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    Da Guerra, esse monstro que tudo arrasta

    (OPAIS)
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    Apesar de neste momento os Estados Unidos da América terem um presidente que até foi Prémio Nobel da Paz, na verdade as coisas não estão bem, não estão conformes. Os falcões do exército americano convenceram Obama efetivamente de que o problema da Síria só se resolverá com guerra e, pelos vistos, embora com muitos entraves, tudo leva a crer que em breve alguma coisa se passará, embora não se irá além de uns fogachos, pelo menos para contentar os instintos mais belicistas dos fanáticos inveterados dos jogos de guerra, que, lá como cá, continuam a existir.

    É pena que não meditem nas sábias palavras de um dos maiores clássicos da língua portuguesa, o Padre António Vieira, que, num sermão histórico e panegírico, num aniversário da rainha D. Maria Francisca de Sabóia, caraterizou a guerra de forma magistral: «É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta.

    É a guerra aquela tempestade terrestre que leva os campos, as casas, as vilas, as cidades, os castelos, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que ou não se padeça ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro: – o pai não tem seguro o filho; o rico não tem segura a fazenda; o pobre não tem seguro o seu suor; o nobre não tem segura a sua honra; o eclesiástico não tem segura a imunidade; o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus, nos templos e nos sacrários, não está seguro.» Há um ditado popular que diz que o pior cego é o que não quer ver.

    É um dito que tem origem em Nîmes, França, quando, em 1647, na universidade local, o doutor Vincent de Paul D`Argent fez o primeiro transplante de córnea num aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos para Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imaginava era muito melhor. Pediu ao cirurgião que lhe arrancasse os seus olhos.

    O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou para história como o cego que não quis ver. Pelos vistos o exemplo deste cego faz agora escola. Depois da hetacombe do Vietname e do falhanço total do Iraque, Washington prepara-se para mais um desastre, o que é tanto mais inconcebível quanto previsível. Os portugueses foram buscar o termo guerra às invasões germânicas, de suevos, godos, ostrogodos e vândalos. É uma palavra vem do frâncio werra «peleja», “discórdia”, “revolta”. “O frâncico era a língua dos Francos, antigo povo germânico que habitava uma região no oeste do Reno e governava grande parte da Europa Ocidental desde o século V.

    Uma das suas cidades mais tradicionais era Frankfurt, ou seja Vau dos Francos, a bonita cidade alemã, que ainda hoje é célebre pelas suas feiras internacionais. Vem a propósito dizer, já que falamos de vândalos, que é este termo que dá origem à palavra Andaluzia, terra dos vândalos, que perdeu o v devido aos árabes estarem acostumados a aspirar as primeiras consoantes das palavras. A longa (e embora imposta) pax romana quase fizera esquecer o termo latino para a guerra: bellum, e, que só viria a reaparecer, mas por via erudita, no Renascimento, com as armas bélicas, os povos belicistas, os homens belicosos.

    Lembremo-nos, por exemplo, de uma das mais bonitas armas que se conhecem pela sua dinâmica e linhas estéticas – se é lícito dizer que é bonita uma arma de guerra – a Parabellum, e está tudo dito. Os vândalos ainda agora são de tão má memória que ainda hoje as gentes do Minho português num delicioso falejar chamam a um sujeito mal comportado de gândulo ou gandulo, o que quer dizer muita coisa. A guerra era, pois, o termo germânico werra (o dabliu deve ler-se gue).

    Fazia-se, na Idade Média pelos métodos do fossado ou da razia, raras vezes pela batalha em campo aberto. Um fossado, de que tantas vezes falam as cantigas de amigo, esse era latino: o fossatum, um lugar consolidado com trincheiras, uma fossa, portanto uma cova cavada em baixo, no interior da terra, razão porque ainda agora, quando estamos em baixo, a nível psicológico, dizemos que estamos na fossa.

    Enquanto o fossado tivesse desaparecido da terminologia dos nossos tempos, a razia é um termo comum: vai dos feitos futebolísticos às aventuras do rapazio, até às consequências dos atos dos amigos do alheio. Diz Roby Amorim, no seu Elucidário de Conhecimentos quase inúteis, que só os ladrões estão etimologicamente corretos.

    Razia (aliás razzia) é palavra árabe que significa inesperado ataque noturno, como, por exemplo, houve muitas nos conflitos mais recentes, em Angola. Mas, com o andar dos tempos, as consequências do ato acabaram por lhe roubar o significado. Burgos, nome de cidade espanhola, e trégua mantiveram-se na Península Ibérica como derivados de werra, a atestar a colonização suévica, e Leão corresponde ao étimo de legião (a VII que esteve por ali estacionada por longo tempo, antes de ocupar o norte de Portugal).

    Socorrendo-nos de novo de Roby Amorim ficamos a saber que «da guerra com os árabes, ficaram-nos inúmeras palavras. Um almirante (a que a Idade Média proferia almiral) é um al-mir mouro e um alferes teria sido um alferico.» Mais pacificamente, um açoute (azzaut) não passava de uma simples bofetada, enquanto agora é uma pancada no cu, também chamado traseiro, por estar situado atrás das nossas partes dianteiras.

    José Pedro Machado, no seu Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, defende que werra terá sido imposto pelos soldados germânicos do exército romano, acrescentando que “o germanismo tornou-se comum em latim vulgar e passou a todos os idiomas romances que o conservaram, salvo o romeno que, posteriormente, o substituiu por rasboiu, eslavismo..

    Por Rodrigues Vaz

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