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    José da Silva Maia Ferreira

    Escritor angolano, José da Silva Maia Ferreira nasceu a 7 de junho de 1827, em Luanda, embora alguns estudiosos indiquem Benguela como seu berço natal. Com apenas sete anos de idade foi para o Brasil, onde viveu entre 1834 e 1845, devido à perseguição feita a seu pai. Depois de uma estadia nos Estados Unidos, onde casou com uma norte-americana, visitou Portugal em 1844 e regressa a Luanda em 1845.  Publicou “Espontaneidades da minha vida. Às senhoras africanas” (1849). Profissionalmente sempre ligado à Administração Pública, José da Silva Maia Ferreira viveu entre Angola, Portugal e Brasil. Há incertezas quanto à data e local do seu falecimento (1867 ou 1881?).

    Porque podes duvidar?

    Ingrata porque motivo
    Cruel pode duvidar
    Desse fogo lento e vivo

    que é hoje o meu penar!
    Foste tu que mo acendeste
    Que desses olhos quiseste
    Que eu bebesse o teu fitar! –

    Qual mimosa a casta flor
    Desfolhada pelo vento –
    Assim me roubaste o amor –
    Que é hoje o meu tormento.
    Neste martírio de dor
    Indas queres com rigor
    Escaldar meu pensamento!

    Queres provas de que te amo?
    Desprende dos lábios teus
    Um desejo que me inflama
    Mostrar nele os votos meus!
    Exiges de mim a morte?
    Em tuas mãos a minha sorte
    Entreguei perante os Céus!

    Dize, fala, manda, ordena
    Com a tua casta isenção
    Aos tormentos me condena
    Que nunca direi que não. –
    Quer vivendo leda vida
    Quer em sorte desabrida
    Será teu meu coração!

    “Às Senhoras Africanas”
    União dos Escritores Angolanos
    Luanda
    1980

    À minha terra

    (No momento de avistá-la depois de uma viagem)

    De leite o mar – lá desponta
    Entre as vagas susurrando
    A terra em que scismando
    Vejo ao longe branquejar!
    É baça e proeminente,
    Tem d’Africa o sol ardente,
    Que sobre a areia fervente
    Vem-me a mente acalentar.

    Debaixo do fogo intenso,
    Onde só brilha formosa,
    Sinto n’alma fervorosa
    O desejo de a abraçar:
    É a minha terra querida,
    Toda d’alma, – toda – vida, –
    Qu’entre gozos foi fruida
    Sem temores, nem pesar.

    Bem vinda sejas ó terra,
    Minha terra primorosa,
    Despe as galas – que vaidosa
    Ante mim queres mostrar:
    Mesmo simples teus fulgores,
    Os teus montes tem primores,
    Que às vezes falam de amores
    A quem os sabe adorar!

    Navega pois, meu madeiro
    Nestas aguas d’esmeraldas,
    Vai junto do monte ás faldas
    Nessas praias a brilhar!
    Vae mirar a natureza,
    Da minha terra a belleza,
    Que é singella, e sem fereza
    Nesses plainos d’alem-mar!

    De leite o mar, – eis desponta
    Lá na extrema do horizonte,
    Entre as vagas – alto monte
    Da minha terra natal;
    É pobre, – mas tão formosa
    Em alcantis primorosa,
    Quando brilha radiosa,
    No mundo não tem igual!

    Benguelinha

    Passarinho primoroso,
    E gentil, plúmeo cantor,
    Que de aromas tão fragrantes
    Não esparzes com candor,
    Quando trinas mavioso
    Neste insólito rigor
    De um sol forte e constante
    Suaves cantos de amor?!

    Às vezes contemplo
    De dia no albor
    Sentir o rigor
    De escravo viver;

    Suspiras e gemes
    Em cantos de amor,
    Ah! Sê meu primor,
    Não queiras morrer!

    Anelas no mato,
    Andar pelas fragas,
    Viver só de bagas,
    Nos ramos dormir?

    Esvoaça santando
    Na tua prisão,
    Ai! tem compaixão,
    Não vive a carpir!

    Infiltra bondoso
    No meu coração
    O doce condão –
    Do meigo trinar;

    Quero juro contigo
    No mundo viver
    Contigo morrer,
    Contigo findar!

    E as asas abrindo
    o plúmeo cantor,
    As juras de amor
    Ouviu a sorrir –

    Em magos acentos
    Endechas trinou,
    Que da alma exalou,
    Que da alma sentiu! –

     

    Fonte: Jornal de Angola

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