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    Fim do martírio para mulheres

    Em cada cem mil mulheres que dão à luz, cinco fica a sofrer de fístula, uma doença embaraçosa, que remete a mulher para uma solidão involuntária. Abandonadas pelos maridos e pelas famílias, devido à incontinência urinária que provoca, só a cirurgia lhes devolve uma vida condigna. No entanto, em Angola, ela apenas é possível no Hospital Américo Boavida, em Luanda, com muitas limitações, sendo por isso urgente a criação de um centro especializado.
    Há mais de 15 anos que Laurinda Capita, hoje com 50, padece de uma fístula obstétrica surgida durante o seu terceiro parto, que demorou demasiado por o bebé estar pélvico. “Foram vários dias com dores e o bebé estava com as pernas para baixo em vez da cabeça. O médico que me fez o parto parecia não ter experiência alguma, porque o que ele fez foi apenas retirar o bebé e abandonar-me à minha pouca sorte”, recorda Laurinda, que então vivia sitiada devido à guerra, sem qualquer possibilidade de ser acompanhada durante a gravidez.
    O filho não sobreviveu, ela passou a viver em permanente incontinência urinária e o marido deixou-a. Com a sua cara enrugada e sofredora, conta a história do sofrimento interior de uma mulher oprimida pela doença. “Sentia-me mal e passava os dias a esconder-me dos olhos curiosos”, recorda.
    Depois de viver no Bolongongo, província do Kwanza-Norte, até há dois anos, Laurinda decidiu voltar para Luanda para reorganizar a vida e melhorar a educação dos filhos. “Neste momento, estou a viver em casa de um tio, em Viana, onde não sou descriminada. Muito pelo contrário, tenho tido o apoio dos meus filhos e familiares e com a ajuda deles consegui, finalmente, saber que a minha doença tem cura”, disse. Laurinda percorreu diversos centros de saúde, nos quais lhe foram dizendo que a sua doença não tinha cura e que de nada lhe valia lutar. Até que um médico do Centro de Saúde de Viana a encaminhou para o Hospital Américo Boavida, onde actualmente está internada a realizar exames, para posteriormente se submeter a uma intervenção cirúrgica.
    “Sinto-me satisfeita por saber que, depois de tanto tempo, vou finalmente ficar curada”, sublinha.
    Reduzida capacidade de resposta
    Apesar do elevado número de mulheres que sofrem desta patologia, poucas são aquelas que conseguem curar-se. A cirurgia que o permite apenas é realizada no Hospital Américo Boavida e a título excepcional, uma vez que, apesar de a fazerem, não existe, de facto, um serviço especializado nesta área. A lista de espera é longa, rondando as 300 mulheres.

    É o caso de Rute Luís, que sofre de uma fístula desde os 13 anos idade, na sequência do seu primeiro parto. Também ela, à semelhança de Laurinda, perdeu o bebé, o marido e a família. Actualmente com 24 anos e a viver no Hoji ya Henda, nem sempre tem possibilidades de se deslocar ao Américo Boavida para saber se a operação estará para breve, ou não, por falta de dinheiro para a viagem. “Precisamos que o Estado nos ajude, há tantas mulheres a viverem nesta situação”, alerta. Angelina Zeca, de 18 anos, é uma das poucas que teve a sorte de já ter sido operada e confessou ao Jornal de Angola que desde então se sente outra. Como todas as demais mulheres que sofrem de fístula, teve um parto demasiado demorado, perdeu o bebé e ficou incontinente. “Depois de muito tempo nessa situação, que me custou muito sofrimento por ser desprezada até por pessoas próximas, soube que, afinal de contas, esta doença é curável sem que se tenha de pagar”.

    Perigo durante o parto

    Segundo o urologista do Hospital Américo Boavida, Mambela Mbela, a fístula obstétrica é causado por parto prolongado, que pode demorar dias.
    “A cabeça do bebé causa fricção nos tecidos pélvicos da mãe, acabando por interromper o fluxo de sangue para estes tecidos. Em pouco tempo, eles morrem e deixam um orifício grande, ligando a vagina à bexiga ou até mesmo ao recto, provocando a perda permanente de urina ou fezes”, explicou.
    Em cada cem mil mulheres que dão à luz, cinco fica a sofrer de fístula provocada por complicações no parto, também perdendo o bebé, esclarece Mambela Mbela, acrescentando que esta situação é mais comum entre as mulheres jovens.
    Dadas as características da própria doença, a maioria das mulheres que dela sofrem vive permanentemente envergonhada e é alvo de discriminação social, devido ao cheiro permanente a urina.
    De acordo com o urologista, estas mulheres, além de sofrerem com a perda do seu bebé, são ainda rejeitadas pelo marido e pela família, entregues a um futuro incerto, isoladas do mundo e de todos aqueles que um dia foram importantes.

    Uma esperança

    Mambela Mbela adiantou que existe um projecto para a criação de um centro de tratamento específico de fístulas, mas que actualmente se encontra parado.
    “A patologia da fístula tem, como todas as outras, mas em especial os cancros, uma estrutura própria e que deve, por isso, ser acompanhada por uma estrutura especializada no atendimento, evitando desse modo um desperdício de esforços”, explicou.
    O urologista sublinhou que é urgente que se crie um centro de atendimento especializado só para operar fístulas, porque no hospital surgem sempre urgências relacionadas com a própria situação hospitalar, impedindo que se mantenha o material destinado às fistulas e a paciente não é assistida como devia. “O que acontece muitas vezes é um mau encaminhamento do material porque se dá prioridade a uma urgência.
    No serviço de Urologia do Américo Boavida há várias patologias cuja operação é programada com as fístulas”, revelou. A média é de uma por mês.

    Fonte: Jornal de Angola

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