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Institutos médios de saúde de Luanda “obrigam” alunos a pagar os estágios

Ausência de aulas práticas, incapacidade dos professores, exigência de pagamento para os estágios, esta é a realidade dos institutos médios de Saúde em Luanda, de onde saem parte dos profissionais que trabalham nos hospitais da capital. Uma realidade que assusta e que o Expansão foi conhecer.

Em Luanda, na actual conjuntura, os técnicos de saúde são formados ao nível médio em Institutos Médios de Saúde e Escolas Privados de Saúde que ficam, no início do ano lectivo, totalmente abarrotados de pessoas que procuram dar início a formação de sonho. Luanda tem apenas três IMS e várias Escolas Privados de Saúde, mas que não correspondem à procura que cresce ano após ano.

Segundo uma fonte da Direcção Nacional de Saúde, os Institutos Médios Públicos são administrados pelo Governo provincial, e os privados dependem também do Governo provincial, pelo menos para avaliar se estão ou não em condições para dar início da actividade. Tal processo não conta em nenhum momento com a colaboração ou fiscalização do Ministério da Saúde, o que faz com que muitos desses institutos, quer públicos ou privados, não tenham as condições exigíveis para a ministração de matérias que constam do plano curricular da referida área, como nos contam vários alunos entrevistados pelo Expansão, que nestes últimos anos têm sido também obrigados a pagar para a realização de estágios profissionais.

Maria de Lurdes de 18 anos de idade é filha de um enfermeiro do Hospital Militar há 30 anos e de uma desempregada há quase 19 anos, que desde muito nova sonhou em ser uma médica-cirurgiã. Fez o ensino primário e o de base numa escola católica no bairro Camama onde vive, e depois de ter obtido a média de 17 valores foi admitida, sem sobressaltos, no curso de Análises Clínicas, no Instituto Médio de Saúde (IMIS) do Kilamba.

Maria de Lurdes contou à nossa reportagem que desde a primeira vez que pisou na escola o que mais ansiava eram as aulas práticas, seguidas de estágios, e sempre que estivesse num hospital ficava atenta à performance dos estagiários, percebendo as muitas “falhas” que apresentavam.

Alunos pagam os estágios

Depois de concluído o primeiro ano, recebeu dos seus colegas mais antigos da instituição aquela que para ela foi uma das piores notícias que já ouviu: “A instituição não tem condições para dar as aulas praticas e nem tão pouco para pôr os alunos a estagiar.”

“Estou no último ano do ensino médio mas mesmo antes de entrar sempre gostei de pesquisar, por influência do meu pai. Estava ansiosa para começar as aulas práticas o que devia acontecer no segundo ano do curso. Eu e mais alguns colegas entrámos em pânico quando recebemos a notícia que não seria possível fazer o estágio, procuramos falar com algumas pessoas, e felizmente a mãe de uma colega conhecia o director de um posto médico com quem conversou, onde ficou acordado que cada colega que quisesse fazer o estágio teria de pagar 40 mil Kz. Só sete colegas conseguiram pagar e estão a fazer o estágio num hospital” explicou a estudante.

Fátima Ndongo estuda enfermagem num outro Instituto Público aqui em Luanda, e conta que foi o coordenador de turma que fez a campanha dentro da sala afirmando que os alunos teriam de pagar pelo menos 70 mil Kz para realizar o estágio num dos hospitais públicos. Referir que, os alunos que não tiverem a possibilidade de pagar o estágio aprovam apenas com as médias que obtêm com as provas escritas.

“Diga-se que ninguém reprova por não fazer o estágio ou por não ter as aulas práticas, mas nós pagámos os 70 mil Kz. Segundo o que nos disseram, 2 mil Kz funciona como pagamento da inscrição que é feita no centro médico de um bairro, eu estou a fazer o estágio no bairro golfe 2. Depois pagamos mais 28 mil Kz que é para o estágio neste centro que dura um mês, e mais tarde temos de dar ao professor mais 40 mil Kz para entrar em contacto com o director de um outro hospital público que assina dos documentos e permite o início do estágio. Essa é a explicação que eles nos dão na sala.”, explica, acrescentando: “Eu penso que como não temos aulas práticas, o centro médico serve de aprendizagem para não assustarmos com o movimento de um hospital público. No fundo eu também não entendo, só paguei porque precisava de fazer”.

Segundo o que Expansão apurou são poucos os alunos dos Institutos de Saúde Públicos que conseguem fazer o estágio, há salas que com mais de 70 alunos apenas 10 conseguem por falta de possibilidades financeiras.

Estágio obrigatório nos privados

Ao contrário, nos institutos privados o valor do pagamento para o estágio é obrigatório, sob pena de não poder fazer a reconfirmação da matrícula para o ano seguinte, caso não se pague.

Maria Luísa tem 19 anos e nunca pensou em estudar enfermagem mas, foi obrigada pela mãe que achou ser a melhor opcção para a filha. Hoje está no segundo ano do curso de estomatologia, mas não pensa em mais nada se não em trocar de curso.

“Tivemos de pagar 25 mil Kz no acto da reconfirmação das matrículas essa é a única condição para a inscrição no segundo ano do curso. Os estágios começam no segundo trimestre do ano e normalmente são feitos no hospital Josina Marchel (Maria Pia), Hospital Geral de Luanda, Américo Boa Vida, mas também tenho colegas que fazem em alguns Centros de Saúde localizados dentro de alguns bairros. Depois de aprovarmos para o terceiro ano, a prática é a mesma. Eu não gosto muito da forma com as coisas acontecem aqui no nosso curso, acho que como vamos lidar com o bem mais precioso, a vida, o processo tinha de ser feito de forma mais séria” acrescenta.

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