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    Harmonia da aldeia o segredo do soba

    A aldeia do soba Satchimona era a mais populosa da região de Ndonji. O povo vivia feliz e não havia as divergências que levavam à fuga de muita gente. Até há casos de aldeias que desaparecem por causa das zangas entre o povo. Quem viaja naquelas paragens encontra no meio do nada, tufos de bananeiras, mangueiras e eucaliptos que são sinais de antigos povoados abandonados devido a graves divergências entre os seus habitantes.
    Satchimona era um chefe prudente e sábio. Quando fundou a aldeia, pediu conselhos a um velho tio. E ele disse-lhe palavras que nunca mais saíram da sua mente:
    – Chefe, tem cuidado com o que dizes, não destruas a tua aldeia com a língua!
    O soba compreendeu a mensagem do tio e foi para a embala, onde o povo estava à sua espera, para o vitoriar. Desde então, Satchimona foi governando a aldeia com muita sabedoria e conseguia unir as pessoas desavindas ou acalmar os ofendidos. Quando no calor da discussão alguém ameaçava ou insultava, o ofendido ia apresentar o caso ao soba. E ele dizia-lhe:
    – Kajíla alisas wila waswa! Cão que ladra não morde. Aquele que ameaça não passa das palavras e só ofende quem é grande, mas esse, por ser grande, nunca é ofensivo.
    Nas questões mais graves da aldeia, o soba chamava os juízes que o ajudavam a proferir a sentença mais justa. O ferreiro sozinho estraga o ferro e o juiz que julga apenas pela sua cabeça, estraga a causa.
    Satchimona prezava tanto a harmonia que nunca ousava aproximar-se do seu povo sem ser notado. Aprendeu com os seus ancestrais que quem fica à espreita, arrisca-se a ouvir falar de si. E quem chega sem ser esperado, pode ouvir coisas que lhe desagradam.
    É assim que começam muitas desavenças  e o soba Satchimona tinha um segredo para evitar ouvir falar mal dele. Porque na sua aldeia também existiam descontentes, mas esses agiam com a cobardia habitual dos que estão sempre a dizer mal, só porque querem mais do que valem ou merecem. E sabendo que o soba se aproximava, se estavam a falar mal dele, rapidamente se desfaziam em elogios. E diziam palavras agradáveis sobre o soba, para ele ouvir quando ainda estava a uma certa distância dos grupos maldizentes.
    Um dia o imperador Muata Iânvua foi visitar a região de Ndonji. Chegou à aldeia de Satchimona ao cair da tarde, quando as cantáridas, depois da chuva forte, faziam o seu último voo e queimavam como ferro em brasa, se chocavam contra o corpo das pessoas. O imperador ficou muito admirado por ver uma aldeia tão grande. Quando as aldeias crescem muito, aparece sempre uma divergência grave que leva vários grupos a partir para fundarem outra aldeia. Mas aquela crescia, crescia, tinha cada vez mais gente e todos viviam em paz e harmonia.
    O imperador perguntou ao soba qual era o seu segredo. E ele chamou-o à parte, desdobrou o seu pano com riscas azuis e mostrou, amarradas à cintura, várias campainhas. Depois deu dois passos firmes e as campainhas soaram. O imperador percebeu aquela mensagem muda e disse:
    – Kalámbaka tchiúnda kéxi kwénda uholela: hiwíza kuwana makwamba. O chefe da aldeia deve fazer tudo para não surpreender os que falam e murmuram de si.
    Satchimona quando via grupos reunidos, libertava as campainhas dos panos e a cada passo que dava, elas soavam. Assim, ainda ele estava fora da vista e já todos sabiam que andava por perto. Quando os descontentes davam largas à sua cobardia e falavam pelas costas, mal ouviam as campainhas faziam grande algazarra em louvor do soba.
    Se Satchimona percorria os caminhos mais escondidos, ele libertava do pano as campainhas que trazia à cintura e a cada passo que dava, elas soavam. Mesmo os que faziam ninhos de amor em camas de capim, ouviam aqueles sons alegres e límpidos. Era o soba que se aproximava e até as traições ficavam desarmadas.
    Satchimona nunca ouviu nada de desagradável na aldeia e por isso não se envolveu em situações desagradáveis. O povo imitava-o e todos evitavam ouvir coisas desagradáveis, ditas pelos cobardes que nunca são capazes de falar quando têm oportunidade para isso e preferem destruir os outros com a língua.

    Fonte: Jornal de Angola

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