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    Doentes abandonados depois de recuperados

    O cenário na leprosaria da Funda,município de Cacuaco, em Luanda, é de tristeza. Os rostos dos doentes estão carregados de tristeza. Eles sentem-se excluídos pelos familiares e pela sociedade. Só aqueles que lhes garantem os tratamentos os encaram como seres humanos.

    Os doentes internados na leprosaria da Funda desconhecem a origem da doença. A lepra tomou conta das suas vidas porque quando lhes foi diagnosticada a doença, já estava muito avançada. Todos afirmam que começaram por sentir dores mas resolviam o problema com tratamento caseiro que consistia em friccionar a parte afectada com banha de jibóia e casca de mangueira. “Na altura não sabia o que tinha. Uns falavam que era cinza, outros que era tala”, explicou Avelino Gaspar, de 62 anos.

    Avelino Gaspar “apanhou” a doença no município do Cuango, província da Lunda- Norte. Por falta de assistência, como contou à reportagem do Jornal de Angola, foi transferido para Luanda e internado na clínica da Força Aérea Nacional. Mais tarde foi transferido para o Hospital Josina Machel onde ficou internado alguns dias. Posteriormente os familiares decidiram levá-lo para a leprosaria da Funda onde ainda está.

    Avelino Gaspar sente-se curado da doença: “sinto-me bem de saúde, apesar da perna esquerda apresentar alguma deficiência”. Aproveitou para homenagear o falecido doutor Matamo, um profissional, como realçou, incansável para com os doentes que padecem de lepra.

    Com uma certa tristeza disse que quando começou a ficar doente foi abandonado pelos seus familiares mais próximos.

    Mas ultimamente recebe visitas da família: “os meus filhos e os meus irmãos estão cá quase todos os meses a saberem da minha situação”, disse Avelino Gaspar.
    Questionado o porquê de insistir em viver na leprosaria mesmo considerado curado, respondeu que “não tenho casa, nem lavra, nem empresa para trabalhar, se abandonar o centro não tenho comida para comer todos os dias como aqui”.

    Ele acrescentou que voltar à sua terra Natal, em Malange, está fora de causa. “Pretendo ficar aqui até aos últimos dias da minha vida. Já somos uma família e vivemos da ajuda do governo, das igrejas e de pessoas de boa fé”, assegurou.

    Na Leprosaria da Funda encontrámos também Manuel Sanjanga. É um jovem de 16 anos. Na ocasião estava numa cadeira de rodas com as pernas e braços com ligaduras que lhe cobriam as feridas provocadas pela doença. O jovem padece da doença há oito anos. Revelou ao Jornal de Angola que foi atacado pela lepra na sua terra natal, Huambo.
    Chegou à leprosaria, frisou, com a doença em estado avançado. Manuel Sanjanga disse que hoje o seu estado de saúde evoluiu satisfatoriamente e as feridas já estão a sarar. O jovem reconheceu a forma “incansável” como as enfermeiras têm prestado assistência médica e medicamentosa aos pacientes: “quero louvar a forma carinhosa como somos assistidos pelos enfermeiros e pela direcção da leprosaria”.

    Manuel Sanjanga, que viu a sua formação académica interrompida devido à doença, pensa dar continuidade aos estudos logo que esteja curado.

    Companhia da mãe

    A viver em companhia da mãe, que também padece de lepra, Manuel Sanjanga apelou à sociedade para não olhar os leprosos como pessoas inúteis, devido às deformações causadas pela doença.
    “Precisamos de muita ajuda para ganhar auto estima e perder o preconceito da doença”, afirnmou.

    Maria Naputu, 61anos, proveniente da província do Huambo, disse que está a receber tratamento médico e começa a sentir melhoras: “já estou a sentir-me bem devido ao tratamento e ao carinho que tenho recebido por parte dos enfermeiros”, reconheceu. Ela desconhece como apanhou a doença. Depois de muito tempo com dores foi ao médico que lhe diagnosticou cancro da pele. Foi transferida para Luanda juntamente com o filho.

    A anciã quer regressar à sua terra natal onde tem toda a família. Vitória Chilombo, outra doente de lepra, natural de Camacupa, disse que para além do sofrimento da doença, chora amargamente pela morte dos seus filhos durante a guerra: “eles é que podiam tomar conta de mim, mas, infelizmente, já morreram”. José Paulo Cabongo, 37 anos, natural de Malange, vive na leprosaria na companhia da esposa e dois filhos. Arranjou no centro uma mulher que também sofre de lepra. Dessa relação resultou o nascimento de dois filhos, um de dois anos e outro de três anos.

    Falta de médico

    A Leprosaria da Funda regista a falta de um médico de especialidade para dar resposta aos inúmeros casos de pessoas com lepra e com infecções da pele que ali afluem.
    A assistência médica é garantida pelas enfermeiras e outros técnicos de saúde. Paulo Fula explicou que a unidade dispõe de médico apenas quando há casos graves.
    Nos últimos tempos, tem-se verificado um aumento de doentes com lepra. A maioria dos doentes é proveniente das províncias de Malange, Huambo e Benguela. Nos últimos anos não está a fazer internamentos pelo facto dos doentes curados permanecerem ali, em virtude de terem sido abandonados pelas próprias famílias.

    Os pacientes em estado grave são internados e ficam sob observação médica durante dois meses. Findo o prazo recebem alta médica e regressam, apenas, para fazerem consultas ambulatórias. “Infelizmente muitos recusam ir a casa”, disse uma responsável do centro.
    Quanto ao abastecimento de medicamentos, a leprosaria recebe mensalmente as quantidades necessárias para garantir a assistência aos doentes.

    Abandono familiar

    Muitos doentes são abandonados pelos seus familiares pelo facto de apresentarem deformações no corpo. Suzete Francisco João, profetiza da Igreja Teosófica Espírita, condenou a atitude desses familiares que abandonam os seus familiares nas unidades hospitalares.
    Suzete João considera a lepra como uma praga que invade e destrói e o corpo humano. Os doentes sofrem um grande desgaste psicológico e muitas vezes ficam dementes, desesperados e até acabam por se suicidarem. Paulo Fula, coordenador da leprosaria, reconheceu que existem alguns familiares dos doentes que ainda têm aparecido, embora com algum receio de estarem junto dos mesmos.

    História da doença

    A hanseiniase, também conhecida por lepra, é uma doença causada pela Mycobacterium Leprae, ou bacilo de Hansen, que é um parasita que ataca as células cutâneas dos nervos periféricos da pessoa afectada.
    É uma doença infecto-contagiosa, de evolução lenta, que se manifesta principalmente através de lesões na pele e nos nervos periféricos principalmente nos olhos, mãos e pés.

    Tratamento dos doentes

    A lepra é tratada com antibióticos. Os técnicos de Saúde Pública apostam no diagnóstico precoce para que o tratamento dos doentes tenha mais êxito. O tratamento é eminentemente ambulatório.
    A lepra pode acarretar invalidez severa e permanente se não for tratada a tempo. A OMS recomenda desde 1981 uma terapia composta de três medicamentos: a Dapsona, a Rifampicina e a Clofazimina.
    Esta associação de medicamentos destrói o agente patogénico e cura o paciente. O tempo de tratamento oscila entre seis e 24 meses, de acordo com a gravidade da doença.
    Quando as lesões são graves o tratamento é à base de próteses, intervenções ortopédicas, e calçado especial. O tratamento das incapacidades causadas pela lepra é também a fisioterapia.

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