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    Media pública põe em causa a credibilidade das eleições mas também penaliza MPLA

    A maior crítica dos observadores internacionais e das organizações nacionais face ao processo eleitoral tem a ver como a postura da comunicação social pública ou detida pelo Estado, que violou todas as regras de isenção, equilíbrio e transparência. E o efeito foi contrário em muitos casos, empurrando os indecisos para um voto de protesto.

    “Foi vergonhoso! Violou todas as regras de isenção e equilíbrio, nomeadamente o artigo 64 da Lei Eleitoral que determina que todos os concorrentes devem ser tratados de forma igual”, começa por nos dizer Teixeira Cândido, presidente do sindicato dos jornalistas angolanos, a propósito da cobertura da media pública das eleições gerais. “No que se refere à comunicação social pública, mas também aos órgãos que actualmente são detidos pelo Estado, como a TV Zimbo, houve claramente uma violação grosseira de todos os princípios do jornalismo, da deontologia profissional e dos valores que estão consagrados na lei e na Constituição”, acrescenta.

    Teixeira Cândido lembra também que a CNE devia ter-se manifestado, uma vez que se estava perante violação da lei eleitoral. “Se no caso do “votou, sentou” a CNE veio repudiar a iniciativa e explicar que se tratava de uma ilegalidade nos termos em que estava a ser colocada, deveria ter feito o mesmo com a cobertura da media pública da campanha eleitoral, que como já expliquei, também viola a legislação em vigor. Era sua obrigação ter feito”.

    A desproporcionalidade da cobertura foi tão acentuada que gerou mesmo a necessidade de alguns, embora poucos, jornalistas destes meios terem-se recusado a fazer determinadas matérias. “Se era espectável que esta manipulação pudesse acontecer, também era espectável que alguns jornalistas pudessem evocar a cláusula de consciência. Mas a verdade é que há sempre colegas disponíveis para fazerem esses trabalhos, da forma como são orientados pelas editorias. Estou muito decepcionado! Nós jornalistas, onde me incluo porque também faço parte da classe, prestámos um péssimo trabalho à sociedade. Não cumprimos com aquilo que nos é exigido”.

    Luísa Rogério, presidente da Comissão da Carteira e Ética, tem a mesma opinião. “Sobre a cobertura da media pública, não queria usar uma palavra forte como deplorável, mas foi desolador. Nunca vi uma cobertura de eleições tão tendenciosa como esta. As eleições querem-se justas, livres e transparentes. Livres serão, mas justas não, tendo em conta esta postura, esta imposição de estados de opinião”. E acrescenta ainda: “Mesmo em espaços de publicidade, e estou a falar das chamadas da TPA Notícias, se utilizam imagens do partido da maioria, são chamadas intencionais e indiciam uma clara manipulação”.

    Acrescente-se que Luísa Rogério explicou que a Comissão chamou 69 jornalistas por violações do código de ética, e que alguns destes casos tiveram a ver com esta manipulação. Um jornalista da TPA Cabinda foi mesmo suspenso por um mês por manipular uma reportagem feita naquela cidade a propósito de um acto de massas que por acaso era da UNITA, em que os planos eram sempre fechados, mas que no final juntava imagens de uma multidão do MPLA.

    “Mesmo que alguns jornalistas assumam esse apelo ao voto no partido da maioria e que pensem que é correcto e justo, estão a violar o código da profissão. Nós temos que ter também uma acção pedagógica e ir tentando alterar as práticas. Mas sabemos que nem tudo é casual, e que fundamentalmente, há um limite para tudo. Limites legais e da Constituição, que não podem ser ultrapassados. Mas é verdade, tenho que concordar, esta campanha deixou a nossa classe lá muito em baixo”, acrescenta.

    A maior crítica dos observadores internacionais e das organizações nacionais face ao processo eleitoral tem a ver como a postura da comunicação social pública ou detida pelo Estado, que violou todas as regras de isenção, equilíbrio e transparência.
    (DR)

    Efeito Contrário

    Para os mentores desta estratégia de manipulação, que acreditavam que isto ia aumentar a votação no partido da maioria, os resultados não foram os esperados. Hoje a população, mesmo aquela que parece mais humilde, está mais informada e tem algum sentido de justiça, que não se coaduna com estas práticas. Pelo contrário, faz despertar um sentimento de revolta, e para os indecisos, este foi mais um “empurrão” para votarem na Oposição.

    Carlos Brás é um pequeno empresário da zona do Maculusso, que confessou ao Expansão: “Eu não sou militante de nenhum partido, faço parte daquele grupo que decide sempre nos últimos dias em que vou votar. Tal como muitos meus amigos, estava indeciso porque acho, se por um lado o País precisa de uma mudança, por outro acho também que o presidente João Lourenço fez algumas alterações importantes e teve o problema do Covid-19, o que limitou as suas reformas”.

    E avançou: “O que me fez mesmo decidir, e não aconteceu apenas a mim, foi esta postura da TPA e do Jornal de Angola. É inacreditável a forma como tratam uns e outros, parece que querem fazer de nós parvos. Não quero pessoas a governar que tenham esta postura e que pensem desta forma dos seus cidadãos. Quem é capaz de alimentar esta campanha de manipulação, achar que isto é normal, não gosta do seu povo. Por isso já me decidi, vou votar na mudança”.

    José Lopes, um barbeiro de Viana, tem a mesma opinião: “Aquilo que vemos na TPA provoca um sentimento de revolta e injustiça nas pessoas. Acho que ninguém gosta de ver os outros a serem tratados de forma diferente. Lá no meu bairro muitas pessoas mudaram o seu sentido de voto por causa disso”.

    Resumindo, esta postura da media pública além de causar problemas desnecessários a todos e ao País em termos internacionais, era só preciso um pouco mais de equilíbrio e bom senso, está também a ter efeitos contrários juntos dos eleitores indecisos, para quem se deve dirigir a campanha eleitoral. Mesmo dentro do MPLA há sectores que estão contra esta estratégia, que já mostraram o seu desagrado nas reuniões de cúpula, porque como diz Luísa Rogério, “tem que haver limites para tudo”.

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