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    Literatura e expressão linguística

    O drama sociocultural é um dos dilemas com que se confronta o escritor africano. Este dilema traduz-se no facto de o escritor africano ter de escrever, regra geral, numa língua europeia, estranha à maior parte da comunidade em que está inserido e que se acha representar.
    Bem entendido, o escritor angolano não poderia ficar de fora deste dilema, quanto mais não seja porque o português vernáculo não atende às solicitações que o seu variegado contexto sociocultural e plurilinguístico lhe oferece.
    Queremos crer que é justamente em atenção a essa expectativa que o percursor da literatura angolana Cordeiro da Mata, para além de filólogo e autor do primeiro dicionário quimbundo-português, curou de responder a essa inquietação ontológica, escrevendo um poema bilingue (quimbundo-português), intitulado “Kicôla”.
    Esta tradição literária parece ter-se mantido com o dicionarista e romancista Assis Júnior, ao publicar nos meados do Séc. XX um outro dicionário quimbundo-português, inspirado no pai espiritual da literatura angolana, Cordeiro da Mata.
    É interessante notar que, no longo percurso rasgado pela literatura angolana, foi o próprio Assis Júnior quem interessou e introduziu o poeta e nacionalista Mário de Andrade no estudo do quimbundo, língua com que falava com a madrasta e o criado no quintal – segundo seu próprio testemunho.
    Neste sentido, cumpre assinalar que Mário de Andrade procede a uma profunda ruptura ao “stablishment” literário então dominante na época – estamos nas décadas de 1940-50 – ao escrever um poema em quimbundo, sugestivamente intitulado “Muimbu ua Sabalu” (canção para Sabalu), que é um autêntico libelo acusatório à engrenagem infra-humana do contrato ou do trabalho forçado (autêntica reedição da escravatura em pleno século XX), por sinal um dos temas privilegiados e recorrentes da literatura da fase de pré-independência.

    Paradoxo linguístico

    Ainda à volta da problemática sociolinguística referida à literatura, os poetas da “Geração da Mensagem” procuraram também romper com o paradoxo linguístico de escrever para um público restrito, fazendo apelo à língua kimbundu, invocando e recriando o pregão da quitandeira, eivado de empréstimos: “ji Ferrerê…”, “Malimongê…” (António Jacinto), “Estão a dizer que é civrização”, “Ó ió kalunga uá mubanguelê” (este a morte é que o fez – Agostinho Neto), etc.
    Nestes termos, é mister assinalar que há uma permanente passagem de testemunho entre as diferentes gerações literárias angolanas, quer de poetas como de prosadores, pelo menos para o tema que nos mobiliza aqui e agora, encimando este texto.
    Prova acabada disso é a recriação, dir-se-ia reinvenção da linguagem colonial dos musseques na criação literária de um Luandino Vieira (descontada “A cidade e a infância” ), Boaventura Cardoso, Jofre Rocha e Uanhenga Xitu e da literatura oral por parte de escritores como Óscar Ribas e Raul David, este último fazendo a recolha do imaginário umbundo.
    A talhe de foice, um prosador da nova geração, Jacinto de Lemos, tem-se afirmado, na senda do resgate da linguagem coloquial dos musseques, contribuindo, assim, para a perpetuação da já aludida tradição linguístico-literária.
    Importa desde já salientar, à laia de conclusão, que uma plêiade de novos autores se tem ocupado em dar livre curso ao bilinguismo nalgumas das suas obras, como por exemplo – só para citar alguns – António Panguila, António Gonçalves, Lopito Feijó, Curry Duval e António Fonseca,  indiciando a existência, por via disso também, da matriz de uma linguagem geracional comum mantendo aceso o fio condutor dos seus predecessores, sem prejuízos da renovação temática e estilística.
    Ao fim e ao resto, a literatura é também uma manifestação de cultura e, consequentemente, reflecte a cosmovisão do contexto em que é plasmada, que encontra no carácter instrumental da língua a sua mais privilegiada,  senão  exclusiva,  forma  de expressão.
    Daí que, posta a questão neste termos, ganha primazia a relação endogâmica entre a literatura (angolana)  e o imaginário que procura traduzir, que na ocorrência é basicamente africano e bantu, sem prejuízo dos subsídios da cultura europeia (de que uma das correntes , glosando o poeta,  abraçou no passado).
    Nesta última ordem de razão, cite-se a osmose cultural observada, a título de exemplo, no caso de língua portuguesa na sua variedade dialectal local, em que, conforme procuramos recortar neste breve discorrer, predominantemente, senão tendencialmente, parece fluir num sistema de vasos comunicantes a literatura angolana.

    Muimbu ua Sabalu

    Mon’etu ua kasule
    A mu tumisa ku S. Tomé
    Kexiriê ni madukumentu
    Aiué!

    Mon’etu uaririle
    Mama uasalukile
    Aiué!
    A mu tumisa ku S. Tomé

    Mon’etu uai kiá
    Uai mu purá iá
    Aiué!
    A mu tumisa ku S. Tomé

    Mon’etu a mu butu
    K’atena ku mu kuta
    Aiué!
    A mu tumisa ku S. Tomé

    Mon’etu uolo banza
    O’xi’é o’nzo ié
    A mu tuma kukalakala
    Olo mu tala, olo mu tala

    — Mama, muene uondo vutuka
    Ah! Ngongo ietu iondo biluka
    Aiué!
    A mu tumisa ku S. Tomé

    Mon’etu k’avutuké
    Kalunga ua mu rié
    Aiué!
    A mu tumisa ku S. Tomé

    Canção de Sabalu
    (tradução em português)

    Nosso filho caçula
    Mandaram-no p’ra S.Tomé
    Não tinha documentos
    Aiué!

    Nosso filho chorou
    Mamã enlouqueceu
    Aiué!
    Mandaram-no p’ra S.Tomé

    Nosso filho já partiu
    Partiu no porão deles
    Aiué!
    Mandaram-no p’ra S.Tomé

    Cortaram-lhe os cabelos
    Não puderam amarrá-lo
    Aiué!
    Mandaram-no p’ra S.Tomé

    Nosso filho está a pensar
    Na sua terra, na sua casa
    Mandam-no trabalhar
    Estão a mirá-lo, a mirá-lo

    – Mamã, ele há-de voltar
    Ah! A nossa sorte há-de virar
    Aiué!
    Mandaram-no p’ra S.Tomé

    Nosso filho não voltou
    A morte levou-o
    Aiué!
    Mandaram-no p’ra S.Tomé

     

    Fonte: Jornal de Angola

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