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    O ‘corredor’ da morte

    A jovem Kaxala saía do serviço em direcção à casa, no bairro Grafanil, em Viana, quando foi colhida por uma viatura nas imediações do Posto de Abastecimento de Combustível da Sonangalp, no mesmo município.Com 25 anos de idade, depois de atropelada a jovem foi socorrida pelo automobilista. Encaminhada para o Hospital Josina Machel, acabou por não resistir aos ferimentos provocados pelo embate e a uma hemorragia interna, de acordo com pessoas próximas e familiares que a acompanharam até à sua última morada.

    Três meses depois, os seus filhos gémeos, com apenas um ano de idade cada, crescem sem o contributo da mãe, que é uma entre outras centenas de pessoas que vão perdendo a vida na estrada nacional 230.

    A direcção Provincial de Luanda para o Trânsito, Tráfego e Mobilidade, encabeçada pelo antigo porta-voz da Polícia Nacional, Jorge Bengue, indica que no ano passado 226 pessoas morreram atropeladas em vários troços que ligam a Avenida Deolinda Rodrigues, Quilómetro 30 e partes da Estrada Nacional 230, nos municípios de Luanda e Viana.

    Até quinta-feira da semana passada estavam contabilizadas outras 40 mortes na referida estrada, de acordo com as estatísticas da Polícia Nacional relacionadas com a sinistralidade rodoviária no presente anos.

    Mas, todos os dias acontecem acidentes mortais naquele trajecto que corta ao meio o município de Viana. Grávida do seu segundo filho, Fernanda Cadimba, 19 anos, vendedora de água mineral e refrigerante nas proximidades do local onde a malograda Kaxala foi atropelada há meses, testemunhou outros acidentes nesta quarta-feira, uma das quais envolveu uma das suas colegas de negócio.

    “Ontem (quarta-feira) entre às 9 e as 10 horas, a minha colega Nanda saia comprar cimento, o trabalhador que levava a mercadoria atravessou num ponto e ela procurou outro”, contou a vendedora, realçando que “apesar de estar com outras pessoas no meio do asfalto, um Hiace atropelou-a com muita força e acabou por morrer no local”.

    Por viver do lado oposto do local onde vende os seus produtos, Fernanda Cadimba pede sempre a Deus para que nada lhe aconteça quando tiver de atravessar a estrada, como a própria contou. O medo resulta do facto de diariamente ver algumas pessoas atropeladas defronte ao seu local de trabalho e noutros trechos da mesma estrada.

    Além da morte da colega Nanda, a jovem ouviu falar na mesma quartafeira da morte no asfalto de uma jovem e de um outro rapaz junto à ponte partida. O segundo acabou por sobreviver ao embate apesar da velocidade da viatura, mas ficou com um corte profundo na cabeça.

    “Tenho muito medo, queremos apenas que nos coloquem uma ponte semelhante a que existe na vila de Viana. Se colocarem será normal, porque quase ninguém vai se aventurar a atravessar a estrada”, desabafou Fernanda Cadimba.

    Nas proximidades existe uma passagem aérea. Mas foi colocada apenas para facilitar a travessia das pessoas quando passa o comboio.

    Mas moradores como Fernanda e outros manifestaram o descontentamento à equipa de O PAÍS porque são poucas as pessoas colhidas pelas locomotivas ou carruagens. A maioria sucumbe algures na temível estrada 230.Para contornar a ausência de ponte, na área da Sonangalp e outros pontos tidos como críticos em termos de atropelamentos, munícipes de Viana como Laurinda Simba, 38 anos, procuram atravessar a estrada na companhia do maior número possível de transeuntes.

    Mesmo assim, Laurinda também morre de medo sempre que atravessa a estrada, o que não faz regularmente porque exerce as suas actividades comerciais do lado onde está situada a sua residência.

    Ainda assim, o facto de o seu vizinho Alfredo ter sido colhido mortalmente a escassos metros da sua bancada ensombra a sua mente diariamente. Principalmente quando acompanha todas as manhãs a travessia dos filhos que estudam numa das escolas situadas no Largo 1 de Maio (entenda-se Largo da independência).

    “O meu vizinho tinha apenas 30 anos de idade, mas não deixou nenhum filho. Era um jovem com um grande futuro”, lembrou a senhora, mãe de oito filhos. “Por isso, procuro sempre acompanhá-los de manhã, porque o pai vai trabalhar. A ponte que existe está situada na zona do Venceremos e é muito distante. As pessoas não podem toda aquela distância, porque é muito difícil chegar até lá”, acrescentou.

    O PAÍS apurou que estão previstas a construção de 28 pontos na cidade de Luanda, dez das quais no município de Viana. Actualmente, de acordo com Jorge Bengue, já foram efectuadas escavações junto ao Alimenta Angola, Estalagem e Cadeia de Viana. Indícios de que elas serão instaladas brevemente.

    Zonas perigosas

    uncionário de uma roullote onde é vendido produtos da empresa de telefones Unitel e outros da Zap, Evaristo Sahossi, 18 anos, elege como zonas mais perigosas as imediações da Sonangalp, os armazéns da extinta Arosfram e a loja da cadeia Alimenta Angola, nas imediações da Estalagem.

    Segundo o jovem, que atravessa a via 230 todos os dias pela manhã e às 17 horas, a solução para se diminuir o elevado número de atropelamentos mortais passa pela instalação de mais pontes e passadeiras nos locais que ele identificou.

    Do lado oposto ao seu local de trabalho existe uma ponte mas serve apenas para fugirem do comboio, à semelhança do que ocorre noutras partes do município.

    As únicas passagens áreas que contornam o asfalto estão à entrada da vila de Viana e mais adiante junto às instalações da concessionária de automóveis ligeiros e pesados Iveco.

    Pena que a primeira, situada a escassos metros da sede da Administração Municipal, liderada pelo também músico Zeca Moreno, foi transformada num mercado a céu aberto, impedindo inclusive a passagem dos peões.

    “As pessoas que vendem na ponte sabem que aquilo é um risco porque pode demorar menos tempos, mas independentemente disso aquela (a da Vila) é a única onde as pessoas podem passar o asfalto sem qualquer risco”, comentou Evaristo Sahossi, que, à semelhança de outros entrevistados, também já assistiu outros acidentes mortais, a escassos metros do seu posto de trabalho.

    “O que mais me marcou foi um que envolveu duas crianças. Elas tentavam atravessar a estradas, chegaram ao meio do asfalto, mas por causa da velocidade dos carros um deles precipitou-se e tentou recuar para o outro lado. Foi então que um camião passou por cima de uma das crianças, que julgava ter 10 ou 11 anos de idade”, recordou o jovem de 18 anos de idade, vendedor de cartões de recarga, telemóveis e outros aparelhos de comunicações.

    Enquanto as pontes não chegam, a quem solicite apenas a intervenção de agentes da Polícia de Trânsito para aquelas zonas perigosas, principalmente nas horas de ponta, quando as pessoas vão ou saem dos seus locais de trabalho, mercados ou escolas. Nesta altura, Sahossi também procura atravessar com o maior número de pessoas possíveis, uma situação que acaba por inibir os automobilistas a darem prioridade aos transeuntes.

    Alexandre Valentim, automobilista de 24 anos que faz serviço de táxi nas proximidades da Sonangalp, defende ao menos a colocação permanente de um agente da Polícia de Trânsito para auxiliar os peões a passarem de um lado para o outro, porque muitas das vezes os seus colegas não os priorizam.

    Na quinta-feira, 10 de Maio, havia um agente da corporação a satisfazer o pedido do automobilista. Mas ele acredita que aquilo acontecia por causa de um chefe que iria passar aí, referindo-se a comitiva que se encaminhava para a inauguração do Hospital Municipal de Viana.

    “Só queremos um trânsito para cuidar do povo e mais nada. As A escuridão também tomava conta da rua 11 de Novembro, onde no escuro dava para se divisar unicamente o vermelho do sinal luminoso que nunca mudava de tonalidade como habitual. Nesta rua, a iluminação é garantida desde o encerrado Nosso Super, passando pelo projecto Luanda Sul (também conhecido como o das 500 casas), até ao pequeno largo defronte ao pólo da Universidade Técnica de Angola.

    Tanto a via que dá para o Kikuxi como ao Calemba 2-Camama encontravam-se às escuras. O mesmo se pode dizer da via principal do Zango, assim como partes significativas da via expressa, onde a iluminação também é feita em ilha.

    pessoas querem passar, mas outros motoristas não as respeitam”, realçou Valentim.

    Vedações

    À entrada da vila de Viana também era vista como uma zona de risco para os peões. É que apesar da existência da ponte transformada em mercado, as pessoas insistiam em atravessar saltando os separadores de betão aí colocados.

    Aquele trecho é o primeiro e único vedado naquela extensão de Luanda que alberga cerca de dois milhões de habitantes. A direcção provincial de Trânsito, Tráfego e Mobilidade, de Jorge Bengue, adiantou recentemente que existem outros projectos em carteira a nível deste município, que contabiliza o maior número de vítimas mortais por atropelamento na cidade capital.

    Uma outra parte vedada está no início da estrada 230, particularmente nas imediações do mercado do Congoleses, onde O PAÍS encontrou esta quarta-feira o vendedor ambulante Benjamim Ndengua, 29 anos, que diz sentir muito medo da parcela descoberta defronte ao cemitério de Sant’Ana, onde recentemente foi atropelado o seu colega identificado por “Zé”.

    “Ele queria atravessar a estrada para vender os seus produtos do outro lado, mas a viatura vinha com muita velocidade e partiu-lhe o pé”, contou o vendedor ambulante.

    Felizmente, “Zé” foi das poucas pessoas poupadas na estrada 230, que hoje lidera o ranking das vias mais mortíferas, ultrapassando a Avenida Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, via Via Expressa Cacuaco-Cabolombo-Viana e outras.

    Fonte: OPAIS

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