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    Os hábitos da nossa mente – As palavras que não partilhamos (3)

    (rm.co.mz)
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    Ainda no “Facebook” li o excerto duma citação atribuída a Mia Couto. Diz o seguinte: “Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro, dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.

    A verdade é esta: são demasiado pobres os nossos “ricos”. Aquilo que têm, não detêm. Pior, aquilo que exibem como seu, é propriedade de outros. É produto de roubo e de negociatas. Não podem, porém, estes nossos endinheirados usufruir em tranquilidade de tudo quanto roubaram. Vivem na obsessão de poderem ser roubados”. O texto donde essa citação saiu prossegue com uma descrição eivada de crítica severa não só aos “novos ricos” mas também ao tipo de sociedade que eles teimam em perpetuar para se poderem reproduzir. É, no fundo, uma crítica marxista, algo que salta logo à vista quando a riqueza é articulada com a posse de meios de produção, mas é também uma crítica que generaliza de forma pouco útil ao debate sério das coisas políticas. Ou se é rico por possuir meios de produção, gerar dinheiro e dar emprego, ou “endinheirado” por roubo e tráfico de influências. Ou preto, ou branco.

    Este é outro grande problema da nossa esfera pública, nomeadamente a generalização que é alimentada pela crença na ideia de que as palavras têm o mesmo significado para todos que as usam. Não têm. A nossa esfera pública está cheia destas palavras. Paz, Democracia, Justiça, Pobreza, Riqueza, Corrupção e não sei que mais. Estamos todos a usar estas palavras partindo do princípio de que a forma como as entendemos é a forma como elas são entendidas pelos outros. Não é. A citação atribuída a Mia Couto tem o mérito de sugerir critérios que nos dão uma ideia muito clara do que o autor entende por “rico”. Quando perguntei lá no “Facebook” onde encontrei a citação se só podia ser rico quem possuísse meios de produção e desse emprego, as primeiras reacções foram de estupefação como se estivesse a cometer um sacrilégio. E ao invés de tratarem desse assunto, preferiram, num primeiro momento, desfiar todo o tipo de histórias sobre os nossos ricos que, afinal, não são ricos, apenas “endinheirados”. Acima de tudo, ficou o interesse na forma como eles chegaram a essa riqueza que, como não podia deixar de ser, foi suja, instransparente e desonesta.

    Na verdade, o problema da generalização é o problema da inconsistência. Se eu dissesse a alguém que defende que os “ricos” de Moçambique não são ricos, mas sim “endinheirados”, que conheço vários casos de moçambicanos “endinheirados” que investem o seu dinheiro em fins produtivos e que conseguiram essa riqueza de forma lícita, o mais provável é que essa pessoa me dissesse que ou são uma excepção, ou não são “endinheirados” de verdade, mas sim “ricos”. O tipo de discussão que realizamos na nossa esfera vive da ausência de clareza nas palavras que usamos. Essa ausência permite a muita gente dizer a primeira coisa que lhes vem à cabeça e a mudar de opinião como lhes der na gana porque o sentido das palavras é simplesmente elástico. Supondo, por exemplo, que aceitemos a ideia segundo a qual o rico, isto é, aquele que possui meios de produção, gera dinheiro e dá emprego, seria o tipo de pessoa que devíamos emular, importaria, digamos, saber como essa pessoa conseguiu essa riqueza? Por acaso, coloquei esta pergunta já que a discussão parecia sugerir  a ideia de que o “endinheirado” estivesse condenado a nunca ser outra coisa. No momento em que escrevo ainda não tive a resposta a essa pergunta e já passam dois dias, o que é uma eternidade no “Facebook”.

    Com generalizações e inconsistências vai ser muito difícil aferir a verdadeira situação do País. Pode ser confortante para quem quer demonstrar indignação, mas indignação só não é suficiente para pensar um País. A indignação deu Mursi aos egípcios … e Passos Coelho aos portugueses. (rm.co.mz)

    Por Elísio Macamo

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