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    Jerónimo Belo a face do Jazz

    O crítico Jerónimo Belo tem sido, ao longo de mais de três décadas, um incansável divulgador e estudioso do Jazz em Angola. Pelo seu trabalho notável e imenso contributo à divulgação, a organização do Festival Internacional de Jazz de Luanda, a empresa Ritek e a sua parceira sul-africana, Esp-Africa, decidiu nesta terceira edição do espectáculo homenageá-lo hoje, numa cerimónia que terá lugar no Instituto Camões – Centro Cultural Português, às 19h00, seguida da apresentação de fotografias relacionadas com o seu percurso cultural mais recente. A propósito, o Jornal de Angola entrevistou Jerónimo Belo, que afirma ter chegado ao Jazz pela via poética, pela política e não pela música.

    Jornal de Angola – Como é que tudo começou?

    Jerónimo Belo  – Foi com aqueles discos de massa pequenos de 45 rotações e uns maiores de 33 feitos em vinil, de Duke Ellington, Count Basie e alguns cantores de Blues, o meu primeiro contacto com o Jazz. Esta música marcou-me para sempre. Falo da música e do seu encantamento. A análise da problemática, as origens desta música, associada às piores realidades humanas (escravatura e racismo), a semiologia e sociologia do Jazz, a sua História. Enfim, as abordagens extra-musicais chegariam mais tarde, naturalmente. Fui, entretanto, mergulhando na sua história, na biografia dos seus músicos e… tornou-se um “casamento” para toda a vida. Sempre achei que seria importante divulgá-lo.

    JA – Quais são as referências e pessoas que mais o influenciaram?

    JB – Ao longo do meu percurso não posso deixar de sublinhar alguns nomes que foram (e são) importantes, porque me ajudaram a olhar para o Jazz com outros olhos: José Duarte, Raul Vaz Bernardo, António Curvelo, Manuel Jorge Veloso e também Joaquim Miranda e Jorge Lima Barreto, que infelizmente já nos deixaram. Críticos muito diferenciados, que têm produzido um trabalho meritório em Portugal e têm feito uma revelação militante, apaixonada e continuada do Jazz.

    JA – E as referências angolanas?

    JB – Entre nós, há alguns nomes que jamais poderei esquecer: Rogério de Vasconcelos e Rui Romano (já falecido), que trabalharam em Luanda na então Emissora Oficial de Angola e são os precursores da divulgação do Jazz na rádio em Angola, e igualmente José Andrade (Zan) que teve uma influência muito significativa e Domingos de Freitas Coelho, felizmente vivos e em grande forma. Conheci mais tarde, nos anos 70 [do século 20], outros amigos e “colegas de divulgação” quando comecei a apresentar programas na Rádio Nacional: José Manuel Nunes, Arlindo Macedo, Júlio Silva, Aldemiro Vaz da Conceição, Ferreira Marques, José Cunha e Francisco Fernandes “Chi­co Maravilha”, entre outros. A todos presto público testemunho de gratidão pelo estímulo e pelo apoio. Também não poderei esquecer alguns músicos com quem me tenho cruzado, alguns dos quais têm tocado, a meu convite, em Luanda, que têm ensinado muitas coisas que não estão nos livros.

    JA – Como explica esta paixão pelo Jazz?

    JB – Tenho defendido com os meios de que disponho a beleza do Jazz e a sua importância, referindo sempre que se trata de uma antologia infindável de poemas sonoros que é urgente conhecer, estudar e divulgar. Porquê? Do meu ponto de vista, o Jazz é a arte que melhor expressou o génio musical do século XX e também porque o Jazz tem vindo inequivocamente a progredir no sentido da obra aberta, através de uma vanguarda que se quer divulgada noutros mass media (órgãos de comunicação social) e que se une ao projecto de todas as artes. É importante sublinhar que na África lusófona, sobretudo a partir da segunda metade da década de 40 do século XX, o negro americano, a sua história, lutas e aspirações, constituíram área temática expressiva e facilmente destacável. Entre nós, esse papel de polarizador de energias de um grupo e a sua referência activista e ética, não parece excessivo atribuí-lo a poetas militantes como Agostinho Neto, Viriato da Cruz e António Jacinto. Eu cheguei ao Jazz pela via poética, pela política e não pela música.

    JA – Como recebeu a notícia desta homenagem?

    JB – No início deste ano, o director do Festival Internacional de Jazz de Luanda, António Cristóvão, teve a gentileza de me convidar para um almoço de trabalho em que anunciou algumas inovações da presente edição. Manifestou interesse na minha assessoria à organização do evento, como já acontecera em 2009 e, por fim, falou-me da homenagem. Depois de ter reflectido sobre a responsabilidade acrescida que passarei a ter face à organização e aos amantes de Jazz e de me ter aconselhado com a minha companheira, decidi aceitar os convites formulados, com orgulho e uma satisfação secreta. É gratificante que alguém, um organismo, uma empresa como é o caso, face à paralisia perigosa em que nos deixamos arrastar sempre que se fale de Jazz, da sua divulgação em Angola e da pouca dignificação das profissões ligadas às artes, reconheça honestamente o nosso trabalho, desenvolvido muitas vezes sob condições difíceis, frustradoras.

    JA – Qual acha que poderá vir a ser o contributo para a divulgação do Jazz a realização destes festivais?

    JB – Como referi, o Festival, especialmente nesta edição (infelizmente não me encontrava em Luanda na edição anterior), vai celebrar a pluralidade dos caminhos do Jazz entre as tradições e as abordagens mais futuristas e ousadas. A coabitação nos mesmos palcos de vários estilos do Jazz não é apenas saudável, mas “pedagogicamente correcta”. Os festivais e os concertos também têm uma vertente pedagógica. No caso concreto, existe uma perspectiva empresarial, que permite outras abordagens e outros sonhos. Como produtor independente, que desde 1991 realiza anualmente concertos de Jazz, de forma paciente, empenhada, com recursos reduzidos, só posso saudar este esforço e estas iniciativas.

    JA – Já é suficiente o número de amantes do Jazz no país?

    JB – Seremos sempre poucos para cobrir o país de flores bonitas, embaladas na mensagem de vida que o Jazz carrega consigo, com a mesma esperança e uma enorme determinação que aquele escravo angolano transportou secretamente consigo durante a travessia atlântica, até chegar à Virgínia, Jamestown, em 1619, num navio “negreiro”. Para terminar, o Jazz não é para dividir, é para unir. Repare que já existe um acordo para que o Luanda International Jazz Festival e o Festival de Jazz de Benguela possam, oportunamente, iniciar acções de colaboração. E isto é maravilhoso. Vamos fazer melhor juntos o que cada um de nós não consegue fazer sozinho.

    Fonte: Jornal de Angola

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