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    António Ole: Há coisas na realidade que são pura pintura

    António Ole: "Eu vivo, alimento-me das imagens". (Foto: D.R.)
    António Ole: “Eu vivo, alimento-me das imagens”.
    (Foto: D.R.)

    O António Ole vê-se hoje, com os anos de carreira que tem, a pintar num quadro o Papa a tomar a pílula, ou isso é coisa dos dezanove anos de idade?

    Não. Isso é coisa dos dezanove anos. Imagine o tempo colonial, eu andava no Liceu Paulo Dias de Novais… enfim, nós estávamos a abrir a cabeça, quando chegamos a estas alturas… eu não concordava com uma encíclica do Papa, achava que a Igreja não se importava muito com a natalidade, as pessoas terem excessivos filhos e depois não terem como os sustentar e criar… era uma coisa à volta da pílula anticoncepcional.

    Isso levou-me a fazer um gracejo, uma coisa um pouco provocatória, meter-me em seara alheia, se calhar. Era uma coisa que me irritava, pelo cinismo que muitas vezes a Igreja pratica. Mas, definitivamente, isso é uma coisa do passado, marcou um pouco o meu início…

    Algumas mulheres também não gostaram muito, houve um movimento que se insurgiu.

    Era o Movimento Nacional Feminino, que era um movimento ligado ao próprio regime fascista colonial.

    Era uma altura em qua a sociedade estava em grande efervescência cultural, a literatura, alguma da boa música angolana, estávamos próximos dos anos que levaram à Independência. Havia uma outra esperança que se abria para um país novo. Isso, para nós que nessa altura agarrámos nas câmaras e registámos a história, no meu caso não propriamente a pintura, ainda, mas desenvolvi também um grande número de capas de autores angolanos, escritores, depois, com a União de Escritores Angolanos. Era e sou amigo do Luandino Vieira que veio a ser o meu director na TPA, o meu grande amigo falecido Rui Duarte de Carvalho … uma altura também com outra efervescência, esta legitimada pelo nascimento de um país, que procurava a sua identidade, etc..

    Estas efervescências vão acontecendo com a sucessão das gerações. Há sempre coisas novas que mobilizam os jovens a questionar a sociedade?

    É isso. Era a tónica do meu tempo, das pessoas da minha geração.

     

    No fim do período colonial, já nós estávamos ansiosos por saber muita coisa e isso acabava por nos pôr questões essenciais. Eu, com as minhas ferramentas de estimação, as artes, isso acabou por ajudar a definir o que é que eu queria fazer.

    Mas os questionamentos da sociedade, porque ela reage, acabam por condicionar o artista, não no seu processo criativo, mas naquilo que ele apresenta?

    Acho que sim. Aquilo que nos rodeia, tudo o que acontece determina a tónica, as temáticas. Eu, como todos os outros artistas, acho que essa influência da própria sociedade em transformação é sempre um leitmotiv importante na prática artística.

    
Talvez por filosofarmos pouco, ou porque haverá nalgum ponto um bloqueio para a fluência das ideias, ou porque não se fala de um movimento artístico propriamente dito, é acertada a ideia que diz que os artistas angolanos questionam pouco a sociedade em que vivem, que estão apáticos?

    Cada um sabe do seu próprio percurso, e é responsável por esse percurso. No meu caso, naquilo que é o meu discurso artístico, acho que este meu discurso tem vontade de aguçar o espírito crítico das pessoas.

    As pessoas que vão às exposições têm uma reacção… não sou o tipo de artista que faz pinturas para depois condizerem com sofás ou outras decorações. A minha temática é muito virada para a procura de aspectos que são as raízes, o estudo que é necessário fazer para percebermos que país é este. Quem somos e para onde caminhamos, uma série de questões que os artistas normalmente põem.

    E já conseguiu encontrar uma resposta sobre que país é este?

    Eu não tenho respostas, eu só tenho questionamentos. Acho que isso é parte essencial, não só da vida, que também tem de se questionar, mas a resposta, se calhar, é uma resposta em uníssono, colectiva, não sei.

     

    Porque a voz individual é um contributo, um grão, uma gota de água no oceano. A sociedade angolana é constituída e construída por muitos, todos nós, cada um, à sua maneira, dá o seu contributo. Mas, dá-me a impressão de que as artes, às vezes, quando a gente anda à procura da inovação, de investigar coisas, para não ser sempre a arte que seja de sucedâneos, sempre a repetição de coisas que já se passaram … eu, muitas das vezes posso não ser compreendido, mas o que é mais importante é o tipo de questionamentos que posso proporcionar ao público que vai às exposições de arte.

    É um homem com vasta experiência do mundo, exposições internacionais, passagem pelos Estados Unidos da América, Cuba, etc. falou da arte para os sofás… leva-me à compartimentação que se faz pondo a “arte” de um lado e havendo depois a “arte africana” num outro. Como se pode dizer que faz arte africana tendo no seu percurso tantas contribuições e até estímulos?

    (Foto: D.R.)
    (Foto: D.R.)

    O que eu acho é que há uma excessiva catalogação. Os críticos de arte põem lá uma espécie de um rótulo, “Arte Africana Contemporânea”, por exemplo. Ora, ninguém fala em “Arte Contemporânea Europeia”… diz-se arte americana, ou arte angolana. Este assunto tem sido palco de questões em locais onde tenho participado, em conferências, workshops, etc., mas o que me irrita este tipo de questões, de que nós, porque vivemos em África e trabalhamos em África, basta um rótulosito e está numa prateleira… somos todos artistas. Preferia que as pessoas nos tratassem apenas como artistas, chega. Não preciso de rótulo, não preciso de estar a todo o tempo a comunicar a minha africanidade, está lá escarrapachada na minha obra. Não preciso de provar.

    Mas, também tenho a liberdade de fazer parte de um mundo que, às vezes, até é excessivamente globalizado e depois acaba por confinar e fazer isolamentos de certas situações de que também discordo, é uma violência muito grande.

    Porquê?

    Há assimetrias profundas que não foram resolvidas nesta globalização vigente. Mas o mundo está em transformação, Angola faz parte do mundo, todos nós estamos num concerto das nações e, não só eu, como muitos meus colegas artistas africanos que vivem em África, porque muitos vivem nas grandes capitais ocidentais, mas esta matriz da angolanidade é fruto de estudo, de trabalho. Quando vou buscar coisas à tradição, às raízes nossas, isso é bom, mas como inspiração, eu não quero repetir a tradição. Eu uso estes conhecimentos para fazer gerar um discurso contemporâneo, actual, que belisque as pessoas, que não seja só aquela coisa de ver a beleza num frame, num quadro. As exposições de arte são mais do que isso, o artista tem que entrar em diálogo com o seu público, e ser questionado.

    Porque, senão for assim, para o que é que serve a arte?

    “INTERESSA-ME MUITO, TAMBÉM, A PELE QUE ME RODEIA, AS TEXTURAS QUE SÃO DA CIDADE”

     “o belo, necessariamente, está sempre envolto nos processos criativos e artísticos, isso é evidente. Para simplificar, eu, com a minha arte, não faço panfletos, porque não é esta a natureza do meu trabalho”

    E, assim, faz mais sentido olhar para a arte pelo lado do belo, ou pelo questionamento que impõe à sociedade?

    O belo, necessariamente, está sempre envolto nos processos criativos e artísticos, isso é evidente.

    Para simplificar, eu, com a minha arte, não faço panfletos, porque não é esta a natureza do meu trabalho.

    Mas, ao usar formas, métodos, processos técnicos, interessa-me muito, também, a pele que me rodeia, as texturas que são da cidade… isso é tudo matéria, para mim, fundamental. Ou a minha arte não teria tido este impulso se não tivesse esta vibração que vem da sociedade em mudança, da efervescência social e cultural.

    Esta sua Luanda efervescente, mas que está nas queixas sobre a sua degradação física, social, cultural e até moral, ainda é, ou talvez por isso mesmo, é um bom laboratório, um manancial para a arte?

    Eu, que nasci em Luanda, vivi e cresci na Vila Alice, nasci na Maternidade Sagrada Família, eu tenho uma grande ligação à cidade, profunda. Não posso dizer que não.

    Mas vivi noutros sítios, vivi no Sul de Angola, no Lobito, em Benguela, vivi também uma época em Portugal, onde fiz a escola primária, junto da minha família portuguesa, mas aqui é o meu território. Houve aqui uma explosão enorme, resultado da paz, o país é outro, o Governo está a mostrar serviço, e ainda bem que o faz. Esta explosão, a todos os níveis, é difícil gerir a nossa vida, com tantos automóveis, com tanta complicação urbana…

    
Esta já não é a sua Luanda?

    Há-de ser sempre a minha Luanda, porque as cidades não estão paradas, estão em transformação constante. Só que, fruto da guerra, houve um fluxo excessivo de população para aqui, mas isso não é um fenómeno exclusivo de Angola, em todas as capitais africanas nos pós-independências este fenómeno se fez notar, só que nós tivemos uma guerra… é sempre na capital que o telefone toca. O Rui Duarte de Carvalho dizia que é em Luanda que o telefone toca. Há um excessivo protagonismo, Luanda absorve tudo. Acho que a descentralização é urgente, apesar das outras urgências sociais, como a pobreza. Espero que eu e os meus colegas artistas contribuamos para esta mudança, acho que a sociedade precisa de ser mais equilibrada, mais harmoniosa, com mais justiça, reconhecendo que muito já foi feito, nós habituámo-nos, ao longo dos anos, a ver destruir … somos todos cúmplices dessa mudança e desse novo ar que se apresenta a Angola. Nada me dá mais prazer que pegar no carro e andar quinhentos quilómetros por essa Angola… é uma coisa que nos era negada no passado.

    Era sempre um risco

    Sim, mas lembro-me que quando fizemos os primeiros filmes nós metíamos sete mil quilómetros no Land Rover, era andar…

    Temos artistas idos da capital ao interior do país, pesquisar, etc., mas temos pouca produção artística no interior.

    É verdade. Isso é fruto do tal excessivo protagonismo, tudo vem para Luanda. É evidente que há uma lacuna profunda quando não temos uma escola de ensino artístico, nas várias disciplinas, que pudesse dar ferramentas à nova geração, ensinar a pensar criar situações de acesso a informação…

    A falta desta escola está na base da tal repetição, como ver um trabalho artístico e ver o do anterior, sem inovações?

    Eu acredito que trabalhamos todos para a qualidade que buscamos, só produzindo melhor é que seremos diferentes e vamos mostrar ao mundo a nossa vitalidade cultural.

    O consumidor angolano de arte adquire um quadro porque lhe reconhece valor e lhe lê a mensagem, ou porque acha que é giro ter um quadro?

    Tem de tudo. Mas já há pessoas singulares, agentes, empresas, que adquirem arte como investimento.

    Porque, dependendo do curriculum do artista e de outros factores, a arte é algo que hoje tem um preço e daqui a dez anos terá outro. E se o artista morre, então ainda mais.

    A. Ole:"Eu, nos últimos vinte anos, utilizo muito a fotografia para fazer pintura, porque há coisas na realidade que são pura pintura". (Foto: D.R.)
    A. Ole:”Eu, nos últimos vinte anos, utilizo muito a fotografia para fazer pintura, porque há coisas na realidade que são pura pintura”.
    (Foto: D.R.)

    Já se sentiu chocado por encontrar um trabalho seu mal acondicionado, mal tratado?

    Já me aconteceram vários acidentes, já. Vou dar-lhe um exemplo: uma das vezes tive uma grande exposição em Washington DC, no Smithsonian Institut, o Nationam Museum of African Art, eu e um amigo congolês. A exposição teve grande sucesso. Mas, para transportar as obras, e como para os Estados Unidos há muita exigência, aquilo tem que ir em caixas de madeira, com selos, etc., consultámos aqui alguém que prestasse este serviço, as caixas e o transporte. Entre ir e vir, isso demorou quase um ano.

    Este transitário, não digo o nome por razões de ética, as minhas obras chegaram numa Sexta-feira a Luanda, vários dias depois, quando resolveu entregar aquilo e eu recebo as minhas obras ensopadas, embrulhadas em cartão, tudo cheio de água… isso deixou-me furioso… não é assim que se trabalha. Não há o respeito, nem o mínimo de atenção de que estamos a lidar com obras de arte, coisas que têm o seu valor, que têm uma importância X, ou Y. este tipo de pessoas não tem o mínimo de sensibilidade e estão se marimbando se é obra de arte, ou fogões ou feijão. Pode ficar no aeroporto a apanhar chuva. Nós, os artistas, estamos sempre atreitos a este tipo de situações, incompreensões, falta de apoio institucional, aliás, eu já me deixei de ir pedir patrocínios…

    Nem as instituições particulares apoiam, ou sente que o Estado tem essa obrigação?

    Eu é que já nem peço, depois negativas, sempre em cartas muito bem educadas mas muitas vezes o resultado é nulo, até de onde menos se espera.

    Mas gravam-se muitos discos com apoios até de empresas do Estado, não há para os artistas plásticos? Eu acho que isso é também resultado da falta de união dos artistas, somos pouco unidos, cada um trabalha para si. E o facto de não haver umas tertúlias a falar sobre a arte… deveríamos nomear aí um bar qualquer, um sítio conhecido onde as pessoas poderiam encontrar-se.

     

    Mas tem o Instituto Camões, que centra quase todas as exposições e apresentações de livros…

    Pelas suas condições físicas o Instituto Camões é tecnicamente um bom espaço para exposições, a luz, o equilíbrio espacial, eu gosto, já lá tenho exposto bastante. Mas, quando foi o aniversário do Lobito, eu e colegas expusemos na antiga estação terminal, uma obra do arquitecto português Cassiano Branco, há sempre a possibilidade de se encontrar espaços alternativos. Há um outro espaço que não é mau, mas tecnicamente está mal engendrado que é o Siexpo.

    O Siexpo poderia, de facto, ser uma boa sala para exposições, eu não gosto muito, não reúne condições, deveria haver uma forma de dar uma vitalidade àquele espaço que neste momento não me parece que tenha. Apesar disso, as artes plásticas estão, de certa forma, em efervescência, poderemos nomear o Leão de Ouro ganho na bienal de Veneza, isso poderia ser uma grande incentivo para acelerar as coisas. Sei que há um edifício construído nas novas centralidades que há-de albergar o ensino artístico… veremos.

    “A IMAGEM PARA MIM, É TUDO. EU VIVO, ALIMENTO-ME DAS IMAGENS

     “acho que a fotografia excede o carácter de testemunho só, vai muito mais além.

    Por tabela, acabei por chegar ao cinema, porque o cinema sempre me atraia, era um inveterado das matinées no cine Império, no lobito, aqui, nos cinemas em luanda”

    É um homem da imagem, da câmara, também.

     

    Sou um homem do cinema, da imagem. A imagem, para mim, é tudo.

    Eu vivo, alimento-me das imagens.

    Umas vezes fixando a realidade, com a minha câmara fotográfica, porque sou um apaixonado pela fotografia. Acho que a fotografia excede o carácter de testemunho só, vai muito mais além. Por tabela, acabei por chegar ao cinema, porque o cinema sempre me atraia, era um inveterado das matinées no Cine Império, no Lobito, aqui, nos cinemas em Luanda. Escrevi sobre cinema para alguns jornais. Até que chegou a oportunidade que tanto ansiava, no período antes e depois da Independência, fui admitido na televisão angolana…

    E realizou algumas das peças mais importantes que constam no arquivo da televisão

    Posso orgulhar-me disso, evidentemente. Foi um período de grandes sacrifícios, alimentávamo-nos mal, dormíamos mal, tudo era difícil nessa época, mas tínhamos esta alegria fabulosa que era a de estarmos a testemunhar o nascimento de uma nação.

    Quando digo isso, lembro-me de estar doze horas seguidas na regi da televisão, a emitir em circuito fechado, mas era possível ver na cidade, para quem tivesse uma antena ou improvisasse alguma forma de captar as imagens, a cerimónia do 11 de Novembro de 1975.

    Estava na regi, a receber as imagens dos meus colegas na praça 1º de Maio.

    Nós pedíamos aos câmaras para que quando filmassem o fizessem já com a ideia de montagem, para evitar que nós ainda tivéssemos que montar.

    Então, à medida que as cassetes chegavam, nós íamos emitindo. Para mim foram doze horas, com uns cafés, umas sandes.

    Horas históricas e bem passadas, portanto?

    Isso foi. Foram doze horas.

    Gosta de fotografia, sente-se mais realizado quando retrata a vida numa fotografia, ou quando expõe, com o seu pincel, a realidade num quadro?

    Eu, nos últimos vinte anos, utilizo muito a fotografia para fazer pintura, porque há coisas na realidade que são pura pintura. Nos meus anos iniciais, na década de setenta, do século XX, quando comecei a fotografar, o meu interesse era outro, como queria estudar arquitectura, pegava na câmara e fazia uma espécie de exercício fotografando musseques, as zonas periféricas, pessoas que não estão debaixo dos holofotes, anónimas, na rua e até famílias. Um dia, um velho, o pastor Simeão, protestante, do Sambizanga, sabendo que eu tirava fotografias, convidou-me para o fotografar, à sua esposa e os vinte e quatro netos. Esta é uma fotografia que tenho nos meus arquivos. Já a expus noutros momentos. Esta fotografia tem uma carga de testemunho, qualquer coisa, é um documento importante e é arte. O fotógrafo é um artista.

    E é uma arte que estamos a perder, há pouca literatura sobre a arte angolana, sobre as obras, os artistas, nem catálogos. Não estamos a deixar a mensagem para o futuro.

    É uma etapa, espero.

    Mas assim ficamos com o futuro um bocadinho coxo, não?

    É um exercício que provavelmente já está a ser feito. Só que é preciso reunir as condições porque, agora, se reparar, eu não sou um artista rico, não tenho dinheiro para financiar exposições, embora possa sempre alguém juntarse ao esforço e fazer um catálogo e a exposição ter alguma dignidade… para isso é preciso alguma ajuda financeira, o patrocínio. Pessoalmente não me posso queixar mas não é um exercício fácil, escrever cartas e esperar por respostas…

    Está mesmo a faltar uma boa linha de financiamento às actividades artísticas?

    Noutras alturas, e podem-se contar pelos dedos as vezes em que o Estado ou o Governo premiou… há um prémio anual para a ciência, ou a cultura, a arte ou a literatura, mas eu acho que isso só não chega.

     

    Falta o apoio à criação?

    Falta o impulso para a criação. Eu na minha idade, depois de quarenta e seis anos de trabalho artístico, na fotografia, cinema, pintura… às vezes fica difícil gerir sem ter um apoio, alguém que nos dê o impulso para ir para a frente.

    Aqueles anos bons, do início da República, quando passava doze horas numa regi, foi a combinação de um momento especial e um grupo de pessoas com a predisposição para fazer coisas? Foi importante a vida ter reunido aquele grupo de pessoas (Luandino, Rui Duarte, etc.) naquele momento específico? Ou outros o fariam?

    Foi. Tal que a coisa mais importante era que dialogávamos, falávamos muito, planeávamos coisas. E eram pessoas com outras experiências da vida. Eu era muito novo. Esses ensinamentos, das pessoas que estiveram nas prisões, como o Luandino, os que estiveram na guerrilha, na luta armada, tudo foi importante para ajudar a definir uma estratégia de afirmação de Angola no mundo, numa altura em que o nome do país era citado apenas pelas más razões, a guerra. Isso, felizmente já passou. Esperamos que o futuro seja de pessoas mais felizes.

    A sua carreira, a importância do seu nome no mundo das artes, isso fazse com quarenta anos de trabalho, ou basta internacionalizar a obra, cortando caminho?

    Não sei. Desde sempre que trabalho, as artes são as minhas formas de afirmação. Acho que em certa altura alguém achou interessante o meu trabalho noutro contexto, fora de Angola, e isso tornou-se numa bola de neve. E sou convidados para expor lá fora. São sempre desafios importantes.

    
Isso dá-lhe uma responsabilidade acrescida?

    Muita responsabilidade, evidentemente. Eu, de cada vez que vou expor lá fora, o nome de Angola está ligado, quer seja individualmente ou em grandes eventos, em bienais, o nome de Angola acaba ligado ao meu, isso dá-me uma grande responsabilidade, sei-o. Não digo que nestes momentos estou a representar Angola, isso é uma coisa que está inerente. Mas tento primar pela qualidade, qualquer coisa que chame a atenção, são coisas que acontecem.

    Consegue fazer o acompanhamento da vida da sua obra depois de a vender? Sabe onde e como está?

    Nós, os artistas registamos as coisas. No passado era diferente, agora, com as estruturas digitais, podemos registar em imagens, etc.. até para alguma eventualidade, nem que seja para a publicação de um livro. Eu já publiquei um, com a chancela do BESA. Acho que devemos ser responsáveis pela nossa própria memória.

    Eu tenho-a guardada, a minha, em caixas. Alguém há-de se ocupar delas.

    Eu sempre guardei recortes de jornais, revistas, livros, etc. É a minha ligação e de comunicação com o mundo, percebi sempre que era pelas artes que eu me comunicaria com o mundo. Isso deu-me essa humildade de nada saber e ter que aprender tudo. Ao fim destes anos, inevitavelmente, tenho alguma experiência, mas é preciso lavar sempre os olhos e dizer que não sei nada, estarmos no processo contínuo de aprendizagem. Isso tem-me ajudado muito no meu discurso artístico.

    
Também apresenta instalações de vídeo

    Trabalho com imagens em movimento. é uma democratização da arte. Há filmes geniais com quase nada de dinheiro. Até uma criança pode filmar, criar imagens. Mas, o cinema, hoje, é já feito com câmaras de alta definição, câmaras fotográficas evoluídas, o que faz com que as produções também possam ser dispendiosas. Tudo isso também me faz correr.

    Vai ao cinema, a uma exposição que não a sua, sente-se imediatamente no papel do crítico?

    Todas as pessoas avaliam, está inerente ao usufruir de um produto artístico.

    Ainda que seja apenas o gosto ou não gosto. Isso, para mim, é mais do que suficiente. As pessoas não são obrigadas a gostar da minha arte.

    Reage bem à crítica?

    Reajo bem à crítica.

    Faz-nos falta haver mais críticos de arte em Angola?

    É outra lacuna profunda na capacidade da crítica, para podermos avaliar o nosso trabalho por textos bem feitos, criticando, enaltecendo, se for o caso. Isto é uma coisa que não existe.

    Contam-se pelos dedos os nossos críticos de arte, de tão poucos que são.

    Dos que conheço, o que escreve com mais regularidade é o Adriano Mixinge, com quem acabo de partilhar uma exposição em Madrid. Havia o David Mestre, que até era membro da Associação Internacional de Críticos de Arte, mas que já morreu, não deixou alguém que pegasse nisso.

    Há muito pouca coisa. Até a própria crítica literária. Temos poucos jornais de informação cultural, acho que devia haver mais. Talvez isso ajudasse as pessoas a situarem-se em relação ao artista X, B, etc.

    Para os músicos a tarefa é mais fácil, o processo de difusão da música é instantâneo, entra na vida, na rua, no carro, em casa. Para nós o processo é mais lento, colocando camadas sobre camadas, retirando-as e recomeçando, tudo numa lentidão grande.

    Depois de vários anos, para o artista, é importante esta ligação ao público. É o público que completa a obra de arte ao vê-la.

    
O papel da arte numa sociedade como a nossa, tendo pouca educação para as artes, chega-se ao décimo segundo anos sem ter saber de Matisse, Picasso, Gaudi, Rembrandt e outros. Não ouviram falar dos nossos como Ole, VAN, etc. Sente que a educação para a arte ajudaria a minorar alguns dos problemas que temos na sociedade?

    Isso é uma coisa que vem de pequenino. É tarefa para começar a construir no ensino primário. Antes, até. Mesmo não conhecendo os programas do ensino, não sei que impacto terá o ensino artístico ou a sensibilidade para olhar para uma pintura com outro usufruto, com outro conhecimento. Usufruise quando se vê uma bela arte, uma pintura. Tudo isso deve começar cedo, é aí que se começa a moldar as cabeças das pessoas. Tive um professor, no liceu, que dizia que não estava interessado em atafulhar-nos a cabeça com muitas coisas, muitos conhecimentos, estava interessados em fazer-nos uma cabeça bem feita. Esta noção, da cabeça bem feita, ajudou-se a ir procurar coisas, a investigar. (opais.net)

    Por: José Kaliengue, jose.kaliengue@opais.co

     

     

     

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