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Variante Omicron expõe “preconceito viral” com a África e países subdesenvolvidos

Desde a divulgação da variante Omicron do Coronavírus pelas autoridades sul-africanas na quarta-feira passada (24), quase todos os países da Europa, América e Ásia fecharam as portas para passageiros da África do Sul e países vizinhos, como Botsuana e Namíbia. Para especialistas, a velocidade e gravidade com que as barreiras foram impostas revelam uma forma de “racismo viral” que acaba apenas penalizando a população do continente africano.

“Na prática o que estes países, incluindo o Brasil, estão fazendo é aplicar uma dupla punição a estes países; primeiro você pune com a falta de envio de vacinas, o que facilita a transmissão do vírus e logo a geração de variantes; para então fechar as fronteiras quando uma nova variante surge; chega a ser cruel”, comenta Raquel Stucchi, professora de infectologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Ela ressalta ainda a diferença do tratamento dado pelo Brasil aos países europeus e africanos.

“O fechamento do país para voos vindos da Itália lá no começo da pandemia, ou mesmo da Inglaterra por causa da variante Alfa foi muito mais vagaroso, apesar de serem vírus já espalhados pelo mundo todo e de virulência comprovada”.

Desde o dia 29 de novembro o Brasil não aceita mais voos vindos de seis países do sul da África. De lá para cá, no entanto, a variante, que acredita-se ser mais contagiosa devido suas mutações no ‘spike’ — parte do vírus responsável pelo encaixe nas células humanas e que é neutralizada pelos anticorpos — já se espalhou por pelo menos 30 países em todos os continentes. Neste meio tempo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) classificou a nova cepa como “risco global muito alto” e ressaltou as mutações, embora as incertezas superem as informações em relação ao quão contagiosa e perigosa seja a ômicron.

Para o pesquisador da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas (FMT) Marcus Guerra, a agência da ONU se precipita ao agir sem maiores dados e informações sobre o vírus. “Uma das coisas mais importante em uma pandemia é alertar, porém sem causar pânico na população, e o que ela vem fazendo é criar este medo no mundo inteiro, sem sequer realizar pesquisas sólidas sobre o nível de transmissão, nem ouvir os pesquisadores locais”, reclama o diretor-presidente da instituição. Para ele, se estas mesmas mutações no vírus houvessem surgido em outra região do globo, a reação seria diferente.

Também amazonense, o epidemiologista Jesem Orellana concorda com a existência de uma espécie de “racismo viral” nas respostas à nova variante no mundo. “Desde o início da pandemia temos visto a forma taxativa e preconceituosa que países membros da União Europeia ou da América do Norte tem se comportado em relação a países da Ásia e América Latina, mas também precisamos lembrar que a posição mesquinha desses mesmos países em relação à contenção da epidemia nessas regiões mais pobres acabou prolongando ainda mais a pandemia com o exemplo da desigual distribuição de vacinas”, afirma.

Desde a divulgação da variante Omicron do Coronavírus pelas autoridades sul-africanas na quarta-feira passada (24), quase todos os países da Europa, América e Ásia fecharam as portas para passageiros da África do Sul e países vizinhos, como Botsuana e Namíbia.
(Foto: Tafadzwa Ufumeli / Getty Images)

Má vontade
Enquanto parte dos países já vem aplicando massivamente doses de reforço das vacinas contra Covid-19 e até mesmo estocando imunizantes que agora correm o risco de perder a validade, grande parte da África vacinou menos de 5% de sua população, expondo o fracasso do consórcio Covaxin.

“Não há lateralismo; países como EUA, Canadá, Reino Unido, compraram até 4 vezes o número de doses para sua população, e não utilizam; países europeus possuem a Janssen, que seria ideal em países mais vulneráveis por exigir dose única, e não usam; estão abertos ao turismo da vacina enquanto os imunizantes irão vencer”, critica Alberto Chebabo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A África do Sul é um dos países da África que mais avançou nas campanhas e acumula atualmente 24% da população imunizada. Como comparação, 77% da população brasileira já recebeu ao menos uma dose. Chebabo destaca que mesmo com baixos níveis de vacinação, o continente africano apresenta hoje situação epidemiológica muito melhor que países como Holanda, EUA ou mesmo Israel, que há alguns meses avançou com sucesso na imunização.

“Hoje a Europa é epicentro da Covid-19 no mundo, e os EUA já apresenta transmissão comunitária da Omicron, mas é muito mais fácil isolar um país africano, menos poderoso e influente, do que estes”, avalia. A Alemanha e a Holanda hoje enfrentam o pico de contaminação por coronavírus desde o começo da pandemia, com média de 57.435 e 21.570 novos casos diários respectivamente. É como se o Brasil tivesse todos os dias 263.500 novos casos, quando comparamos com a Holanda. No pior momento de contágio, em 23 de Junho deste ano, o Brasil teve 115.000 novos casos da doença.

Os números expõem o que ele classifica como má vontade com variantes surgidas fora dos centros de poder e desrespeito ao Regulamento Sanitário Internacional, ratificado pela própria OMS. Ainda em 2020 a revista científica Lancet publicou um estudo mostrando as violações ao organismo, entre elas o bloqueio de determinados países. “Rasgaram o regulamento lá atrás e voltaram a rasgar ao rejeitar a entrada de pessoas imunizadas com vacinas aprovadas pela OMS, como a Coronavac; e agora voltam a fazê-lo, com a omissão da organização, e deixando brasileiros presos lá sem conseguir voltar para casa”, afirma.

Pesquisadora do Hospital das Clínicas e do Instituto de Medicina Tropical, ambos da USP, Camila Romano observa um lado positivo no surgimento de uma variante entre uma população pouco imunizada. “Iaao significa que o vírus não teve de superar organismos com anticorpos especializados nele, ou seja, não evoluiu para superar a vacinação; logo, é muito provável que não escape das vacinas hoje utilizadas”. Dados preliminares afirmam que a vacina da Pfizer/BionTech tem 90% de eficácia contra a Omicron.

Paraíso ou inferno
Com três casos confirmados e oito sob suspeita, o Brasil já está na lista de presença da Omicron, e para o infectologista pesquisador do hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, Paulo Gewehr Filho, é questão de tempo que ela se torne predominante no país. Na opinião de outros pesquisadores, as políticas de bloqueio internacional são ineficazes e servem apenas para satisfazer a ânsia da população.

“O que funciona mesmo é o que não está sendo feito: testar quem está aqui, monitorar a população, avançar ainda mais na vacinação e, sobretudo, manter o uso de máscaras – elas ainda são a única medida que dependem de si mesmo e garantem o bloqueio à transmissão”, aponta Romano. Para ela, o preconceito é ainda mais antigo que a Omicron. “Começou o título de vírus chinês, que fala tudo sobre o racismo e de fechamento de fronteiras; as medidas tomadas no Brasil e no exterior mostram uma falsa preocupação e motivação política”, diz.

O Brasil mantém, até a manhã desta sexta-feira (3), o bloqueio a voos vindos dos países africanos de acordo com a Portaria nº 660, de 27 de novembro de 2021. Entre as medidas tomadas pelo Ministério da Saúde, no entanto, não está a exigência de comprovante de vacinação de nenhum passageiro que embarca rumo ao país, em qualquer lugar do mundo.

“É um absurdo total; estamos nos tornando um paraíso para não-vacinados no mundo, colocando nossa população inteira em risco novamente; é mais um crime cometido contra a sociedade”, critica Raquel Stucchi, reiterando a importância das vacinas, independentemente do nível de eficácia.

“Sabemos que nenhuma delas impede totalmente a transmissão, mas já foi comprovado que todas elas diminuem a carga viral dos infectados e o tempo que estes podem passar adiante o vírus”, explica. Na Europa e Estados Unidos, onde os movimentos anti-vacinas são fortes e apartidários, não são raros os surtos de sarampo e poliomielite, por exemplo, doenças controladas no Brasil.

Desde o final de Novembro a Anvisa, autoridade máxima sanitária do país, vem recomendando ao governo federal que passe a exigir o comprovante de vacina contra Covid de todos que quiserem entrar no Brasil. Mas a Casa Civil já adiantou que, por enquanto, a atual norma sanitária continua valendo. Nos aeroportos, o viajante só precisa apresentar teste de PCR negativo. Nesta quinta-feira (2), foi a vez do TCU (Tribunal de Contas da União) recomendar a mesma medida. A reportagem do Yahoo! questionou o Ministério da Saúde sobre a falta da exigência de passaporte vacinal, feita em muitas partes do mundo, e sobre as medidas de bloqueio a voos vindos da África, mas não recebeu uma resposta.

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