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    Arquitecto Hélder José fala sobre o urbanismo

    O arquitecto Hélder José, do Governo Provincial de Luanda, disse, em entrevista exclusiva ao Jornal de Angola, que o congresso dos arquitectos africanos em Luanda foi importante para os profissionais angolanos. Também deu a sua opinião sobre o modelo de formação em arquitectura nas nossas escolas superiores.

    Jornal de Angola – Já podemos falar da arquitectura Angola?

    Hélder José – Ainda não estamos em condições de falar sobre arquitectura angolana. Os profissionais estão num processo de afirmação junto da sociedade e temos que nos fazer conhecer muito mais, porque a arquitectura vai para além de um desenho.

    JA – Há arquitectos filhos e outros enteados?

    HJ – Precisamos de crescer e aparecer. O que não precisamos mesmo é de fazer confusão. Se fizermos a nossa parte as pessoas olham para o nosso trabalho com mais seriedade. O país está a mudar, por isso digo que é importante darmos o nosso melhor.

    JA – Como legalizar as habitações de pessoas que vivem nas zonas sem ordenamento urbano?

    HJ – É possível legalizar, isso é um assunto decidido pelo Executivo. Já se falou muito no reconhecimento do ocupante irregular e foram os arquitectos que sugeriram o modelo. Esse reconhecimento passa por um exaustivo levantamento das comunidades e da habitação.

    JA – Qual o seu contributo para o assunto?

    HJ – Sugiro que um espaço que não tem ordenamento urbano seja registado em favor dos Governos Provinciais e as habitações existentes são reconhecidas enquanto volume. Por isso a matriz predial surge como o documento que torna o cidadão um contribuinte fiscal oficial e esse dinheiro deve entrar para um fundo de requalificação.

    JA – Quais são as consequências que podem advir em construções sem a intervenção de um arquitecto?

    HJ – São várias consequências. E uma delas é a estrutural, porque o edifício pode não estar preparado para o peso. Pode haver um desajuste de uma morfologia urbana.

    JA -Como caracteriza as construções em Angola principalmente em Luanda?

    HJ – Estamos a fazer um trabalho de se lhe tirar o chapéu. Nunca existiu em Luanda tanta construção como agora. Hoje os profissionais do imobiliário já têm dificuldades em vender o projecto na planta, isso quer dizer que está acontecer uma viragem positiva, porque há muito produto no mercado.

    JA – Uma coisa é construir muito, mas estamos a construir bem?

    HJ – Isso só o tempo dirá. Em alguns casos estou seguro que estamos a construir bem. Noutros, verdade seja dita, estamos a construir mal. Muitas vezes também a durabilidade das construções tem a ver com o uso, porque quanto mais a gente activa mecanismos de manutenção mais prolongamos a vida do imóvel. Esse conceito de gestão também deve estar ligado ao nosso modelo de cidades.

    JA – Algumas construções de Luanda atentam contra o ambiente?

    HJ – É lógico que há sempre um impacto ambiental. Mas o homem para garantir as suas necessidades básicas também produz fumo e lixo e isso não quer dizer que vamos deixar de trabalhar. Tudo o que se exige é que haja responsabilidade e sejam atenuados ou eliminados os impactos ambientais. As gerações vindouras precisam de encontrar o nosso testemunho, não podemos ficar parados.

    JA – O que pensa do Projecto Baía?

    HJ – O projecto visa a alteração da Marginal. Essa reconfiguração tem aspectos ligados às dificuldades de trânsito em Luanda. O projecto visa também melhorar a qualidade da água da baía. Penso que vai revitalizar o espaço, devolver aquela parte de Luanda aos cidadãos e aumentar o espaço de estacionamento entre o Porto e a Fortaleza.

    JA – As zonas periféricas são adequadas a construções modernas?

    HJ – Aí está uma questão que exige muito cuidado. O Cazenga, Sambizanga, Viana são áreas onde devem acontecer soluções harmoniosas e os arquitectos têm dado a sua colaboração. Quando falamos de soluções, estamos a falar em custos baixos, obras que podem ser feitas com utilização de pouca tecnologia para solucionar problemas pontuais. Mas precisamos de discutir soluções para a urbanização dessas zonas periféricas.

    JA – As tecnologias e materiais que estão a ser aplicados em muitas construções são adequados para Angola?

    HJ – Nós aprendemos uma forma de construir diferente. Vieram os chineses e alteraram tudo. Mas as coisas devem ser vistas do lado positivo. Eles trouxeram tecnologia e conhecimento, isso é inegável. Muitos angolanos estão a aprender com eles. Não devemos olhar as construtoras estrangeiras como inimigas que nos vieram tirar o pão. O que temos de fazer é aprender, para depois dar o nosso melhor e sermos os escolhidos de amanhã.

    JA – Como classifica o modelo de formação em arquitectura nas universidades?

    HJ – O modelo de formação em arquitectura deve ser adaptado à realidade que vivemos. Claro que há parâmetros internacionais, mas as soluções têm de ser locais. As universidades devem ter soluções concretas. Este é um exercício que precisa de ser colocado em prática.

    JA – Qual tem sido a participação dos arquitectos no Plana Nacional de Habitação?

    HJ – Cada um de nós tem de fazer a sua parte. O desafio de construir um milhão de fogos habitacionais durante a legislatura foi aliciante e estamos a dar o nosso contributo para que as coisas sejam bem feitas.

    JA – Considera que o congresso da União Africana de Arquitectos foi importante para os todos os profissionais angolanos?

    HJ – Não é todos os dias que se fala de arquitectura em Angola na perspectiva de um congresso africano sobre a matéria. Viramos mais uma página e isso já é um incentivo para todos os profissionais angolanos.

    Fonte: Jornal de Angola

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