“O Dr. Savimbi era um personagem cheio de contradições” – Sousa Jamba

O jornalista e escritor Sousa Jamba afirmou que a UNITA vai ter de falar com franqueza sobre as figuras que desapareceram em circunstâncias bastante nebulosas. Em entrevista ao Jornal de Angola, disse que aquele partido tem de lidar com erros crassos cometidos no Huambo.

Vens a Angola, nos últimos anos, com muita frequência. Estás a preparar um livro ou a criar condições para te fixares aqui depois de décadas a viver no estrangeiro?

Brevemente, penso fixar-me aqui. Saí do país em 1976, com dez anos, em condições bastante dramáticas. Como várias pessoas ligadas à UNITA, abandonamos o Huambo. Uns foram para as matas e eu fui levado para a Zâmbia onde passei parte da minha infância numa comunidade fortemente ligada aos desenvolvimentos em Angola. Depois, fui para Londres e agora vivo nos Estados Unidos. Com a paz efectiva, comecei, em 2003, a vir a Angola com regularidade. Estou envolvido num projecto de viagens e descobertas no Planalto que vão resultar num livro.

Tenho raízes fortes no Ocidente, porém, se for para me instalar em Angola, vejo-me mais a viver numa localidade como Camela, que fica cerca de oitenta quilómetros do Hu-ambo, perto da minha aldeia ancestral de Manico. Camela é a aldeia dos Amões – com quem tenho laços de parentesco. Nos últimos anos, o empresário Segunda Amões transformou o que era essencialmente uma aldeia típica do Planalto numa vila, com casas e facilidades do primeiro mundo. Tenho vindo aqui também para seguir de perto a evolução da Camela, que claramente deve servir como um exemplo de como as iniciativas privadas podem ajudar a superar os vários desafios que o país está a enfrentar.

Como foi parar a Jacksonville? É o teu destino final, depois da Zâmbia e de Londres?

Vivi no Reino Unido quase 15 anos sem viajar. Depois, comecei a viajar por África ao mesmo tempo que contraí um relacionamento com uma senhora nascida em Angola, mas que cresceu nos Estados Unidos, em Jacksonville, Florida. Os filhos apareceram e criei raízes nos Estados Unidos. Nada foi planificado.

Como é que sente no seu bolso quando chega a Angola, comparativamente a outros países que visita com frequência?

Luanda é cara e não tenho estado cá por muito tempo, porque assim que aterro em Angola vou logo ao Planalto. Lá, o custo de vida é razoável. Mas há também a questão da qualidade de vida. Quando se está na área da Camela, por exemplo, há a maravilha das paisagens (montanhas, vales, rios); o encanto dos costumes dos povos e a sua história. Tenho um certo fascínio pelas ligações entre as várias famílias naquela área. Camela tem internet via satélite – o que não facilita o acesso à internet pelo resto do público. Espero que as autoridades façam tudo para que as operadoras nacionais tenham cobertura em toda a área entre Katchiungo e o Bailundo. Isto vai poder estimular o turismo não só interno mas também internacional.

Que engenharia faz para viver por uns dias na capital do país?

Tenho muitas dificuldades em adaptar-me a Luanda. Quando chego visito muitos parentes e evito restaurantes caríssimos.
Na Ilha do Cabo, estive num restaurante que oferece peixe importado de Portugal. Já podes imaginar o preço! No Planalto, quando viajo para as aldeias as pessoas fazem questão de me oferecer batata doce, galinhas, até já tive um boi como oferta. Certamente que prefiro deambular por lá…

Como é que encara a mentalidade do angolano hoje, sobretudo a dos jovens?

Tenho muita fé no futuro deste país por causa do dinamismo com que muitos jovens vão enfrentando os problemas sem rodeios e evasões do passado. A cultura de sempre ter que se encontrar um bode expiatório para os nossos problemas, para estes jovens, está caduca. Há agora muito realismo. A forma como esta juventude se adaptou às novas tecnologias é, também, bastante animadora. Claro, há aspectos que ocasionalmente me preocupam, como o que me parece ser a adesão, sem críticas, a certos aspectos da cultura po-pular americana.

Sousa Jamba é líder e fazedor de opinião. As redes sociais assustam-no, com o progresso que o mundo tem hoje? Como é que vê isso?

Não me assustam. Pelo contrário, a democracia tem que celebrar a diversidade que as redes sociais oferecem. São as várias ideias que resultam na criatividade e no progresso.

É militante da UNITA (com cartão e quota regular) ou apenas simpatizante?

Pertenço a uma classe entre simpatizante e militante. “Milizante”, para inventar um termo. Faço parte de uma geração cuja afinidade política foi principalmente determinada por factores geográficos e históricos. Com a evolução do tempo, haverá muitos angolanos que não vão estar nas mesmas condições: factores ideológicos, competência administrativa, idone-
idade etc. passarão a ser os factores decisivos nas suas escolhas políticas. Isto já está a acontecer.

Como é que vê a UNITA hoje em função dos desafios que o país enfrenta?

A UNITA vai ter seriamente que afinar a sua máquina para ser o partido da oposição e uma alternativa credível. Para isso, a UNITA terá que fazer algo contra a prática de sempre de centralizar tudo. A UNITA terá que ser um partido altamente localizado, que reflecte as aspirações de várias localidades: terá que haver uma UNITA de Cabinda, Cunene, etc., mas que, ao mesmo tempo, se encaixa na estratégia geral do partido. A UNITA vai precisar de mecanismos que celebram o que é local para avançar os seus interesses nacionais.

Desde 2002 à frente da UNITA, afastando os seus principais contestatários, acha que Samakuva é o líder adequado para o partido em função dos desafios actuais?
O Dr. Samakuva prevaleceu sobre os seus adversários em processos que foram democráticos. Ele deve agora ajudar a fortalecer a cultura de-
mocrática no partido. A questão de quem o vai suceder não deveria ser um tabu. Em África, os partidos da oposição eventualmente passam a ter características do incumbente: redes de patrocínio começam a surgir, querelas internas aumentam, e perde-se a noção do objectivo final, o poder.

De que UNITA tem mais saudade? A dirigida pelo seu fundador Jonas Savimbi ou desta que chegou à grande cidade, com todos os seus “mais velhos”, e ficou por aqui, deixando o seu principal território étnico para trás?

Saudades não seria o termo. Continuo a tentar entender a complexidade do Dr. Savimbi, que é, sem dúvida, um dos personagens mais complexos que conheci. De 1977 a 1980, o Dr. Savimbi foi um líder altamente exemplar: corajoso, disciplinado, pronto a consultar os seus colegas, com uma visão que privilegiava a formação de militares e quadros de qualidade. Depois, surge o culto de personalidade, a eliminação física de figuras tidas como rivais ao chefe e outros males que quase cancela o que foi tão positivo nele. Aprecio muito a liderança das cidades – do Dr. Samakuva – que em 2003 soube conciliar as facções que existiam depois da morte do líder fundador. Em situações que ameaçavam a paz e o processo de reconciliação nacional, esta liderança sempre optou pelo consen-so e moderação. O Dr. Isaías Samakuva deve ser reconhecido pelo papel tão positivo em manter a UNITA intacta.

Como é que o Sousa Jamba vê à distância a política feita em Angola?

Angola está a conhecer mu-danças que estão a surpreender, pela positiva, muitos de nós da diáspora. Estamos a ver o tipo de abertura que clamávamos.

O MPLA fez mudanças inéditas na escolha do candidato a Presidente da República e alterou um modelo seguido em África pelos partidos libertadores, onde o presidente do partido é o Presidente da República. Como é que vês isso?

Isto não vai dar certo. Há vezes que a agenda dos presidentes do partido e o da República divergem em muitos pontos.

Que políticos do MPLA admira? Porquê?

Admiro o Presidente João Lourenço obviamente. Quando ele passou a ser candidato, perguntei aos meus amigos sobre ele e o consenso era de que se tratava de um militar, possivelmente um mandão. Havia também o nosso lado snobe: o senhor formou-se na União Soviética e não numa universidade Ocidental. Estamos a ver uma abertura positiva na imprensa estatal e o início de uma cultura que preza a prestação de contas. Admiro o Presidente João Lourenço de mo-mento; se um dia mudar, não haverá garantias do meu apoio. Admiro Carlos Feijó, Lopo do Nascimento e Isaac dos Anjos. Admiro o ex-Presidente José Eduardo dos Santos pela forma como optou seriamente pela reconciliação, em 2003. Ele deu espaço à UNITA e às figuras vindas das antigas FALA, que foram tratadas com muito respeito e dignidade.

A sociedade civil em Angola cresce cada vez mais e a abertura política nos últimos anos tem dado uma ajuda considerável. Como é que encaras o seu papel?

A sociedade civil tem um papel crucial numa democracia nascente como a nos-sa, onde existe uma cultura política que tende a uma bipolarização e a ver tudo em preto e branco. As redes sociais têm sido uma espécie de sociedade civil. Foi com muito orgulho que participei na campanha contra a exploração da madeira. Vejo agora, por exemplo, uma campanha em prol da educação. A sociedade civil está certamente a ter uma eminência altamente merecida na cena nacional.

Em teu entender, e do que vês, há liberdade de expressão e de imprensa em Angola?

De zero a dez na liberdade de imprensa estamos em 7,5. Precisamos de mais jornais, mais estações de televisão, mais rádios, para dar voz às várias sensibilidades no país. Precisamos de mais órgãos que reflictam a diversidade da nação. A luta por todos os direitos é contínua. Há sempre espaço para melhorar.

Como é que encaras os desafios definidos pelo Presidente da República, desde o combate à corrupção, à impunidade ou responsabilização, ao repatriamento de capitais que saíram do país de forma menos clara?

A visão do Presidente João Lourenço é louvável, claramente. A mesma só terá êxitos se houver uma aliança sólida com o sector privado. Em relação à corrupção, temos de fazer uma distinção entre a corrupção da “gasosazita” e o desvio de milhões que poderiam beneficiar o público ou a nação. Quando se trata de somas avultadas, a questão chave é a ética e a cultura de prestação de contas. Vejo o Presidente João Lourenço a atingir os objectivos que proclamou só numa aliança com empresários sérios.

Como é que vês o Presidente João Lourenço? Um reformador ou alguém apenas que está a dar continuidade ao rumo definido pelo MPLA?

Vejo o Presidente João Lourenço como um grande reformador – alguém que pensa numa Angola: abriu a feira agrícola no Katchiungo, que fica muito perto da Camela, e agora abriu o ano lectivo no Namibe. Vejo o Presidente João Lourenço como o nosso Presidente – de toda Angola! Num curto tempo, ele está a ganhar muita simpatia e respeito de várias componentes da sociedade. Espero que isto dure. A história está cheia de pequenas primaveras que se transformaram em autoritarismo. Espero que este não seja o caso. Para nós, da UNITA, temos um grande desafio; o MPLA pode ter o seu Messi e nós vamos ter que ser como a selecção da Alemanha – disciplinados, organizados, altamente determinados e fazer um jogo limpo; no fim, não só poderemos partilhar os aplausos, mas poderemos até vencer o jogo.

Como é que vês a justiça angolana? Que desafios achas que ainda tem de enfrentar?

Vejo apenas de longe e tudo que se diz dela não inspira nem dá muita confiança.
Como é que reages quando ouves notícias de angolanos envolvidos com ptoblemas com a justiça estrangeira por causa de dinheiros cuja origem não é declarada, no meio de tantas dificuldades que a maioria dos angolanos ainda vive?
Sinto-me muito mal, sobretudo, porque lá fora não somos respeitados. Dizem que viemos de países falhados. Não estou nada contra os nossos empresários investirem no Ocidente, mas deviam fazê-lo também cá.

“Savimbi tinha um lado sem escrúpulos: no ajuste de contas a família não era poupada”

O que se passou com o escritor Sousa Jamba cujo livro “Pa-triotas”, na versão inglesa, viu retirada duas páginas que retratavam a queima de pessoas vivas acusadas de bruxaria na Jamba?
A versão em Inglês contém relatos que tocam nos aspectos negativos da UNITA, como a queima de pessoas acusadas de bruxaria. Em 1991, fui pressionado a não incluir na versão portuguesa esta questão. Naquele momento, havia uma profunda tensão entre secções da UNITA na diáspora com o Dr. Savimbi, por causa do caso Tito Chingunji. O Dr. Savimbi tinha um lado sem escrúpulos: no ajuste de contas, com ele a família e os próximos não eram poupados. Indivíduos que, acabei de saber, tinham ligações com a UNITA, acabaram por comprar todas as edições em inglês do romance “Patriotas”. Suspeito que o mesmo se passou com as edições em português. Tive que ceder a pressões, porque temia pela segurança da minha família. A UNITA vai ter que falar com franqueza sobre as figuras que desapareceram em circunstâncias bastante nebulosas. O partido vai ter que lidar com candura com os erros crassos cometidos quando o Huambo estava sob o seu controlo. Há muitos jovens que ficaram traumatizados com o autoritarismo daquele momento. A UNITA precisa mesmo de uma Comissão da Verdade. Só assim poderemos apreciar o muito que certamente é louvável e positivo no partido, que, naturalmente, vai ter que se adaptar aos novos tempos.

Como é que vias Jonas Savimbi?

Era um personagem cheio de contradições. Ele foi, em termos físicos, muito corajoso e capaz, mas havia o seu lado burguês. Uma vez, quando estive na Jamba, estava a ajudar numa tradução e ele apareceu, à madrugada, vestido de pijama de seda e óculos, com um calhamaço sobre logística em inglês na mão. Ele parecia ser um intelectual finíssimo numa biblioteca privada num chalé suíço. Ele escutava música clássica e reggae — sobretudo o Jimmy Cliff. Ele lia muito em Francês, Português e Inglês, e escrevia nas margens dos livros com caneta de feltro preta, como se estivesse a argumentar com os autores. Havia, na sua biblioteca, vários livros sobre Winston Churchill.

E onde estava o problema?

Para ele as aparências contavam muito. Passou a haver situações, que não presenciei, em que o intelectual e soldado que conheci desaparecia por completo. Tinha-se, então, uma figura com uma visão apocalíptica de tudo. Ele falava, então, do seu fim que seria trágico. Ele não perdoava os que, aparentemente, o teriam traído, passou-se a ter o cenário de o poder absoluto corromper de uma forma absoluta: ou estavas com ele a cem por cento ou deixavas de existir. Todo o mundo teria que deixar de falar deste alguém . Só ele, quando lhe apetecia, se referia a ele. Mais de uma década depois da sua morte, parece haver ainda muito receio na UNITA de falar abertamente de figuras como Sangumba, Kashaka Vakulukuta e da família Chingunji.

Como é que vês a presidência de Donald Trump?

Não há países que são pardieiros (“shithole”, como disse). Em todo o caso, a atitude do Presidente americano é a de muitas figuras do Ocidente.

Joseph Sousa Jamba
Naturalidade:
Katchiungo
Data Nascimento:
9 de Janeiro 1966
Filiação:
Rúben Tavares Hungulu Jamba
e Ruth Simbovala Malanga Jamba
Profissão:
Jornalista/Escritor
Formação:
Licenciatura em Comunicação Social, Universidade Westminster, Reino Unido;
Mestrado em Comunicação Estratégica e Liderança, Universidade de Seton Hall, Estados Unidos
Publicações:
“Patriotas”; “Confissões Tropicais”
Prémios:
Premio Shiva Naipaul de escrita sobre viagens
Colunas:
“Semanário Angolense” e, agora, no “Novo Jornal”
Colaboração:
Várias revistas no Reino Unido, Estados Unidos e Portugal. (Jornal de Angola)

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