de uma operação conjunta para desmantelar as Forças Democráticas Aliadas (ADF), um grupo militante afiliado ao chamado “Estado Islâmico”.

    As ADF, designadas como um grupo terrorista pelos Estados Unidos e pelo Uganda, surgiram no Uganda na década de 1990, mas atualmente operam a partir do Kivu do Norte e realizam ataques tanto no Uganda como no Congo.

    “Embora este grupo tenha recebido menos atenção do que o M23, é igualmente mortífero”, disse à DW o especialista em Congo Kristof Titeca, da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, acrescentando que a operação conjunta entre as forças congolesas e ugandesas tem sido “particularmente eficaz” nos últimos seis meses.

    Forças regionais africanas e mercenários europeus

    Quando o Presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, expulsou a força regional da África Oriental, em dezembro de 2023, acolheu imediatamente tropas da África do Sul, do Malawi e da Tanzânia no âmbito de uma missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). Em meados de fevereiro, o Governo sul-africano afirmou que mais 2.900 dos seus soldados estavam a ser mobilizados para a operação da SADC, que tem um mandato até dezembro de 2024.

    Duas empresas militares privadas têm também cerca de 1.000 soldados privados em Goma. A primeira, a Agemira, registada na Bulgária, é dirigida por um cidadão francês e integra militares franceses reformados. A Agemira foi contratada para a manutenção de aviões do Exército congolês.

    A segunda, a Congo Protection, é gerida por um antigo membro romeno da Legião Estrangeira Francesa e emprega maioritariamente antigos soldados do leste europeu. Embora a Congo Protection tenha sido contratada para treinar unidades das Forças Armadas congolesas, os seus efetivos também ocuparam postos de defesa juntamente com recrutas do Exército, quando este foi atacado pelos rebeldes, relataram os peritos da ONU.

    Milícias locais

    Em 2022, Tshisekedi apelou aos jovens do leste do país para que formassem grupos de vigilância na luta contra o M23. No final do ano passado, um decreto governamental legalizou as milícias no seio do seu Exército. Reuniu grupos armados locais de auto-defesa e aliados numa liga conhecida como Wazalendo – uma palavra suaíli que significa ‘patriotas’ -, dando-lhes ainda apoio militar e financeiro. Elementos do temido grupo de milícias FLDR também teriam aderido.

    Porém, David Egesa, analista de segurança baseado no Uganda, diz que armar grupos para combater o M23 pode ajudar a curto prazo, mas ele alerta para a possibilidade de isso poder reforçar os grupos de milícias.

    “A RDC pode permitir, discretamente, que as milícias trabalhem em conjunto contra o M23. Mas um jogo tão distorcido poderia, a longo prazo, encorajar as milícias”, afirmou Egesa à agência de notícias turca Anadolu. “É uma situação perigosa”.

    Por Kate Hairsine. Zanem Nety Zaidi em Goma e Sandrine Blanchard contribuíram para esta reportagem.

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    FonteDW

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