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    Adriano Mixinge: “O mercado da arte está no epicentro da criação de valor”

    Adriano Mixinge, crítico de arte. Foto (DR)
    Adriano Mixinge, crítico de arte.
    Foto (DR)

    A compra/venda e peritagem de obras de arte é um segmento das indústrias culturais ainda pouco divulgado e preenchido no mercado angolano. Com vista a preencher este vazio, Adriano Mixinge, historiador e crítico de Arte, fundou a “Mixinge Arts Consulting” que surge agora, com sede em Espanha, como “o único instrumento de referencialização da arte angolana moderna e contemporânea, seguindo padrões internacionais.”

    Dado o ineditismo desta iniciativa empresarial, num domínio que muitos agentes económicos nem sequer sonham, talvez dado o pouco conhecimento dos produtos em causa ou a incerteza quanto aos riscos, decidimos entrevisar o seu fundador, para nos revelar como e o que se faz neste negócio da Arte.

    Jornal Cultura: O conceito de avaliador de arte é inédito em Angola. Pode explicar ao leitor do Jornal Cultura, o seu objecto de actividade?

    Adriano Mixinge: O avaliador de arte é aquele que é capaz de calcular o valor real que as criações artísticas, as obras de arte, os objectos de luxo, as antiguidades e os outros artefactos podem adquirir no mercado. Com esta preciosa informação de base que é o possível valor das criações artísticas, o avaliador de arte pode aconselhar quem já as tem, quem as quer coleccionar, quem as quer vender, quem as quer comprar ou quer fazer qualquer outro tipo de transacções económicas, de direito civil, empresariais e ou de seguros, a fazê-lo da melhor maneira possível, permitindo-lhe preservar o investimento realizado e/ou a realizar, tanto na sua dimensão estética e simbólica quanto no seu valor financeiro, propriamente dito.

    JC: Que domínios da arte ele cobre?

    AM: Em geral, os limites do Mercado são incalculavéis e o mercado de arte não foge à regra. Há uma série de parâmetros de referência, mas existem muitas variantes que flutuam e essa é uma das peculiaridades do mercado de arte.

    Como os donos da Mixinge Arts Consulting e as empresas com quem trabalhamos são todas altamente especializadas abarcamos vários dominios e em diversas manifestações da arte.

    Mas, claro, de um modo geral, um especialista de mobiliário inglês do século XIX não tem nada a ver com um especialista em cerâmica chinesa do período Tang. Um especialista do Art Nouveau francês, rigorosamente não tem nada a ver com um especialista de arte angolana contemporânea dos anos 90. Estamos e estaremos no mercado para aconselhar bem os nossos clientes.

    JC: Que competência e experiência deve ter esse profissional intermediador do mercado da arte? O seu poder persuasivo, com base, nessas competências ou conhecimento profundo dos objectos da indústria cultural, pode influenciar, por exemplo, no custo final de uma obra?

    AM: Para ser um avaliador de arte são precisos muitos anos de experiência e de trabalho, uma cultura geral muito sólida e uma verdadeira erudição sobre as manifestações da arte, o período, os criadores da época que se estuda, do artista e da obra que esteja a ser avaliada.

    Entretanto, as obras estabelecidas como seguras no mercado da arte têm estado a revalorizar-se todos os anos. O nosso interesse é que os nossos clientes adquiram obras que, no futuro, se revalorizem, quer dizer, que sejam um investimento seguro. Isto será possível graças à nossa experiência e competência neste domínio.

    JC: Quando e em que realidade mercantil se inspirou para penetrar neste sector colateral das Artes?

    AM: É bom referir que o mercado da arte está no epicentro da criação de valor, status e riqueza tanto da economia das classes médias em todo mundo como da alta finança internacional.

    O mercado de arte emula, por exemplo, com o valor do mercado de ouro por ser um valor seguro de refúgio de capitais.

    Entretanto, respondendo a sua pergunta, iniciei formando-me em História de Arte, depois interessei-me pela crítica e o ensino das artes e, daí, passei a curador de arte, ou seja a administrar obras de arte de outros. Depois vivendo entre Luanda, Madrid e Paris interessei-me pelo mundo das leiloeiras de arte – em particular da casa Drouot – e mais profundamente pela complexidade do mercado de arte e pelas especifidades da obra de arte como mecanismo de acumulação de riqueza e como uma forma de investimento seguro e susceptível de ser constantemente revalorizado.

    Rosa Cubillo, a minha sócia na empresa, formou-se em Belas Artes, depois organizou conferências de arte e investigou, por exemplo, o universo dos têxteis africanos e daí, como eu, também passou a curadora de arte e a interessar-se pelo mercado de arte e as suas dinâmicas.

    A criação da Mixinge Arts Consulting surge, então, como consequência natural da junção de sinergias entre profissionais, que têm uma profunda vocação pela arte, compromisso vital e a responsabilidade social de incentivar um coleccionismo público e privado, em Angola, que permita atrair obras de arte internacionais, consolidar o mercado nacional através de investimentos mais perenes e, no geral, que ajudem a criar mais riqueza.

    JC: Como pensa (com que estratégias) articular a procura mundial de peças de arte africana e a oferta do mercado angolano e – se for o caso – vice-versa?

    AM: Tudo depende da lei da oferta e da procura. O slogan da nossa empresa, “Ali onde a arte e a vida são a mesma coisa”, pode ajudar-nos a resumir a nossa estratégia que não é uma estratégia concebida só para a arte angolana e a arte africana, mas para a Arte em geral, porque o que pretendemos é incentivar tanto a arte como o coleccionismo de qualidade como uma forma de investimento e de realização pessoal e ou colectiva.

    A Mixinge Arts Consulting tem todas as licenças para funcionar em Madrid, em todas as comunidades autónomas de Espanha e na União Europeia.

    Já seja como Historiador de Arte ou como consultor da empresa temos estado a trabalhar e a conversar com outras empresas do ramo, em Portugal, França e Espanha.

    A nossa empresa é nova e começou a funcionar – prévia consulta da secção da Sotheby’s e da Christie’s, em Madrid – com a intermediação da venda em leilão de obras de Valentim de Zubiaurre e de Guillermo Gómez Gil, dois pintores espanhóis para um cliente angolano que residia naquele país, na leiloeira espanhola “Durán Subastas”.

    Aproveitando a minha experiência de comissariado de arte de exposição de ao menos uma dúzia de artistas plásticos angolanos, neste momento estamos a preparar o dossier para um cliente com obras de arte portuguesa e angolana, em Luanda. Temos, pois, uma estratégia multiforme e constantemente a ser redesenhada para um mercado de arte compartimentado, mas com muito futuro.

    PERFIL

    Foto (DR)
    Foto (DR)

    ADRIANO MIXINGE(Luanda, 1968)

    Depois de ter passado dez anos como Conselheiro Cultural na Embaixada de Angola em França, desempenha, desde 2011, as mesmas funções em Espanha.

    Autor do romance Tanda (Edições Chá de Caxinde. Luanda, 2006) e do livro de ensaios “Made in Angola: arte contemporânea, artistas e debates” (Editions Harmattan. Paris, 2009).

    Tem textos publicados em revistas como Museum International e Médianes (França), Gestión + cultura e Lápiz (Espanha), Angolê (Portugal), Journal (Fundação do Príncipe Claus da Holanda), Coartnews (Bélgica/África do Sul), Metamorfose (Brasil) bem como no livro Anthologie de L’Art Africain du XXéme Siècle (Revue Noire, Paris 2001), no catálogo da exposição “El Juego Africano de lo Contemporâneo” (A Coruña, 2008) e, também , uma entrevista no livro Fault Lines (Iniva. Londres, 2002).

    Entre 2003/04 foi colaborador da Delegação Permanente de Angola Junto da UNESCO. Em Novembro de 2008, organizou o projecto artístico e cultural “Angola, mon amour”(Musée du Quay Branly. Paris) e, entre 2009 e 2011, esteve na origem da exposição “Angola, figures de Poder” (Museu Dapper. Paris, 2011).

    Em 1993 obteve a Licenciatura em História de Arte pela Universidade de Havana (Cuba). Entre 1993/95 foi investigador no Museu Nacional de Antropologia, docente de História de Arte e de Metodologia de Ensino das Artes Plásticas no Instituto Nacional de Formação Artística e Cultural -INFAC-, em Luanda (Angola).

    Foi editor Cultural do Jornal de Angola, entre 1996/97. Desde 1997 que vem preparando o Doutoramento em História da Arte Contemporânea na Universidade Complutense de Madrid (Espanha). Ao longo do seu percurso foi comissário de várias exposições individuais (Van, Jorge Furtado, Kyel, Kissanga, Eleutério Sanches, Alvim, Álvaro Macieira, Franck Lundangi) e colectivas como a Exposição de Pinturas e Esculturas Angolanas (Museu de Antropologia de Madrid, em 1994), “Entre a Guerra e a Paz” da participação de Angola na Iª Bienal de Joanesburgo (África do Sul, em 1995) e Metáforas Angolanas, no Grand Arc de La Defense (Paris, em 2001). Entre 1998 e 2002 , período da sua primeira estadia prolongada em Madrid foi consultor Cultural da Embaixada de Angola no Reino de Espanha e realizou palestras nas Universidades de diversas cidades como Granada, Léon, Vitória, Vigo e Barcelona. JOSÉ LUÍS MENDONÇA (CULTURA – Jornal angolano de Artes & Letras)

     

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    1 COMENTÁRIO

    1. Prezado Adriano Mixinge. Sou viúva de Filipe Salvador e mãe do único filho dele, Kyesse Freedom. Estou escrevendo um livro sobre a vida pessoal e artística do Filipe Salvador. Além disso possuímos um grande acervo da obra dele, com o qual faremos uma exposição retrospectiva de sua obra, em 2016, quando se completam os dez anos de sua morte. Gostaríamos de levar esta exposição para Angola, Europa e o mundo. Foi muito proveitoso ver pela sua entrevista que você poderá ser um dos nossos parceiros. Também agradecemos seus comentários sobre o Filipe em seu e-book, no Google. Aguardamos seu contato, através do meu e-mail ou pelo facebook, para que possamos iniciar uma conversação. Meu e-mail: annadavies3000@yahoo.com.br . Abraços. Anna Davies.

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