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    António Venâncio: Precisamos de uma maior valorização

    Engenheiro civil considera que os investimentos deveriam incidir na formação dos professores do ensino primário. Foto: Vigas da Purificação
    António Venâncio, engenheiro civil considera que os investimentos deveriam incidir na formação dos professores do ensino primário.
    Foto: Vigas da Purificação

    A Associação dos Construtores Civis será proclamada para encontrar formas  de melhor o aproveitamento profissional dos quadros no ramo da ciência e da técnica.

    Qual é a avaliação que faz dos cursos de engenharia ministrados em Angola? 

    Os cursos de engenharia civil em Angola são ministrados, quer pela universidade pública, quer pelas instituições privadas e podem ser considerados de nível teórico aceitável nuns casos, mas péssimos noutros, de acordo com a avaliação dos próprios alunos. As dificuldades que a maior parte dos alunos coloca situam-se a nível da prática, não apenas durante o leccionamento das matérias que exigem experimentação e verificação, tais como ensaios de laboratório, etc, mas também a nível do acompanhamento pós-formação, mais ou menos no mesmo modelo de estágio por que passam os alunos de direito. Sem um período razoável de estágio junto da obra e do escritório, ao lado de um engenheiro sénior, o nosso recém–formado engenheiro tem poucas chances de tornar-se num bom profissional qualificado. A prática não é só a mãe da sabedoria, é sobretudo a impulsionadora da alta qualificação profissional.

    Existe certa valorização dos quadros formados nesta área?

    Muitas vezes as mordomias atribuídas pela administração pública, em total disparidade com a valorização do profissional e do académico, desencorajam a juventude para as áreas profissionais da ciência e da técnica. A título de ironia, se alguém alguma vez desafiasse, para que fossem agraciados os engenheiros dos melhores carros, das melhores casas e das melhores remunerações, no dia seguinte, as universidades estariam abarrotadas de jovens a pretenderem inscrever-se para os cursos das engenharias.

    Do meu ponto de vista, a sociedade tem que prestigiar mais a classe dos profissionais. A administração pública tem que redireccionar rapidamente a sua política de formação, sob pena vermos bloqueados às novas gerações, os caminhos do desenvolvimento.

    Não se admite por exemplo, que a Faculdade de Engenharia Civil de Angola tenha até hoje todos os seus equipamentos de laboratório avariados e uma falta gritante de outros, ou, por exemplo, que os professores de engenharia não beneficiem de cursos compatíveis para o aperfeiçoamento das suas capacidades.

    O terceiro factor relaciona-se com a conjuntura internacional, pois hoje os serviços de um modo geral, e sobretudo no domínio das informáticas, da banca, seguros, etc., ocupam uma fasquia muito grande das áreas de maior encanto para a juventude, quer por razões remuneratórias, quer por razões de maior conforto laboral.

    No universo de engenheiros formados, já se consegue dar resposta às solicitações do mercado?

    Anualmente, estamos a formar mais ou menos 20 alunos em engenharia civil e de um modo geral, em engenharias diversas, o número não passa de 80 no sistema público.

    Resumidamente, pode dizer-se que uma estratégia bem delineada seria garantir que os professores fossem apoiados para fortalecerem conhecimentos e os alunos fossem devidamente preparados a partir do ensino de base.

    Numa óptica de estratégia, os melhores investimentos para a educação deveriam incidir na formação dos professores do ensino primário e de base, onde se criam todas as bases para um ensino de qualidade nas universidades. Mais vale privilegiar o professor de base e garantir-lhe uma formação reforçada para preparar bons e futuros universitários, do que haver por aí um bom professor universitário com alunos totalmente deformados desde a base, pois o mercado rejeitá-los-á mesmo na posse de um diploma.

    Qual será a missão da Associação dos Construtores Civis em Angola que será proclamada brevemente?

    Muito recentemente, um grupo de engenheiros civis reuniu-se para discutir formas de melhor enquadramento e de aproveitamento profissional dos quadros neste ramo da ciência e da técnica. Na reunião ficou decidido que a melhor forma de conseguir a coesão e unidade de classe seria a constituição de uma associação para congregar esforços e ideias, capazes de revalorizar o prestígio da profissão e realizar programas de desenvolvimento pessoal e colectivo no seio dos engenheiros civis.

    Notamos que ainda persiste um certo desfavorecimento e pouca integração dos engenheiros civis angolanos, o que tem criado cenários de alguma indignação e desmoralização que podemos evitar se estivermos unidos numa organização. Pretende-se gerar maior diálogo com potenciais parceiros, e sobretudo com as instituições do Estado que lidam com obras, com a ciência e as tecnologias.

    A reunião dos engenheiros recomendou uma abordagem mais séria sobre a questão da fiscalização e da qualidade das obras públicas e particulares, que se vão construindo um pouco por todo o país, e a superação profissional.

    Os engenheiros civis angolanos entendem que chegou a altura de fazerem uso da palavra. E para isso precisam de estar organizados. É isso que vai acontecer nos próximos dias.

    Quais as necessidades reais de profissionais da área que o país precisa?

    O país necessita de muitos profissionais de engenharia, mas o que está em causa não é o seu número. O que está em causa é o aproveitamento pleno e dignificado dos que existem. Sempre que o processo de desenvolvimento precisar de engenheiros que escasseiem eventualmente no nosso mercado nacional, os operadores industriais e da economia encontrarão formas de trazer ao país os engenheiros para complementar a classe. E todos eles serão bem vindos. O que não está correcto é a desigualdade de tratamento e a discriminação remuneratória sob o pretexto de maior qualificação. O nosso país ainda não tem obras de elevada complexidade técnica que exijam qualificação extraordinária que levem ao subaproveitamento ou o afastamento dos quadros nacionais. É sempre possível a cooperação.

    Com a intensifição da formação de quadros Angola poderá tornar-se auto-suficiente em termos de pessoal qualificado nesta área?

    O mercado do trabalho em Angola tem se tornado cada vez mais exigente, mas o sistema de ensino de base não acompanha o desenvolvimento socioeconómico do país.

    Estamos algo temerosos com relação aos futuros engenheiros saídos das universidades privadas ou públicas, devido às carências que apresentam do ponto de vista logístico bibliográfico, do apetrechamento laboratorial e da qualidade de professores. Vamos dar algum contributo neste sentido. Este é seguramente um dos esforços com que a AECA poderá brindar a sociedade técnica e científica do país, logo que iniciar a sua actividade.

    O nosso país não necessita da ilusória auto-suficiência em quadros técnicos de engenharia porque este é um conceito meramente quimérico. Nenhum país o pretende e nunca isto foi atingido nem mesmo nos EUA. O que Angola necessita, do meu ponto de vista, é uma ocupação plena dos seus quadros, a sua valorização e uma política de inclusão mais acutilante, para não permitir a discriminação nem desigualdades de tratamento entre nacionais e estrangeiros. Não deve haver monopólios nas engenharias, porque o saber não tem fronteiras.

    A Inglaterra tem em André Costa, um dos maiores engenheiros químicos do país, senão mesmo o primeiro. E ele é angolano. Nos EUA, em ginecologia e obstetrícia Arão Pereira conquistou um grande prestígio nacional e já me disseram que os americanos procuram por ele com filas de espera. E é angolano. Eu prefiro abordar mais a questão da dignificação dos quadros do que olhar para o seu número ou a para geografia da sua procedência. MATEUS CAVUMBO (jornaldeeconomia.ao)

     

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