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    Carlos Cunha ‘Estamos a converter as fazendas em mussulos’

    Os empresários normalmente pouco falam de política? É uma tendência que nós temos. Primeiro porque não é uma especialidade profissional nossa. O que não impede que alguns de nós…

    Como cidadão?

    Gosto de política. Mas evito pronunciar-me, porque podemos ser conotados com situações menos desagradáveis, nós devemos estar distante de determinadas situações. Se o dono de um restaurante é muito benfiquista os sportinguistas são capazes de não comeram lá. Mas enquanto cidadão gosto de política.

    Aliás, Carlos Cunha tem um percurso político.

    Sim, a minha vida começou pela política. Mas me desiludi muito cedo.

    Porquê?

    Foi um processo muito conturbado, hoje estou calo e não gosto muito de falar disso. Em 1977, eu passei por um processo muito difícil. Eu era o segundo secretário nacional da juventude e a juventude enfrentou muitos problemas. Fui suspenso por um ano e dois meses, na sequência da tentativa de golpe de estado, sem entender muitas coisas. Vi colegas meus perderem a vida. E jurei que nunca mais seria político e abdiquei dessa vida. E dificilmente alguém me vai ver a fazer política em Angola. Foi uma desilusão que tive na juventude. Há pessoas que têm desilusão amorosa. Outros têm desilusão empresarial. Continuo a ser do MPLA. É no MPLA que eu me revejo, foi a minha opção política desde muito cedo. Toda a minha família está ligada ao MPLA. Vi meus tios serem presos e jurei que política não. Me ver na direcção de um partido ou como governante ou como deputado, está fora de hipótese. Política activa não.

    Tenho dificuldade de coabitar comigo próprio e decidi, política não mais.

    Como governante também.

    Sim, não me revejo nesses papéis.

    As pessoas sabem a minha opinião em relação a isso. Já manifestei, essas condições foram criadas e não revejo nesses papéis.

    Não se revê nos papéis políticos, mas sente-se em si uma intervenção social?

    Sim. É uma intervenção política também. Se nós estivermos a fazer coisas que nos façam sentir bem.

    A contribuir para o nível social dos outros… li há tempo um escritor inglês que dizia que a África tem de se dividir.

    Porque não tivemos acesso às mesmas oportunidades, aos mesmos objectos, as melhores escolas… Imagine estamos na ´pole position´. Uns ao lado dos outros, mas há uns que correm mais.

    Tivemos as melhores oportunidades, ferramentas, berço, estrutura e objectos que nos fazem correr mais do que os outros. E se nós não olharmos para a história do passado, corremos sérios riscos. Nós temos, por isso, projectos nesta perspectiva. A Casa70 é um deles. Sabem que cada vez que fazemos um espectáculo nós perdemos? Mas achamos que fica um nosso contributo nesta área.

    Que tipo de sociedade civil nós temos?

    Temos uma sociedade muito conturbada. Somos uma sociedade em afirmação. Os tais conceitos de nação, pátria, multiracialidade, fizemos uma confusão muito grande. As pessoas são avaliadas sob critérios muito subjectivos. Hoje nesta cidade temos conflitos diários. Quando alguém casa, se está casar com uma pessoa do Uige e não do Norte. Se o negro está casar com uma branca, se a branca está a casar com uma negra.

    Sente isso?

    Sim, sinto isso. No dia-a-dia as famílias ainda vivem muito divididas, por coisas que a história vai resolver.

    Tenho amigos que dizem que não gosto dos franceses, dos portugueses e desses e de outros. Há franceses bons, há franceses maus. Como há portugueses maus e portugueses bons. Mas todas as raças têm pessoas boas e pessoas más. Nós temos de ter uma visão mais universalista das coisas. Temos de respeitar as pessoas. As pessoas são aquilo que elas valem. Estamos numa sociedade onde se avalia as pessoas por aquilo que elas gastam e não aquilo que elas ganham. Se um indivíduo tem um grande património, anda numa carrinha e não num Range Rover, esse individuo não é uma pessoa afirmada.

    Ele teria de ter um pequeno avião, um Ranger Rover. Nós somos uma sociedade por quem gasta muito.

    É uma sociedade mesquinha?

    É mesquinha porque fomos colonizados por um país pequeno da Europa.

    Os portugueses são um povo aberto, afáveis, mas têm uma visão muito pequena. E nós somos um produto desse pequeno país. Nós somos o país mais lusófono. Os moçambicanos não, até já pertencem a Commonwealth. Nós somos os mais próximos da lusofonia.

    Damos sempre um passo maior do que a perna. No início da colonização, Portugal era um dos maiores, 500 anos depois foi para o fim da Europa.

    Tentaram tomar o mundo quando não tinham condições de o fazer, e acabaram naquele rectangulozinho, perderam a península ibérica toda.

    A África é um passado com quem Portugal não lucrou muito. As colónias não se desenvolveram. A colonização portuguesa não foi boa colonização.

    Aliás, não acredito em boas colonizações. A colonização não pode ser boa.

    Esses factores todos ditam o que somos hoje.

    É nesse ambiente que falamos de cidadania?

    É a nossa identidade. A nossa história é que dita a nossa identidade. A nossa história passada e recente. Nós somos uma sociedade em afirmação, nós somos uma sociedade que teremos de nos entender. Precisamos de muitos anos.

    É difícil perceber o que é solidariedade.

    Os angolanos são muito solidários.

    Temos uma vivência solidária, que está espelhada na visita quando temos óbito, casamento e outras situações complicadas. Somos profundamente solidários, pode ser que esteja a perceber mal. Não sinto na nossa identidade ausência de solidariedade.

    Carlos Cunha é muito crítico, nas intervenções que faz na rádio mesmo na LAC, sobretudo pela forma de organização da sociedade.

    As minhas críticas têm muito a ver com o meu metiér. Não se sei se sabe, sou formado em gestão de empresas.

    Na área em que trabalho tento emitir as minhas opiniões, as vezes digo algumas coisas importantes, outras vezes nem por isso. Recordo-me quando José Rodrigues me convidou para ser correspondente, disse logo que sim.

    Mas houve amigos que me disseram abandona isso. Não temos cultura democrática, criticar para quê. Eu nunca assumo este papel. Mesmo quando era jovem eu fiz pouco, mas fiz como político a tempo inteiro. Eu não tenho dois discursos. Não digo uma coisa a frente outra atrás. E as minhas críticas são somente essas coisas que saem da boca para fora. Não tenho outras. Não sou yes man. Contrariamente ao que se diz nesse país sempre se emitiu opiniões, posso mostrar entrevistas que fiz há 20 anos atrás. Por isso, nunca senti que tivesse de temer por isso.

    Há dias fez uma referência ao sector do desporto. Disse que o sector com melhor democracia é o desporto.

    Sim, acho que é o sector com melhor democracia é o desporto. É onde as pessoas falam com liberdade. Os dirigentes têm dificuldades de segurar os clubes e as federações. Porque são duramente criticados. Eu até acho que há pessoas a fazerem papéis que nunca faria. Se a minha vida fosse arruaçada todos os dias eu me demitiria. Eu não me aguentaria. Oxalá que o democracia do desporto seja passada para outros sectores. As pessoas falam abertamente. São criticadas publicamente.

    Não sinto isso na política. Mas também não sinto que haja inibição. Já houve quem me dissesse que você tem essa postura abertura porque és o Oca da Jota e as coisas ficam logo por ai. Não.

    Sinto que me esteja a expor a riscos.

    Não tenho nos meus sonhos mais do que os tenho. Não posso temer que se me expor corro risco de sacrificar a minha carreira política. Não.

    Há vida além da política?

    Há. Eu sou uma pessoa identificada.

    Não fazer da política uma vida de sonhos.

    Sim, porque todos os empresários que se meteram na política falharam.

    Alguns deles eram ricos até um dia chegar a direcção do partido e falharam. Pode haver muitas pessoas que cresçam na política e ganhem muito dinheiro. Empresários convertidos em políticos que tenham sucesso não conheço. E isso até não é motivador.

    Essa relação política/empresário e empresário/político.

    Quando era jovem, comecei a dar os primeiros passos, um senhor muito experiente disse-me. Na Europa, o dinheiro dá poder. Em África, o poder dá dinheiro. Esses axiomas podem dar certo para muita gente, mas nem todos nós nos afirmamos assim. Uma vez perguntaram ao homem forte da Fiat.

    Anhele, você já fez tudo na vida só falta ser presidente da república. Ele disse não me resta tempo para isso. Nem toda gente tem de ter a política como um sonho.

    A política como via…

    Não critico isso. Quem sou para criticar isso. Eu sempre estive disponível para o MPLA. Estive presente em todos os congressos como homem da logística, mas não contam comigo para outros desafios. É uma postura minha, acho que temos espaço para ser empresários. Temos espaço para ser homens de negócios. Acho que em momento algum me sinto fora disso. Se um dia formos engraçados de sapatos, temos de engraçar bem os sapatos. A tempo estava a ver o jogo de basquetebol do 1º de Agosto e vi um jovem que limpa muito bem o chão e disse que esse homem nos Estados Unidos ganharia muito dinheiro.

    Haveria logo de existir uma marca que lhe desse uma camisola, porque ele faz com gosto o seu trabalho. Num país onde o mercado funcione. Não sou um homem rico, estou longe disso.

    Mas estou de bem com a vida, não me queixo.

    Mas gostaria de ser rico?

    O sonho de qualquer empresário é ter riqueza. É maximizar o lucro.

    É uma meta. Não se pode ser rico a qualquer preço. O importante é sermos bem sucedidos. Nós somos bem sucedidos mas sem sermos ricos nem a qualquer preço. Na área da distribuição de alimentação somos bem sucedidos, mas não somos ricos.

    Partilhamos os mesmos conceitos de ser rico em Angola?

    Não. Nos Estados Unidos quando alguém tem muito dinheiro, as pessoas dizem esse é um grande homem. Nós temos uma cultura muito lusófona.

    Quando alguém tem muito dinheiro, dizem roubo aonde? Faz alguma coisa, perguntamos quem está por trás.

    Quem é o sócio dele.

    Mas porque dessa cultura?

    Porque as pessoas não acreditam no trabalho. São os exemplos que nos envolvem. É uma menina que tem dezoito anos, casa com um x e no dia seguinte já aparece na rua com sinais de riquezas. É um indivíduo que faz uma formação e chega a um estatuto de governante e passa a brilhar na vida.

    Ou seja, cria-se um sentido ilusório da vida. A maioria das mulheres acredita que tem de aparecer um príncipe encantado que lhes dá essa grande volta.

    Não é um fenómeno apenas angolano, é mundial. E grande parte dos homens diz que o poder é dinheiro e vou tentar chegar ao poder para ter dinheiro.

    Porque não há exemplos de meritocracia. Porque a meritocracia não leva ninguém a riqueza. Nós gostamos de uma vida muito curta, um negócio rápido. Comercio. Um distinto homem do país me disse que o empresário angolano assenta na teoria do Hiace.

    Compra o carro e no dia seguinte diz ao motorista, tragam-me x. O motorista lhe diz hoje o polícia cobrou-me x, ele diz o problema é teu. Hoje tive essa avaria, conduziste mal, dá-me o meu. As pessoas não querem ganhar dinheiro pelo desafio da vida. Cultivar a terra, ganhar o gosto pela terra, dar emprego aos camponeses, dormir na fazenda sem ar condicionado, isso não há muita gente disposta a fazer isso.

    Não é um problema de Angola, é da região da África Austral.

    A prática é comprar já uma fazenda feita?

    Mas quando um individuo já tem know-how. Quando alguém tem amor a terra. Quando gosta de criar e cultivar.

    Mas está uma onda hoje ter fazenda, criar gados?

    Sim, há milhares de fazendas. Mas e a produção. Fazenda não ter piscina para receber os amigos de Luanda.

    Não é energia para converter fazendas em cidades. Fazenda é produzir.

    Quantos bois tens, quantos deixou morrer. Quantos hectares de fruta.

    Isso é que fazer fazenda. Agora, fazer fazenda para divertir, fazer piscinas não é fazenda. Não podemos converter as nossas fazendas em mussulo. Fazer fazenda é produzir. Eu vivi numa roullote durante um ano. Eu e mais duas pessoas vivemos assim. Não tenho estatuto para viver assim. Tinha apenas dinheiro para comprar gado e tive de viver assim. É assim. Tem de se ter amor pelo campo. Quando vai fazer uma fazenda na sua terra e você não cumprimenta sequer o soba, a fazenda não vai vingar. O meio rural é dominado pelas autoridades tradicionais, por isso, é preciso ter respeito por quem lá está. Um espírito de irmandade.

    Está a dizer que nem todas as fazendas produzem?

    Mas de nove por cento não produz nada. São mussulos com muitas árvores. Não produzem nada. Há muita gente a fazer produtivaidade. Temos de distinguir produção da produtivaidade.

    Os brasileiros dizem que há componeses que fazem produtivaidade. É o que nós estamos a fazer. Gostamos da muita banga. Estou no campo e não tenho casa. Tenho mais de mil bovinos, mil hectares de fruta mas não tenho lá casa. Quando vou partilho com os meus funcionários um quarto. Não é prioridade. Está ser feito. Em economia diz-se que não se pode consumir meios que não se libertam. Se você ainda não libertou os meios está consumir já.

    É porque está a ir buscar num lugar fácil. Porque quem conta o dinheiro, quem soma o que ganha todos os dias para investir não pode ter esse tipo de posturas. Quem tem esse tipo de posturas é porque não está a ir buscar de forma suada. Não acredito nisso. Porque andamos todos no mercado. Não esbanjo, não manifesto sinais de riqueza, tenho uma mulher, dois filhos, sou um homem super-austero…

    O que nos ouvimos falar do incentivo à agricultura é algo sério.

    Existe pequenos incentivos na área fiscal. Existe juros bonificados. Mas estamos longe disso. Hoje na Europa, por exemplo, que cria uma vaca tem 160 euros por animal mês.Se fizer parque melhorados tem 150 euros por hectar. É muito fácil fazer agricultura assim. Costumo dizer que eu com as calças do meu pai sou mais-velho.

    Quem produz vinho e o exporta tem montantes compensatórios. É assim que as grandes nações foram feitas. Os Estados Unidos e o Brasil deram salto.

    Nós dizemos isso todos os dias mas a mensagem não passa. Continuamos a desconfiar das pessoas.

    Quem desconfia?
    A vontade política. A convicção política.

    As instituições confiam nos cidadãos.

    Acredito que sim. Mas não se aposta o suficiente. É como ter um filho e não o deixar sair aos 18 anos com o medo de que pode apanhar o tiro. Vais fazer isso até quando. Ele tem de sair, o perigo não é feito só para os filhos dos outros. As crianças têm um ano, ela não pode andar porque vai cair.

    Vai cair mas aprende. É assim com as empresas. Temos de converter essa vontade política. Ouvimos como muito agrado sua excelência o presidente da República anunciar que o BDA teria um financiamento de quinhentos milhões de dólares para o fomento da agricultura. Mas três anos depois gastou-se setecentos milhões e já não há dinheiro. Não há consequências nas coisas. Dizem que vai haver agora dinheiro, oxalá. Temos de apostar na agricultura, porque 70 por cento das pessoas vivem do campo. Mais de dois terços da população de Luanda é do meio rural. E se for criada condições no meio rural as pessoas vão se adaptar.

    Temos de criar condições para essas pessoas regressarem. Temos de aposta na agricultura. Eu sou um exemplo.

    Estou a fazer fazendo e grande parte dos meus funcionários foram de Luanda para lá. Surgiu a oportunidade de negócio e não quiseram desperdiçar.
    Mas é preciso apostar decididamente nisso. Ou faz-se ou não se faz.

    Mas agricultura sobrevive também de outros factores. Porque podes ter uma boa indústria mas se não tiveres uma indústria para transformar, como é que fica?

    Isso é o problema da galinha e do ovo. Se não tiveres uma agricultura a mutante não terás uma agricultura a jusante. As coisas aparecem. Vou dar um exemplo, surgiram dezenas de pessoas interessadas em fazer um matadouro mas quando fazem um censo sobre o número de bovinos existente, acabam por desistir da ideia.

    É preciso ter a garantia de que Angola tem bovinos. Vou lhe dar mais um exemplo, o ano passado consumimos 500 mil toneladas de carne e Angola produz 15 mil toneladas. Angola produz 15 por cento do que consome. Com esse tipo de stock pecuário ninguém arrisca numa transformação industrial da carne. Quem fizer arrisca em fazer um elefante branco. Não há bonvino.

    Angola não tem.
    Tivemos já experiência como a Peccus E qual foi o resultado. Estruturas colocadas distantes das zonas de consumo. Ficava mais caro mandar vir um bovino do Cunene do que fora do país. E o stock bovino não era suficiente. Hoje o stock bovino na mão da população é um risco. Porque a população não vende o bovino de forma comercial. Vende quando casa um filho ou quando faz aniversário. E apesar do Cunene ter o maior número de bovino, a população não comercializa. E quando este projecto nasceu eu fui um dos tais que não acreditou nele.

    Porque não há industrialização. Não há médios nem pequenos agricultores.

    A Índia é o primeiro país com mais bovinos no Mundo, 300 milhões, o segundo é o Brasil com 180 milhões, o terceiro é os Estados Unidos 140 milhões. Mas os Estados Unidos é o país que mais vende, porque na Índia o bovino é venerado. Ou não matam.

    Porque é que o Brasil vende menos do que os Estados Unidos, porque não tem tecnologia à altura. Muitos deles criam bovinos como nós criamos. O Brasil é híbrido é o maior produtor mas não é o mais exportador.

    O que é que nós podemos ser?

    Não sei o que nós queremos ser. Nós podemos ser os maiores produtores na África. Temos bons solos, muita água, planície, não temos tempestade, portanto temos tudo para dar certo. Se se apostar seriamente na agropecuária, nós sermos fortes.

    O que é a experiência dos países vizinhos nos diz?

    Os países com mais sucesso neste campo são o Zimbabwe e a África do Sul. E no campo pecuário a Namíbia.

    E que exemplos vocês tiram.

    Há uma elite de empresários seculares. Os boers são um povo secular, muitos anos de experiência. Os boers anda descalço. Como é possível imitarmos isso. Nós sem ar condicionado não aceitamos ir a fazenda. Educamos os nossos filhos como príncipes. O bóer o seu filho aos dez anos está a andar de tractor, o nosso anda a cavalo. O brasileiro nasce-lhe os dentes em cima do cavalo. Eu conto sempre essa história. Quando recebi os primeiros cavalos na minha fazenda, nenhum dos actuais cavaleiros sabia o que era um cavalo. Nunca viu um cavalo, não tem televisor no sítio onde vive. Tive de lhes dizer que esse é o tal cavalo onde vais montar para pastar. É que não temos uma cultura bovina.E quando você trata de contratar um técnico, a DEFA diz que ele não tem cartão de sanidade. Há muitos problemas para se ter sucesso nesta área. Não há laboratórios de análises de solo. Como é que eu sei que carga é que vou dar ao solo. A Agricultura moderna faz-se reduzindo os riscos com alta tecnologia. Qual é o agricultor que consegue ir buscar crédito na banca comercial. A banca comercial não financia agricultura. Há um cepticismo geral da banca comercial. Segundo temos título de terra que não tem valor. Como é que se pode fazer agricultura assim. Estamos a nadar de costa, podemos chocar com a rocha, baleia e o resto. Onde é que há vacina para se adquirir. Temos de importar. Nós estamos a importar o capim. São tantas coisas para se ter sucesso. Alguns de nós estamos a fazer alguma coisa, vamos ver o que podemos fazer. Os nossos pais tinham quarta classe quando faziam as fazendas e nós que andamos nas faculdades podemos fazer melhor. O empresário tem de sujar as mãos. Temos de nos envolver mais.

    Estamos a falar da produção de alimentos

    Sim. Não temos produção de alimentos. É nula. Em Angola não se produz. Os poucos que produzem têm muitas dificuldades.

    Com base é que falamos do combate a pobreza.

    Não acredito nesse conceito populista de cooperativismo. O que existe hoje são ilhas. São raides. Mas as cooperativas de empresários, assentes em cálculos económicos é a única via. Hoje é impensável um agricultor evoluir sem cooperativismo nos países mais desenvolvidos. Mas tem de ser um conceito mais moderno. Não nos moldes em que nós praticávamos.

    Então como funciona esse cooperativismo?

    Em Angola não funciona e não existe. Deve ser uma conjugação de interesses. Com pólos centralizados e profissionalizados. Se houver uma cooperativa com 20 médios empresários cada um não precisa ter um bulldozer.

    Basta que se debita um bulldozer para cada derrubar os solos. Cada um tem de se preocupar em vender os seus produtos, tem de haver uma entidade que analisa os solos, um técnico para administrar as vacinas. Mas tem de ser uma cooperativa onde a quota doa.

    Temos de fazer de maneira moderna e não moderna.
    A questão da pobreza e da fome é política? Não. Eu penso que não. Não gosto muito usar esse termo de combate à pobreza. Mas gosto de utilizar o termo de combate a extrema-pobreza. Não gostaria de afirmar isso mas tenho a ideia de que vivemos hoje pior do que no tempo da guerra. Porque nessa altura havia os PAM (Programa Mundial Alimentar) que iam acudindo as pessoas nas zonas mais recônditas. Essas estruturas retiraram-se e as pessoas ficaram no abandono. Mesmo os fundos que se dão as capitais municipais são aplicados no embelezamento e há muitas negociatas. Tem de se converter estes fundos em apoio as comunidades.

    Porque tem de fiscalizar esses fundos.

    Fez escola? Mas escola não é educação.

    Construiu um posto médico? Mas o posto médico não é saúde. É necessário ter medicamentos, hospitais. Há dias ouvi um delegado da educação dizer que o professor que faltar vai apanhar falta. E me pergunto mais durante este tempo todo andou a fazer o que? Estudei no mato e tive uma professora que durante quatro anos não faltava.

    E quando o fiscal aparecia conferia o sumário testando o conhecimento dos alunos. Há dias estive na minha fazenda e vi uma pessoa com duas caixas térmicas e perguntei-lhe que é que se passava. Disse-me que estava a vacinar as pessoas e o gelo que tinha para conservar as vacinas tinha desfeito e estava a ir embora. Mas como tinham lhe deixado estava a regressar sem vacinar todas as pessoas. E perguntei assim vai escrever o que no relatório. Ele disse que iria dizer que vacinou todas as pessoas, pois não pode ser ao contrário. Mas lhe disse que se lhe sobraram 150 vacinas é porque há 150 crianças sem vacinas. É crime. Não pode ser.

    Os administradores têm Landcruiser mas não trabalha com as pessoas que vacinam as crianças. Então o que é o administrador está a fazer. Não pode ser. Não fiscalizamos como as coisas funcionam. Estudei numa escola com quatro salas. Hoje o governo construiu uma escola melhor. Só que a minha professora que dava aulas sozinha não faltava as aulas. Mas hoje tem sete ou mais professores e ninguém dá aulas, porque não fiscalizamos.

    Está a falar da ineficácia da administração do estado?

    Sim. Em Calulo, temos um dos hospitais regionais mais importantes deste país. Equipadissimo com tudo que há mais moderno. Com uma dúzia de médicos mas sem medicamentos.

    O que adianta fazer um hospital desse sem medicamento. O antigo era inferior mais funcionava. Se não criamos essa dinâmica estrutural estamos a branquear a verdade. Essa história de dizer vamos formar os angolanos e as coisas vão funcionar. Não pode ser assim. Se assim não for estamos a branquear a verdade. Essa história de dizer que construímos mil escolas, já temos mais crianças no sistema de ensino não me diz nada. A mim como empresário isso não me diz nada.

    Tenho liberdade de pensar que isso não representa nada.

    Quando falamos de turismo em Angola, de que turismo estamos a falar?

    Turismo de negócio. Porque na época colonial tivemos uma actividade incipiente. Veja José Rodrigues, quantos empregados de mesas (chefes de sala) tínhamos na época colonial.

    Nenhum. Aliás, os grandes hotéis de Luanda foram construídos dois/ três anos antes da independência. O Presidente não foi sequer inaugurado.

    A actividade turística era um sonho, era distante. Acho que obedecia a uma teoria isolada de Salazar para manter Angola isolada para não suscitar as atenções. Hoje quando falamos de turismo é o turismo de negócio, que é sete vezes mais rentável do que o turismo sazonal. Penso que o primeiro grande passo foi dado deu-se agora com a inauguração do comboio. Mas não podemos confundir turismo interno com turismo social. Agora aquele turismo dos homens azuis, que aluga carro e faz um pacote turístico ainda não. Moçambique não. Sempre foi uma potência. Hoje já se pode falar de turismo. Hotelaria e turismo são os sectores que mais crescem. Estão na forja mais de cem unidades, duas, três estrelas entre outras.

    Com incidência nos preços?

    Quando se fala de preços não se pode apenas falar de Luanda. Os preços em Benguela, Cabinda e em todas as cidades onde houve CAN os preços baixaram. Quando alguém se apresenta num balcão a pedir cinco ou seis quartos já há descontos. Portanto, não podemos apenas de falar nos preços olhando nos hotéis de cinco estrelas. Já há muita opção barata. Por ai 150 dólares.

    Há uma ligação com actividade cultural?

    É uma pergunta pertinente, mas actividade cultural é para atrair clientes. Mas os hoteleiros não precisam de lisonjear os seus clientes. Há procura maior do que oferta. Isso faz com que a actividade cultura não exista. Mas nunca vi tanta actividade cultural. É reflexo da crise. Isso é dinâmico. Não precisa de um decreto. HÁ sectores da economia que tenta criar dinâmica nos empresários mas os empresários são os homens mais dinâmicos do mundo.

    Quando achar que o seu negócio não estar ser rentável ele cria dinâmicas diferentes.

    Qual é a tua preocupação como homem?

    Ausência de política de fomento. O país tem de evoluir para as políticas de fomento. E tem de evoluir rapidamente para angolanização da hotelaria.

    Na hotelaria tem de se angolanizar três coisas. A propriedade, a posse, a gestão e o usufruto. Os hotéis têm de dos angolanos. Temos de ter o país aberto a todas as nacionalidades, mas os hotéis de têm de ser angolanos tal como usufruto. Hoje quando entro no hotel sinto-me mal. É como se tivesse a entrar para um hotel estrangeiro.

    Os restaurantes também?

    Sim, os restaurantes também. Tem de angolanizar o acesso. Há várias formas de fazer isso, Há sítios em que emitiram ´ticket checke`.

    Quando não se aumenta o acesso o que isso cria.

    Cria frustração. Há pratos que nós só podemos em restaurantes. As nossas senhoras sentem-se bem quando saem em famílias. Esses nossos almoços dos quintais cansam também. Publicidade à parte, a Casa70, é o restaurante mais angolano por causa da música.

    As mulheres gostam de se ver, e nós proporcionamos isso tudo.

    A ausência da angolanização pode criar preconceitos sociais?

    Já está criar. Os angolanos sentem que a hotelaria é um sector que não lhes pertence. O ministro já está a pensar numa estratégia para fazer chegar a hotelaria a preços bonficados nas mãos dos angolanos. Eu não vejo o estrangeiro a fazer agricultura. Porque não é quickback. Porque ninguém quer ganhar dinheiro dentro de sete anos. Nós continuamos acreditar no país, incompreendidos, críticos mais acreditamos no país e investimos hoje para ganhar dentro de sete anos. Agricultura terá de ser feito por angolanos.

    Porque não é Obras Públicas, Resort onde se ganha dinheiro facilmente.

    Fonte: O País

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