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    A última crónica de João Serra, na imprensa angolana: Poesia, armadilha

    O cronista João Serra, no seu último contacto com a escrita. Foto DR
    O cronista João Serra, no seu último contacto com a escrita.
    Foto DR

    A paz de um homem é uma tranquilidade estranha. Vive de versos escondidos quando a poesia viaja anónima no comboio da nossa imaginação. E dança nos píncaros das lágrimas se houver um palco para exibir os sonhos e as tristezas.

    Morre como as moscas, no Verão, por absoluta falta de ritmo e de repto.

    A poesia é uma armadilha.

    Um punhal.

    Uma aventura.

    Um risco no papel.

    A poesia é também um corpo de mulher em estado de guerra. Uma faca afiada na lógica do texto, um oportunismo de linguagem, o amor das vogais abertas pelas consoantes, o rebanho dos caracteres que se vendem por um til ou um acento circunflexo aos ditongos orais. Estranha teoria!

    Porém, como duvidar desta evidência, supremo conceito de risco, munição de espingarda que dispara versos de amor, fascínio, redenção? A minha pátria é o presente do indicativo, ninguém me fará mudar de linguagem.

    Os poetas usam punhais de mel, letras, ditongos, consoantes e vogais para conjugar o desastre sentimental na segunda pessoa do plural amar. Utopias. Na altura própria, as palavras cruzam-se e dão flor, umas em tempos de colheitas, outras nos rios da nossa alma. Espera-se que regressem à matriz da escrita, porque o amor dos deuses é impaciente. A bigamia da rima é imperdoável.

    Os poetas brincam demasiado com as palavras. Tudo lhes serve: pássaros azuis, aviões, barcos, algas, corais e sentimentos de açúcar a sancionar, irreverentes juízes, o mérito de um grito, uma espada de fogo, um beijo de soldado, um tiro e um risco: o suicídio iminente da palavra.

    Os poetas raramente são jovens: a juventude é um verso apenas conjugável no futuro. E o fim do presente, inexplicável conflito entre substantivos e adjectivações, vive dos exércitos de caracteres que assaltam os castelos da linguagem, independentemente dos idiomas onde a opressão da escrita se refugia e circunscreve.

    A poesia amanhece nos nossos sonhos. A pátria das palavras é a imaginação, que nasce, vive e morre numa ideia à beira do abismo, um avião a desafiar os radares, uma cimitarra em Lisboa, um cheiro a canela em riste no Oriente, um verso inimigo à esquina da rua, uma bandarilha esperada: também as mulheres sofrem a amargura das palavras.

    Os poetas medem-se pela fantasia. Alimentam-se do devaneio, ficção e ritos. Têm fome de estrelas e exprimem-se pela audácia do medo: o incontornável suicídio da linguagem. A ferramenta da poesia é de alta tecnologia: anos de treino, noite de punhais.

    E vive de sonho, do vício da linguagem, do veneno das letras, do azul do ritmo, da fome dos dias, do cio, da fé sem lógica.

    Conheci poetas que jamais acertaram um verso no alvo. Eram rápidos, fugazes, constantes. Mas inúteis. Os vates verdadeiros são os que matam poemas à nascence por incontrolável insatisfação com o texto.

    Alguns soletram versos lógicos apenas para satisfazer apetites imediatos literários imediatos, na voraz insegurança dos pássaros, o azul do céu por mote, a mãe, o pai, a namorada em pensamentos.

    Os poetas esculpem os sentimentos com ferramenta apropriada, na aventura da escrita. Matam os defeitos prematuros da linguagem, amputam as estrofes libertinas, libertam o fogo da poesia espontânea e mastigam com apetite voraz as ideias com sentido, a poesia comestível, os versos líquidos. E até, por vezes, a sobremesa da rima.

    Usam espadas de fogo.

    Matam a tristeza com trovas.

    Comem ideias.

    Estrangulam ais.

    O cinzel fingido do verso.

    A cor da vida.

    A dor.

    A poesia é um mel que se come directamente da colmeia: as abelhas da escrita não têm pátria, nem se zangam com a ideia mestra do tema. Prevalece a vingança, o grito, o fel da linguagem que se suicida com vogais abertas no território adverso dos ditongos nasais, guerreiros da escrita. (CULTURA-Jornal angolano de Artes & Letras-edição 36-Agosto 2013)

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