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    Espionagem industrial: como a China conseguiu segredos tecnológicos dos EUA

    Uma fotografia aparentemente inocente levou à queda de Zheng Xiaoqing, antigo funcionário do conglomerado do setor de energia General Electric Power.

    Zheng é cidadão americano. Segundo acusação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, ele escondeu arquivos confidenciais roubados do seu empregador no código binário da fotografia digital de um pôr-do-sol, que ele encaminhou para si próprio.

    A técnica é chamada de esteganografia — uma forma de esconder um arquivo de dados no código de outro arquivo. Zheng utilizou a técnica diversas vezes para retirar arquivos sensíveis da GE, um conglomerado multinacional conhecido pela sua atuação nos setores de assistência médica, energia e aeroespacial, fabricando de tudo, desde geladeiras até motores de aviões.

    As informações roubadas por Zheng estavam relacionadas ao projeto e fabricação de turbinas a gás e vapor, incluindo pás e vedações de turbinas. Avaliadas em milhões, as informações foram enviadas para o seu cúmplice na China, onde seriam utilizadas para benefício do governo chinês, além de companhias e universidades localizadas na China.

    Zheng foi condenado a dois anos de prisão no início de janeiro. É o mais recente de uma série de casos similares investigados pelas autoridades americanas.

    Em novembro de 2022, o cidadão chinês Xu Yanjun, acusado de ser espião profissional, foi condenado a 20 anos de prisão por conspiração. Ele roubou segredos comerciais de diversas empresas do setor de aviação e aeroespacial dos Estados Unidos, incluindo a GE.

    Mas esta é apenas uma batalha de uma luta maior. A China tenta obter conhecimento tecnológico para alavancar sua economia e seus interesses na ordem geopolítica global, enquanto os Estados Unidos fazem o melhor que podem para evitar o crescimento de um sério concorrente para o poder americano.

    Roubar segredos comerciais é vantajoso por permitir que os países “deem um salto nas cadeias de valor global com relativa rapidez e sem os custos, em termos de tempo e dinheiro, decorrentes de depender apenas das capacidades nacionais”, afirma Nick Marro, da Unidade de Inteligência do grupo The Economist.

    Em julho de 2022, o diretor do FBI Christopher Wray afirmou a um grupo de acadêmicos e líderes corporativos em Londres que a China pretendia “saquear” a propriedade intelectual das empresas ocidentais, para poder acelerar seu próprio desenvolvimento industrial e, por fim, dominar setores importantes da indústria.

    Ele alertou que a China estava espionando empresas em toda parte, “das grandes metrópoles até cidades pequenas, das 100 maiores empresas da revista Fortune até start-ups — e de todos os setores, desde aviação até inteligência artificial e farmacêuticas”.

    Na época, o então porta-voz do Ministério do Exterior Zhao Lijian declarou que Wray estava “difamando a China” e tinha uma “mentalidade da Guerra Fria”.

    ‘A China está tentando derrubar nossa posição’

    Na declaração do Departamento de Justiça sobre Zheng, Alan Kohler Jr., do FBI, afirmou que a China tinha como alvo a “criatividade americana” e estava tentando “derrubar nossa posição” de líder mundial.

    Zheng era engenheiro especializado em tecnologia de vedação de turbinas. Ele trabalhava com diversas tecnologias de contenção de vazamentos na engenharia de turbinas a vapor.

    Essas vedações otimizam o desempenho das turbinas, “seja aumentando a potência ou a eficiência, ou ampliando a vida útil do motor”, segundo o Departamento de Justiça. As turbinas que alimentam aeronaves são fundamentais para o desenvolvimento da indústria da aviação chinesa.

    Os equipamentos de aviação e aeroespaciais estão entre os 10 setores que as autoridades da China pretendem desenvolver rapidamente para reduzir a dependência chinesa da tecnologia estrangeira até, um dia, eliminá-la. Mas a espionagem industrial da China também está voltada para diversos outros setores.

    Segundo Ray Wang, fundador e CEO (diretor-executivo) da empresa de consultoria Constellation Research, com sede no Vale do Silício (EUA), estes setores incluem o desenvolvimento farmacêutico e a nanotecnologia — engenharia e tecnologia conduzidas em nanoescala para uso em setores como a medicina e a indústria têxtil e automotiva. Um nanômetro equivale a um bilionésimo de metro.

    O interesse chinês também inclui produtos farmacêuticos e a bioengenharia — a imitação de processos biológicos para fins como o desenvolvimento de próteses biocompatíveis e o crescimento de tecidos regenerativos.

    Wang mencionou um episódio sobre um antigo chefe de pesquisa e desenvolvimento de uma das 100 maiores empresas da revista Fortune, que contou a ele que acabou descobrindo que “a pessoa em quem ele mais confiava” — alguém tão próximo que seus filhos cresceram juntos — estava na folha de pagamento do Partido Comunista Chinês.

    “Ele me explicou gentilmente que os espiões estão em toda parte”, afirma Wang.

    No passado, a espionagem industrial de países como o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan e Singapura era preocupante. Mas, quando as empresas locais se tornaram líderes de mercado inovadoras por seus próprios méritos — e começaram a proteger sua própria propriedade intelectual —, seus governos passaram a aprovar leis para levar a questão mais a sério.

    “À medida que as empresas chinesas se tornaram mais inovadoras na última década, começamos também a observar um notável fortalecimento da proteção aos direitos de propriedade intelectual no país”, afirma Marro.

    A China também conseguiu conhecimentos fazendo com que empresas estrangeiras fornecessem tecnologia com base em contratos de joint venture, em troca de acesso ao mercado chinês. E, apesar das queixas, o governo chinês sempre negou as acusações de coerção.

    O acordo sobre hackers é uma ‘piada’

    Já houve também tentativas específicas de refrear os hackers.

    Em 2015, os Estados Unidos e a China chegaram a um acordo em que os dois lados prometeram não realizar “roubo de propriedade intelectual por meios cibernéticos, incluindo segredos comerciais ou outras informações confidenciais, para obter vantagens comerciais.”

    No ano seguinte, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos já acusava os chineses de violar o acordo, embora reconhecesse que a quantidade de tentativas de invadir dados empresariais ou governamentais havia caído “dramaticamente”.

    Mas observadores afirmam que o impacto geral do acordo foi mínimo. Wang afirma que o acordo foi uma “piada” e não foi cumprido. A espionagem cibernética chinesa nos Estados Unidos tem sido “generalizada”, estendendo-se até os laboratórios acadêmicos.

    “Ela tem estado presente em todos os aspectos dos negócios ocidentais”, afirmou ele à BBC.

    Mas Lim Tai Wei, da Universidade Nacional de Singapura, observou que não houve “estudos definitivos e incontestáveis” sobre a extensão do fenômeno.

    “Alguns acreditam que houve uma pequena redução da ciberespionagem chinesa sobre os Estados Unidos, mas que os níveis anteriores foram retomados em seguida”, afirma ele. “Outros acreditam que a falha se deve à deterioração geral das relações entre os Estados Unidos e a China.”

    Enquanto isso, os Estados Unidos estão tentando bloquear diretamente o progresso chinês no importante setor de semicondutores, que é fundamental para tudo, desde smartphones até armas de guerra. Washington afirma que o uso dessa tecnologia pela China representa uma ameaça à segurança nacional.

    Em outubro de 2022, os Estados Unidos anunciaram alguns dos controles de exportação mais abrangentes já impostos até hoje. Esses controles exigem licenças para as empresas que exportarem chips para a China usando ferramentas ou software dos Estados Unidos, independentemente do lugar do mundo onde os chips forem fabricados.

    As medidas de Washington também proíbem que cidadãos americanos e portadores dos chamados green cards trabalhem para certos fabricantes chineses de chips. Os green cards concedem aos seus portadores residência permanente nos Estados Unidos e o direito de trabalhar no país.

    Para Marro, essas medidas devem retardar os avanços tecnológicos chineses, mas também irão acelerar os esforços da China para retirar produtos dos Estados Unidos e de outros países das suas cadeias de fornecimento de tecnologia.

    “A China vem tentando fazer isso há anos, com sucesso limitado, mas estes objetivos políticos agora se tornam mais urgentes, como resultado dos recentes controles norte-americanos”, afirma ele.

    Com a China também invocando sua própria segurança nacional, a corrida pela liderança tecnológica entre as duas maiores economias do mundo provavelmente só se intensificará ainda mais. Mas Wang acredita que os Estados Unidos ainda estão em vantagem.

    “Meus amigos do setor de cibersegurança contam que, quando invadem sites chineses, a única tecnologia valiosa [que conseguem encontrar] é propriedade intelectual americana”, afirma ele.

    Por Nicholas Yong

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    FonteBBC

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