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    O Grande Prémio do Bahrein pode ser “uma bomba-relógio”

    Depois da Tunísia e do Egipto, também este pequeno arquipélago viveu a sua revolta árabe. A monarquia respondeu com violência e calou os protestos. A Fórmula 1 ajudou a reavivá-los.

    Aconteça o que acontecer, este não é um Grande Prémio normal. Quantas vezes acontece na Fórmula 1 a conferência de imprensa da véspera do início dos testes livres ser dominada por um “cocktail molotov”? Foi o que aconteceu ontem nos arredores de Manamá, onde domingo se corre o Grande Prémio do Bahrein.

    O “cocktail molotov”, lançado na quarta-feira, rebentou perto do carro em que seguiam quatro mecânicos da equipa Force India. Nenhum dos ocupantes ficou ferido, mas dois pediram para regressar a casa por não se sentirem seguros.

    Têm razões para isso: “As pessoas dizem que podemos garantir a segurança. Mas é óbvio que não podemos. Seria um louco se o dissesse”, afirmou ao diário “The Guardian” John Yates, ex-responsável da Scotland Yard que hoje se ocupa da segurança da pista e é conselheiro do Governo do Bahrein, país que foi um protectorado britânico até 1971.

    Como na véspera, ontem a polícia antimotim voltou a disparar granadas de gás lacrimogéneo e granadas atordoantes contra centenas de activistas. Os manifestantes reuniram-se num bairro xiita e foram avançando por ruas secundárias procurando evitar a polícia enquanto entoavam slogans contra o Governo. Antes de conseguirem alcançar o centro da capital, Manamá, foram recebidos por uma chuva de gás.

    A segurança foi reforçada no caminho do aeroporto até ao circuito, nas auto-estradas e junto à rotunda que a contestação transformou em praça: a Praça Pérola, epicentro da contestação ao regime e da repressão com que este respondeu aos protestos.

    A 16 de Março do ano passado, as forças de segurança, auxiliadas por tropas sauditas, incendiaram o acampamento que ali tinha sido montado e entraram a disparar. Nunca se soube quantas pessoas morreram. A oposição falou em “guerra de aniquilação”; as Nações Unidas denunciaram a “conduta chocante” das autoridades; os Estados Unidos (que têm a sua V Esquadra estacionada no arquipélago) falaram em “violência excessiva”.

    Este nunca poderia ser um Grande Prémio como os outros porque o Bahrein não é um país como os outros que recebem corridas da F1 – por mais que o Governo queria fingir que é. As mesmas autoridades que encheram as rotundas com posters com slogans como “UNIF1ED: One country, onde celebration” (“Unidos: Um país, uma celebração”), prenderam 90 pessoas nos últimos dias, tentando evitar que a corrida fique manchada pela contestação.

    Com os protestos de quarta-feira a conseguirem alcançar a entrada do souq (mercado) principal de Manamá e o cocktail molotov da Force India já falharam. Os activistas prometeram “dias de raiva” para coincidir com o Grande Prémio e estão a ser planeadas acções de protesto na própria pista, durante a corrida de domingo. Não só muitos opositores se opõe à corrida – a do ano passado foi anulada – como vêem na sua realização uma oportunidade rara para voltar a tomar as ruas, protegidos pelos olhares do mundo.

    “Freedom, not Formula”

    Muitos jornalistas não conseguem visto para entrar no Bahrein, mas por estes dias o país está cheio de estrangeiros e de correspondentes de desporto. O protesto de quarta-feira foi mais fotografado do que qualquer outro no último ano.

    “Não temos nada contra a F1. Mas é uma falta de respeito pelos mortos e pelos presos”, explica Nabeel al-Khawaja, presidente do Centro do Bahrein para os Direitos Humanos. “We want Freedom, not Formula” (“Queremos Liberdade, não Fórmula”) tornou-se num slogan natural.

    “Este circuito no deserto é um casulo, abrigado das realidades desta ilha dividida. Em público, os pilotos seguem obedientemente as ordens da FIA (Federação Internacional do Automóvel), dizendo as coisas certas e preparando a corrida. Mas a experiência traumática da Force India desencadeou um novo sentimento de tensão e desconforto entre as equipas”, escreve Dan Roan, correspondente de desporto da BBC.

    Fonte: Público

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