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O Primeiro KO de João Lourenço – Mihaela Webba

Num tom pouco simpático, quiçá violento e inapropriado para o jogo democrático, o Presidente João Lourenço prometeu no mês passado dar à UNITA, nas próximas eleições, um KO tão forte que ela não será mais capaz de se levantar.

Primeiro, importa referir que KO é a abreviatura da palavra inglesa knock out, utilizada comumente no contexto de lutas violentas. Em português, escreve-se “nocaute”. Nocaute ou KO, é a derrota do adversário de modo que não consiga continuar a luta e voltar para a competição.

Em Outubro de 2019, Patrick Day, um pugilista norte-americano, entrou em coma, depois de ter sofrido um KO de Charles Conwell, no 10.º assalto no combate entre ambos. O atleta já tinha ido duas vezes ao tapete, antes de sofrer o KO que o deixou inconsciente. Tiveram de lhe fazer uma intervenção cirúrgica ao cérebro, e depois foi levado aos cuidados intensivos, já em estado de coma.

Em política, não se deseja KO ao nosso adversário político, porque é muito violento e a democracia não é o regime da violência. É o regime de debate de ideias, com civilidade e respeito mútuo. Aliás, bem diz o ditado: “não faças ou desejes aos outros aquilo que não queres que te façam a ti”. Foi o que aconteceu nos últimos dias com o Presidente João Lourenço. Desejou um KO para a UNITA, e acabou por receber um KO dos filhos maiores do seu Presidente Emérito, José Eduardo dos Santos.

José Eduardo dos Santos está em morte cerebral, em Barcelona. Isto significa que, JES perdeu irreversivelmente todas as funções do cérebro, incluindo o tronco cerebral, que é a região responsável por controlar a respiração, os batimentos cardíacos e a pressão arterial, além dos movimentos e audição. As funções vitais da pessoa em morte cerebral podem ser mantidas no hospital com ajuda de aparelhos, mas a pessoa é considerada legalmente e clinicamente morta, pois não existe chance de recuperação. Apesar de ser uma situação difícil e delicada para os familiares, é nesse momento que se pode fazer a doação de órgãos, se for possível.

Todavia, há relatos de pessoas que se recuperam da “morte cerebral”. Em Setembro de 2021, na Inglaterra, Lewis Roberts, um jovem de 18 anos, voltou a falar seis meses após ter sido diagnosticado com morte cerebral, na Inglaterra. Lewis, que mora na cidade de Leek, no condado de Staffordshire, foi atropelado por uma (van) viatura, no dia 13 de Março do ano passado, o que resultou em graves ferimentos na cabeça. Lewis foi levado às pressas para o Hospital da Universidade Royal Stoke, onde médicos disseram que ele havia sofrido morte cerebral. Na Inglaterra, quando alguém é diagnosticado com morte cerebral, o dano é considerado irreversível e a morte é legalmente confirmada, de acordo com o NHS (National Health Service) – Serviço Nacional de Saúde, traduzindo para o Português.

A família do jovem foi orientada a se despedir e decidiu doar os seus órgãos para ajudar outras sete pessoas, o que lhe deu mais tempo ligado aos equipamentos de suporte de vida. Porém, poucas horas antes da cirurgia, em 18 de Março, o adolescente abriu os olhos e começou a respirar sem o auxílio dos aparelhos. Ele então permaneceu internado, com o seu estado ainda considerado grave, mas, seis meses depois, ele conseguiu falar pela primeira vez desde o acidente. Disse: “Mãe, eu te amo. Você é a melhor mãe…

Os detalhes deste caso estão em
https://noticias.uol.com.br/…/eu-te-amo-mae-jovem-volta….

Também em 2013, no Brasil, Nayara Cristina Patracão, uma manicure de 24 anos, respondeu a estímulos de dor, três dias depois de diagnosticada com morte cerebral por três médicos do hospital onde estava internada. Dois outros médicos fizeram uma nova cirurgia e voltaram com um diagnóstico diferente, “inchaço do cérebro”, facto que afastou por completo a morte cerebral. A decisão de pedir uma nova avaliação veio depois que a doente apresentou algum reflexo, mesmo entubada.

“Minha sobrinha entrou e falou que ela soltou uma lágrima”, contou a mãe da manicure, Lucimara Francischini. Emocionada, ela comentou o novo resultado: “Quem trouxe ela de volta foi Deus”, disse. “Ele (o segundo médico) explicou que o quadro de morte cerebral foi constatado quando o cérebro estava muito inchado. Realmente, não havia estímulo algum no início. Mas agora, com o desinchaço, começou a reagir, mesmo que de forma tímida”, completou.

Qual é então a relação entre o estado de saúde do Presidente JES e o KO prometido pelo Presidente JLo à UNITA? A relação está na derrota que JLo sofreu na gestão política que fez do caso. O facto de a vontade da Cidade Alta não ter prevalecido em Barcelona, constitui certamente uma derrota política para quem pretendia tirar vantagens políticas ou eleitorais da doença de seu antecessor.

Diz-se nos corredores do poder que a ex-Primeira dama, Dra. Ana Paula dos Santos, separada de facto de seu marido há mais de quatro anos, fora despachada para Barcelona pela Cidade Alta para, na qualidade de esposa, facilitar a gestão dos dias finais de JES pela Cidade Alta, em detrimento das filhas, ora desavindas com o actual inquilino da Cidade Alta.

Também foi tornado público que, à boa maneira do MPLA, a declaração que surgiu na imprensa, pretensamente assinada por JES, afirmando que o médico angolano João Afonso, despachado para Barcelona pela Cidade Alta sem o conhecimento prévio das filhas, era uma declaração FALSA, portanto, (mais) uma fraude, forjada no quadro da estratégia de retirar às filhas o poder de decisão sobre a gestão dos dias finais do pai.

Estava agendada para ontem, Quarta-feira, uma reunião entre a família e a equipa médica de JES para decidir se desligavam ou não as máquinas que mantinham e mantêm JES artificialmente vivo. Ana Paula dos Santos mostrou-se a favor de desligar as máquinas, enquanto os filhos mostraram-se contra. Segundo a imprensa, as filhas de JES mostraram-se verdadeiras filhas, que amam o seu pai. Enfrentaram a máquina do Estado e venceram a primeira ronda.

A advogada dos filhos, Carmen Varela, tomou a palavra e dirigiu-se ao comitê de especialistas médicos, afirmando que as filhas Isabel e Tchizé dos Santos são as representantes legais do pai e não permitem que se desliguem as máquinas. Numa gravação tornada pública, Carmen Varela diz ainda que as filhas se recusam a que as máquinas sejam desligadas, por entenderem que esse procedimento, assim como o coma induzido, “pode ser provocado por um possível delito”.

De facto, para confirmar a morte cerebral, os médicos devem realizar uma série de exames e verificações para garantir que os sintomas não sejam causados por outros factores como overdose de drogas, venenos ou medicamentos, hipotermia, hipotireoidismo, encefalite do tronco cerebral, encefalopatia causada por insuficiência hepática ou síndrome de Guillain-Barré, por exemplo.

“Quem aqui pode decidir são as filhas, que representamos, e que não querem desligar as máquinas do pai”, vincou a advogada, salientando que vai pedir análises sobre “possíveis envenenamentos”, também para averiguar os 15 minutos que decorreram entre a queda que José Eduardo dos Santos terá dado e o pedido de socorro à polícia. E prosseguiu:
“Estamos a falar de um ex-chefe de governo de um Governo corrupto e de um tema muito delicado”, sublinhou Cármen Varela, adiantando que vai pedir autorização judicial para que não entrem no quarto nem o médico, “que parece ser enviado pelo Presidente de Angola, nem a que dizem ser sua esposa, e que não é”, mas apenas a filha maior (Isabel) e Tchizé dos Santos, quem legalmente o representa.

E, assim, a quarta-feira passou e as máquinas não foram desligadas. Ao mesmo tempo, o Governo mudou o discurso. O ministro das Relações Exteriores afastou a possibilidade de o Governo decidir sobre o tratamento médico do antigo Presidente José Eduardo dos Santos, vincando que “a decisão é geralmente da família”.

Este foi o primeiro KO que o Presidente João Lourenço terá sofrido na sua “luta pessoal” pelo aproveitamento político-eleitoral da doença de seu antecessor no contexto da sua luta selectiva contra a corrupção, que, como é consabido, envolve marcadamente a cidadã Isabel dos Santos, primogênita de JES, Presidente emérito do MPLA.

Para nós, cidadãos preocupados com a paz política entre os angolanos e com a imagem de Angola, foi bom ouvir o ministro afirmar publicamente que “o Governo vai continuar, como sempre fez no passado, a assumir as suas responsabilidades, incluindo no que diz respeito aos custos da hospitalização do paciente, foi essa responsabilidade que fez com que o PR nos mandatasse para vir aqui, in loco, falar e inteirarmo-nos do estado de saúde do paciente e assim continuará a ser, porque trata-se de um antigo Presidente, e isso significa que o governo da República de Angola tem responsabilidades acrescidas quando se trata de situações deste género, e vamos continuar a assumir essas responsabilidades”.

Infelizmente, tal como sucedeu com Agostinho Neto (1979), Mário Pinto de Andrade (1990), Daniel Júlio Chipenda (1996) e Gentil Viana (2008), tudo indica que também José Eduardo dos Santos irá falecer no estrangeiro sem estar em paz política com os seus camaradas. Com excepção de Neto, a morte dos demais aconteceu em meio de polémicas desavenças políticas com o Presidente do MPLA em funções.

Angola precisa de paz política e de respeito na diferença! Angola não precisa de KOś entre irmãos. Que este KO sirva de lição para não voltarmos a utilizar o termo no debate político!

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