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    Casinos chegam de forma silenciosa

    Os casinos são locais que se tornaram favoritos para muitos angolanos e não só. Para um “inocente” que visita um desses locais, à primeira vista parece deparar com simples jogos. Os gráficos dos jogos são realistas e modernos com sons e animados. São jogos aparentemente divertidos, com jackpots a saírem a todo momento. Mas é preciso apostar muito para ter a sorte de ganhar o jackpot do jogo.
    Em Luanda existem mais de cinco casinos. O Tivoli e o Marinha são os mais frequentados.
    Nesses locais, o destaque do jogo, como constatou a reportagem do Jornal de Angola, recai para os de mesa, como a roleta, blackjack, baccarat, dados, máquinas de slots progressivas, que por sinal já existem em 3D, jogos de lotaria como as raspadinhas ou apostas desportivas de futebol de chutos de penaltis, em que quanto mais golos marcar mais se ganha, apostas de corridas de cavalos e muitos mais.
    Este tipo de prática, jogos nos casinos, não atrai só os homens. Há mulheres entre os 18 e os 60 anos que também frequentam esses locais. Num dos casinos, na baixa de Luanda, encontrámos, sábado, uma jovem dos seus 25 anos, a jogar. Nervosa por perder a primeira partida, Teresa (nome fictício), batia na máquina para desanuviar a fúria. A acção pareceu um acto normal perante outros usuários. Muitos deles recusaram-se a falar à reportagem do Jornal de Angola, mas também não paravam de “investir” na jogada.
    “Aqui é assim. É jogar até ganhar. Só se vai para casa quando o bolso estiver roto”, disse outro frequentador da sala de jogos, onde o cheiro a tabaco e bebidas alcoólicas predomina.
    Em Luanda existem vários casinos, mas o destaque vai para o “Tivoli”, “Marinha”, “Imperador Brasília”, “Imperador Sete” e “Imperador Morro Bento”, entre outros.
    Nos casinos é fácil notar os jogadores compulsivos, pela forma como falam e se dirigem rapidamente à caixa. Nestas casas o sigilo sobre a identidade dos usuários, principalmente, da área vip, é trancado a sete chaves. Constatámos que o Casino Tivoli é um dos preferenciais dos nacionais e estrangeiros.

    Em 10 de Novembro, aquando da reinauguração do “Casino Marinha”, o director de marketing da empresa Angola Casino, Tiago Vilela de Sousa, em entrevista à Angop, disse que em 2012 a empresa prevê abrir o maior casino do país, num espaço de 6,5 mil metros quadrados. “Queremos estar entre os melhores de África e seguir como exemplo a África do Sul, que possui o maior número de casinos no continente e é o quinto no mundo”, frisou.

    O sonho de ganhar milhões

    Hoje, em máquinas de tecnologia avançada e outras nem tanto assim, usuários apostam cada dia mais, frequentam os casinos com a ideia de que “hoje é o meu grande dia”, “chegou a minha vez”, “se eu perder não jogo mais” e, entre outros pensamentos, a maior ambição é ganhar milhões. Carlos tem apenas 28 anos e considera-se um viciado moderado e vê no Casino uma óptima oportunidade de fazer amizades, de exercitar a mente e de aprender boas lições para a sua vida. “Muitos têm uma má impressão do Casino, mas não é mais do que uma comunidade de pessoas normais, trabalhadoras, que curtem e gostam de jogos”, disse.
    Cada sensação de jogar e ganhar é única, disse Carlos. “É um sinónimo de ganhar dinheiro, muito dinheiro. Sinto que vou enriquecer se não parar de acreditar que estou no caminho certo, que mais cedo ou mais tarde possa vir a ganhar o valor que sempre sonhei”, afirma Carlos, que não aceitou divulgar quanto já ganhou e quanto espera ainda ganhar.
    O usuário não pensa em parar. Carlos garantiu à nossa reportagem que enquanto não se tornar milionário, via casino, não vai parar. “Eu já ganhei mais de cem mil dólares em casinos. Mas não estou satisfeito. Este jogo atrai-me, por isso quero mais. Mas não me sinto escravo dele, porque posso viver sem casinos”, precisou.

    Jogo de azar

    Os usuários de casinos dizem que a prática não pode ser considerada jogo do azar, ou de batota ou um crime. “O jogo em que se ganha ou se perde depende exclusivamente da sorte”, disse Pedro, que aparenta 60 anos de idade, muitos dos quais ligados ao jogo. Ele, como afirmou, é cliente assíduo numa das casas de jogo da baixa de Luanda.   Pedro reprova quem considera os jogos um azar.
    “Acho errada a ideia de se considerar este divertimento um azar, particularmente o jogo de poker (cartas). Jogo de azar, para mim, é aquele no qual a pessoa não tem nenhuma influência no resultado final, tal como bingo, roleta, caça-niquéis. O póquer é um dos jogos mais fascinantes, porque está ligado à sorte e habilidade”, considerou. Estevão, outro usuário, defendeu que o jogo de póquer é aleatório, não depende em exclusivo da sorte, apenas na distribuição das cartas. “As apostas fazem-se sobre o valor real ou fictício das cartas. A realidade ou ficção depende da habilidade do jogador, em especial como observador do comportamento do adversário, que às vezes dá a impressão de que só está a fingir para que acredites nele.
    Por exemplo, estando bem, mostra-se inseguro, a fim de o adversário aumentar a aposta, ou, estando mal, mostra-se seguro e confiante, a fim de o adversário desistir. Em suma, é um jogo de matemática e de psicologia comportamental”, precisou.

    Destruição de famílias

    Faz muito tempo que Cristina viu a sua familia ser destruída por um jogo. Durante muitos anos acompanhou o seu marido aos casinos e viu o salário ficar na mesa das apostas. Viu a sua situação financeira entrar em crise. Até a casa perdeu. “Hoje vivo separada, porque o meu marido teve de vender a casa por causa das dívidas que contraiu nesses malditos jogos. Foi uma pena”, exclamou, acrescentando que “conselhos não lhe faltavam para largar o vício. Hoje está destruído porque perdeu tudo o que tinha, até a própria família”.
    Cristina disse que já leu muitas matérias sobre o assunto e pergunta: “Se o jogo de póquer não é considerado jogo de azar, como podemos considerar este jogo, que em absoluto destruiu o meu casamento, levando o meu esposo a jogar cheio de vício? Passando noites e noites a jogar? Que jogo é esse que leva a pessoa a gastar todo o dinheiro? A nossa Justiça não tem que repensar a respeito das casas de jogo?”, questionou.
    António só joga aos finais de semana. Das 15h00 às 19h00, ninguém o segura.
    Ele diz que em casas de jogo baratas pode fazer até 2.500 dólares, mas noutros casinos mais caros passa os dez mil dólares. António, tal como Carlos, não se considera viciado e diz que em casa há problema. “Este é um segredo de famlia que fica entre quatro paredes. Quase todas as pessoas que jogam são assim”, referiu.
    António disse que frequentar casinos e jogar não é problema. “O problema em questão é a aposta, o ganho fácil, imoral, que ceifa o património de uma família inteira, devido ao vício de um de seus integrantes.”

    Fonte: Jornal de Angola
    Fotografia: Eduardo Pedro

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