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    As espécies mais grotescas

    FILIPE ZAU Phd Foto DR
    FILIPE ZAU
    Ph.D em Ciências em Ciências de Educação e Mestre em Relações Interculturais
    Foto DR

    Entrámos, há mais de uma década, no século XXI e, em alguns aspectos, continua a haver gente atrasada e ignorante no que respeita à coexistência e convivência com a diferença, como se vivessemos ainda em meados do século XIX, quando Arthur de Gobineau publicou o seu anti-científico “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”, como forma de justificar o hediondo tráfico negreiro.

    Cada vez mais frequentemente são denunciados casos de situações racistas, que, em alguns casos, chegam a ter carácter ideológico, quando, por exemplo, grupos de jovens ligados a movimentos de extrema-direita, chegam ao ponto de se tatuarem com cruzes suásticas, exibirem saudações nazistas do tempo de Adolfo Hitler e Benedito Mussolini e a promoverem a violência nas ruas e em estádios de futebol.

    A Noruega, por exemplo, que, pela quarta vez consecutiva, ocupa o primeiro lugar entre os países com maior Índice de Desenvolvimento Humano, foi, no dia 22 de Julho de 2011, vítima de atentados provocados por um extremista, que publicava textos xenófobos e racistas na internet.
    O mesmo, nesse dia, provocou uma explosão na área dos edifícios governamentais em Oslo, onde pereceram oito pessoas e, logo de seguida, disfarçado de polícia, assassinou a frio 68 jovens que se encontravam num acampamento numa ilha perto da capital.

    Em Itália, país membro do G8, o jogador da selecção nacional italiana Mário Balotelli, que, dos 4,5 milhões de euros do seu salário doa mais ou menos metade a crianças pobres em África de onde é originário, tem sido vítima de ofensas racistas durante os jogos, chegando ao ponto de ameaçar abandonar o campo.
    A ministra de Integração, Cécile Kyenge, originária do Congo, única titular negra do Executivo italiano, foi insultada pelo vice-presidente do Senado, que a comparou com um “orangotango”. Ultimamente, chegaram ao ponto de lhe arremessarem bananas, quando discursava.

    No Brasil, Chico Buarque de Holanda lamenta o facto de a sua filha, casada com o músico Carlinhos Brown, ter de deixar de viver num condomínio no Rio de Janeiro, devido às agressões motivadas por razões raciais de que o seu neto era vítima por parte dos moradores. Em 1980, o americano Alvin Toffler lançava o slogan da “Terceira Vaga” ao dividir, até ao momento, a história da humanidade em três vagas: a primeira que correspondeu à “Revolução Agrária”, a segunda baseada na “Revolução Industrial”, e a terceira, nascida desde o final da Segunda Guerra Mundial, baseada no Conhecimento.

    Aparentemente, a actual “Era do Conhecimento” pressupõe um progresso técnico e tecnológico, mas, aparentemente, pouco se tem evoluido ao nível de uma educação multicultural. Desde os finais do século XIX, que, em todo o mundo, o tráfico de escravos finalizou.
    Mas, poucos foram ainda os países promotores das antigas sociedades esclavagistas, que tiveram a coragem de emitir um pedido formal de desculpas pela secular subjugação de um tão elevado número de populações africanas, sujeitas a todo o tipo de abusos e servícias, em prol de uma alegada necessidade de transmissão de valores civilizacionais do Ocidente.

    Face às rápidas mutações sociais verificadas ao nível planetário, é impossível ignorar grande parte das razões que justificam o atraso estrutural de muitas sociedades africanas ainda em situação de iliteracia, fome e extrema pobreza, ignorando, pura e simplesmente, muitas causas, como a dominação, a aculturação e criação de um baixo sentido de auto-estima, levados a cabo durante séculos  pelas diferentes administrações coloniais.

    Países europeus que mais uso fizeram do hediondo tráfico de escravos, apresentam-se, actualmente, como os maiores defensores de direitos que, secularmente, atropelaram e pouco, muito pouco têm feito para que, paralelamente à evolução tecnológica das suas sociedades se inculquem valores de respeito pela diferença.
    Há, de facto, em todo o mundo, muitas pessoas que têm instrução, por vezes muito dinheiro e prestígio social.
    Porém, pela ausência de educação, de cultura e de uma taxonomia de valores associados, não passam de espécimes grotescas da humanidade. (jornaldeangola.com)

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