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O que é que o novo governo alemão representa para a União Europeia?

Ao fim de 16 anos aos comandos do futuro da Alemanha, Angela Merkel deixará de ser chanceler esta quarta-feira. Deixa o lugar à disposição de Olaf Scholz, o quarto líder socialista na história pós-guerra do país.

Sob a batuta do social-democrata Scholz, o novo governo de coligação resulta de uma aliança entre os verdes, o partido liberal democrático (FDP) e o partido social-democrata (SPD).

É a primeira vez que uma “coligação semáforo” – assim designada por causa das cores dos três partidos (o vermelho do SPD, o amarelo do FDP e o verde) – vai governar o país.

Com o fim da era Merkel, o chanceler social-democrata e os aliados de coligação têm grandes desafios pela frente.

Neste momento, há muitas interrogações sobre até que ponto se verificará uma mudança de abordagem da Alemanha em relação às principais questões europeias.

No acordo de coligação firmado na terça-feira, os partidos falam numa “responsabilidade especial” para servir a Europa, mas ainda está por perceber de que forma é que o continente será servido de modo tão especial.

Entre os principais europeus que podem ser afetados pelo novo governo alemão estão:

China e direitos humanos

Não há como negar que, a cada ano que passa, a ascensão da China está a começar a moldar cada vez mais a agenda da política externa de Bruxelas, à medida que as atenções se voltam lentamente para o leste.

A abordagem europeia de Merkel em relação à China foi geralmente pontuada pelo interesse próprio alemão. No entanto, isso pode mudar nos próximos anos.

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, descreveu recentemente Pequim como “um concorrente económico e um rival sistémico”, mas também “um parceiro necessário para enfrentar os desafios do século XXI.” Uma relação difícil de gerir.

A este propósito, as visões de Berlim e de Bruxelas estão alinhadas, com o acordo de coligação a dizer que as relações da Alemanha com a China devem ser baseadas em “parceria, concorrência e rivalidade sistémica.”

Mas não é assim tão simples, de acordo com o investigador Markus Ziener, bolseiro do think tank German Marshall Fund (GMF).

“A China é provavelmente uma das principais linhas de conflito no seio do novo governo porque a Alemanha é um país que exporta e importa muito [para a China] e a relação com a China é essencial para a economia. Do ponto de vista económico, o afastamento da China seria muito mau para a economia,” sublinhou Ziener à Euronews.

“Pense na Volkswagen, o maior fabricante de automóveis da Alemanha, a vender basicamente todos os outros carros para a China ou produzindo-os na China. [Estão em causa] empregos, empregos que podem estar em perigo na Alemanha se reduzirmos o nosso comércio”, acrescentou.

Ziener ressalvou que esse é o lado económico, mas que o lado político pode revelar ainda mais tensão.

“Se falarmos de política, penso que veremos uma mudança porque a nova ministra dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Annalena Baerbock, dos verdes, quer seguir a via da diplomacia baseada em valores, o que significa que está a dar mais ênfase aos direitos humanos e a fortalecer as forças da democracia”, lembrou o investigador do GMF.

“Por isso, se olharmos para a China, bem como para a Rússia, veremos pelo menos uma pequena mudança. A mudança [para a Europa] depende se o chanceler, Olaf Scholz, vai manter esses dois dossiers por perto ou se vai, por assim dizer, dar margem de manobra à nova ministra dos Negócios Estrangeiros.”

O acordo de investimento da União Europeia (UE) com Pequim, defendido por Merkel, está atualmente suspenso por causa das sanções chinesas contra eurodeputados e outros críticos do histórico de direitos humanos do país, incluindo a província de Xinjiang.

Os parceiros de coligação na Alemanha concordam que, da forma como as coisas estão, o acordo não pode ser ratificado, deixando uma nuvem de incerteza a pairar sobre as relações UE-China.

Rússia, Ucrânia e Nord Stream 2

O que fazer em relação à Rússia, o espinho de longa data no lado da UE?

Há várias questões que continuam por resolver com Moscovo e o presidente Vladimir Putin, mas o problema mais atual encontra-se na fronteira da Rússia com a Ucrânia.

O reforço de tropas por parte de Moscovo na zona de fronteira provocou um aumento da tensão e colocou a Ucrânia e a Rússia em pé-de-guerra.

O partido social-democrata alemão (SPD) tem adotado, geralmente, uma linha mais branda em relação à Rússia, mas Markus Ziener referiu que qualquer incursão de Moscovo em território ucraniano seria impossível de ignorar.

“O partido verde apoia muito a Ucrânia. Por isso, se realmente virmos uma ação militar a acontecer nas próximas semanas ou meses, tenho a certeza de que haverá uma linha mais dura em relação à Rússia,” disse o investigador.

“Não importa se os sociais-democratas são mais brandos com a Rússia. Penso que, neste caso, não há outra maneira a não ser ter uma linha mais dura no que diz respeito a sanções”, acrescentou.

O gasoduto Nord Stream 2, destinado a transportar gás natural da Rússia para a Alemanha, é outra questão espinhosa com que o governo de Scholz terá de lidar.

A Europa quer libertar-se dos combustíveis fósseis, especialmente vindos de fora do continente e ainda mais de países como a Rússia. Mas há quem argumente que o projeto possa ser usado por Putin contra a UE.

Atualmente, falta a certificação dos reguladores alemães, mas qualquer decisão do novo governo alemão será difícil.

“O Nord Stream 2 é definitivamente essencial para a Alemanha porque a Alemanha está a eliminar o carvão e, ao mesmo tempo, a energia nuclear, o que significa basicamente que temos de preencher a lacuna de energia que existe. Temos de importar gás de outros lugares. Por isso, o Nord Stream 2 é essencial [para o país],” ressalvou Ziener.

“Por outro lado, é definitivamente uma questão política, e os verdes e grande parte dos liberais não estão felizes com isso. Os social-democratas são tradicionalmente mais inclinados para uma linha mais branda quando se trata da Rússia. Por isto, esta é provavelmente uma matéria em que precisarão encontrar um acordo, o que pode não ser fácil”, acrescentou.

Estado de Direito
Os principais infratores do Estado de Direito na UE, a Hungria e a Polónia, podem passar por alguns anos ainda mais difíceis se as palavras do novo governo alemão passarem à prática.

Depois de vários anos de retrocesso democrático em Budapeste e Varsóvia, Berlim está preparada para uma resposta contundente.

“Instamos a Comissão Europeia a usar os instrumentos do Estado de Direito existentes de forma mais consistente e oportuna”, sublinha o acordo de coligação.

Os críticos argumentam que se permitiu que a Hungria e a Polónia destruíssem padrões democráticos, contornando os chamados valores europeus.

Mas isso pode mudar em breve, de acordo com Amandine Crespy, professora de Ciência Política na Universidade Livre de Bruxelas.

“O novo governo parece querer uma posição mais dura em relação à Polónia e à Hungria”, disse, em entrevista à Euronews.

“Talvez tenhamos de ver se todos os líderes europeus serão capazes de formar uma espécie de frente única e de ver o que acontece”, acrescentou.

Uma Europa ainda mais verde?
Com o pacote legislativo “Fit for 55” a avançar algumas das políticas ambientais mais ambiciosas, será que Bruxelas poderá ir ainda mais longe em matéria climática com os verdes alemães no poder?

É uma pergunta que muitos europeus com consciência ambiental colocarão, numa altura em governo de Scholz assumir o controlo.

Os parceiros de coligação disseram que se esforçarão para parar de queimar carvão até 2030.

Mas com a oposição verde à energia nuclear e ao gás como fonte de energia para preencher a lacuna na transição para as energias renováveis, adivinha-se uma grande batalha entre dois dos maiores Estados-membros.

“Vejo um confronto potencial com França sobre a questão da energia nuclear e sobre se a energia nuclear deve ser incluída na taxonomia europeia – a categorização europeia das fontes de energia verdes”, disse Crespy.

“França e a Alemanha fizeram duas mudanças completamente opostas. A Alemanha confirmou a decisão de abandonar a energia nuclear, enquanto o presidente francês, pelo contrário, lançou um plano muito amplo para acelerar A energia nuclear em França,” acrescentou.

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