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    Novos episódios do racismo à brasileira e a insensatez dos negacionistas.

    No último dia 25 de agosto, veio à tona o caso da garota de 20 anos que foi alvo de ofensas no Facebook. Ela, negra, compartilhou uma foto com seu namorado, branco. Uma enxurrada de comentários racistas invadiu sua página: “é seu dono?”, “me vende ela”, “onde comprou essa escrava?”. O motivo dos ataques? A garota é negra no Brasil.

    No mesmo dia 25, parte da torcida do Grêmio atacou o goleiro Aranha do Santos com xingamentos racistas. O jogador se revoltou e saiu de campo atordoado, dizendo que o racismo “dói”. Motivo dos xingamentos? Aranha é negro no Brasil.

    Já no dia 28, um vídeo circulou pelas redes sociais mostrando um homem tirando a roupa e gritando em um shopping de Salvador. O cidadão foi acusado de ter roubado uma loja. Ele ficou só de cuecas e retirou tudo o que havia na mochila pra provar sua inocência. Mais um negro no Brasil gritava: ”Cadê o roubo? Mostre o roubo!”, enquanto era aplaudido pelos que passavam..

    No dia 29, em São José dos Campos (SP), Claudinei Correa voltava das compras com seus filhos quando foram abordados por policiais militares. Eles estavam atrás de ladrões que haviam roubado uma loja nas redondezas. Motivo da suspeita? O trabalhador e seus filhos são negros no Brasil. Mesmo mostrando a nota fiscal do tênis que havia comprado à vista, os policiais insistiram em levá-los para averiguação na delegacia. O pai, então, discursou exibindo o documento que comprovava a compra:

    “No Brasil somos 52% da população. Existe negro sem vergonha. Existe branco sem vergonha. (…) Chega de racismo neste país! Chega! Chega! Chega! Cansei”

    Todos esses episódios aconteceram num intervalo de cinco dias, apesar do senso comum dizer: “ah, não é bem assim”, “racismo no Brasil não existe”, “hoje em dia tudo é racismo, não se pode falar nada”, “racismo é só nos EUA, somos um país miscigenado” – e outras bobagens que, de tão repetidas, vão virando verdades.

    Para os negacionistas esse episódios seriam isolados, de ordem individual, e não parte integrante de um sistema ideológico segregador.

    Aos olhos das nossas polianas os negros não são vítimas de um racismo institucionalizado. Ou seja, não ganham menos que os brancos nos mesmos postos de trabalho, não são empurrados para o subemprego e não representam uma imensa minoria nas universidades. É o mundo fantástico da meritocracia, onde todos têm as mesmas oportunidades e lutam em igualdade de condições, bastando apenas muito suor pra chegar onde o bonitão meritocrata chegou.

    Mas a realidade dos fatos estapeia os arautos da democracia racial. Essa imagem comparando um protesto de garis com um de médicos, vale mais que mil argumentos meritocratas:

    (noticias.yahoo.com)
    (noticias.yahoo.com)

    Danilo Gentili não poderia deixar de dar seu pitaco no assunto. Após episódio envolvendo Aranha na Arena do Grêmio, o humorista escreveu seu lamento no Facebook apelando para o ”racismo inverso” – um fenômeno inexistente, mas que ainda encontra abrigo confortável no imaginário reaça:

    (noticias.yahoo.com)
    (noticias.yahoo.com)

    Todos os brancos sabem como é duro carregar a branquitude pelas ruas desse país. É difícil ser seguido pelos seguranças nas lojas de shopping, ser atacado no Facebook por causa da cor da pele e ser chamado de “palmito” pelos conhecidos. Dói. Pior ainda é ver estádios pelo mundo inteiro ofendendo nossos jogadores brancos e perceber que todos esse preconceito é fruto de séculos de escravidão pelo qual passaram nossos descendentes.

    Ou seja, para compreender o racismo inverso de Gentili, teríamos que viajar no tempo e modificar a história da humanidade.

    A negação do racismo não é apenas ignorância, mas também parte integrante de todo esse pacote ideológico. Ela considera normal que os únicos negros de um condomínio de luxo sejam as babás e os porteiros. Isso num país onde são maioria!

    O preconceito racial deve ser combatido na mesma intensidade em que é praticado. Só assim ele poderá ser compreendido na sua complexidade. Uma sociedade racista não é somente aquela que acorrenta e dá chibatadas nas costas, mas a que nega o racismo ao mesmo tempo em que oferece as piores condições sociais para os negros. Enquanto não assumirmos a existência dessa praga, jamais seremos capazes de combatê-la e ainda vamos perpetuá-la.

    Como bem disse Bill Maher, “negar o racismo é o novo racismo”:

    (noticias.yahoo.com)

    por Jornalismo Wando

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