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‘Lula está esplendoroso, mas Bolsonaro também está em boa forma’, diz presidente de Portugal

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de Portugal, está em um estado esplêndido. Nada todos os dias no mar gélido de Caxias, a 15 minutos de Lisboa. Com a calma de quem vai dissolver o Parlamento no início de dezembro, ele concedeu entrevista a correspondentes estrangeiros nesta terça (23).

Mesmo dizendo que o negacionismo é residual no país e que toda população portuguesa deve ser vacinada com a dose de reforço, ele contou a história de uma de suas filhas, que não queria ser imunizada, até adoecer com COVID-19.

“Ela continuou a ser budista, mas não é mais negacionista”, ironizou o pai e presidente, que é chamado pelos portugueses pelo seu primeiro nome.

Bem-humorado e com a fina ironia machadiana, Marcelo fez algumas piadas. Nenhuma homofóbica, tampouco racista. Ele é um estadista e não nega que haja racismo em Portugal. Falou, inclusive, da responsabilidade histórica sobre a escravidão e o colonialismo.

Também reagiu com naturalidade à pergunta da presidente da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal (AIEP), quando Giuliana Miranda o questionou se Portugal estaria preparado para ter um primeiro-ministro homossexual, em referência a Paulo Rangel, que deve se candidatar ao cargo, em 2023, pelo Partido Social Democrata (PSD), o mesmo do presidente.

Marcelo é de um partido de direita e é também a favor dos direitos humanos. Quando entrou no salão do restaurante do Hotel Dom Pedro em Lisboa, propôs um brinde aos correspondentes estrangeiros. O presidente se mostrou a favor da liberdade de imprensa e deixou no ar que muitos políticos extremistas, à direita e à esquerda, são contra.

Em saudável provocação aos jornalistas brasileiros presentes, ele perguntou quem vai ganhar as eleições presidenciais no Brasil em 2022. Ao ser indagado com provocações similares pelo correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa, pouco antes de ser servido o jantar a convite da AIEP, Marcelo riu-se, foi diplomático e não quis comparar o discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Parlamento Europeu, com o comportamento de Jair Bolsonaro na cúpula do G20 e na Organização das Nações Unidas.

“Comparar os discursos do presidente Bolsonaro e do antigo presidente Lula sobre Europa e o mundo era, no fundo, eu já formar um juízo valorativo comparando os dois. Uma coisa é dizer o que acho do presidente Lula, pois nunca havia estado presencialmente com ele, mas o achei em grande forma, esplendorosa. Mas também devo dizer que o presidente Bolsonaro, que conheço um pouco melhor, também está em boa forma. Tudo o que seja fazer comparações e juízo de conteúdo é estar a pronunciar-me sobre a eleição brasileira, que não contribui para uma relação muito amistosa no ano do bicentenário [da Independência do Brasil]”, justificou.

Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, durante visita oficial do líder português ao Brasil, São Paulo, 30 de julho de 2021.
(© AP Photo / Marcelo Chello)

Marcelo Rebelo de Sousa deve viajar 2 vezes ao Brasil em 2022
O mandatário português deve viajar ao Brasil pelo menos duas vezes em 2022: a primeira, em julho; e a segunda, em setembro, para as comemorações dos 200 anos da Independência. Bolsonaro ainda não visitou Portugal desde que assumiu a presidência.

No início de agosto, Marcelo esteve em São Paulo para a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa. Lá, ele se reuniu com os ex-presidentes Lula, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Bolsonaro não compareceu ao evento por se tratar de um museu administrado pelo governo estadual de João Doria, que concorre às prévias no PSDB para disputar as eleições presidenciais em 2022.

Presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, ao lado de ex-presidentes do Brasil Michel Temer e Fernando Henrique Cardoso na reinauguração do Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, 31 de julho de 2021.
(© AP Photo / Marcelo Chello)

A ausência causou uma das saias-justas na visita de Marcelo ao Brasil. Outra delas foi quando Bolsonaro recebeu, sem máscara, o presidente português, em Brasília, junto com sua comitiva, todos de máscaras.

Questionado pela Sputnik Brasil se a candidatura à presidência do ex-juiz Sergio Moro confirmaria que havia um projeto político por trás da Operação Lava Jato, Marcelo saiu novamente pela tangente. Mas deixou claro que será importante para o candidato tentar atrair parte do eleitorado evangélico, que considera de muito peso no Brasil.

“Não conheço o Moro. O que sei [sobre a Lava Jato] é o que qualquer cidadão bem informado sabe. E eu sei que os temas judiciais têm uma densidade muito forte, dos pontos de vista político, racional e emocional. Portanto, a grande incógnita é saber como o eleitorado reage perante alguém protagonista nessas temáticas. Adesão massiva ou considerar que é uma realidade que não é decisiva em termos eleitorais? Essa é a incógnita”, apontou.

Quando questionado pela Sputnik Brasil se o semipresidencialismo seria aplicável e daria certo no Brasil, o ex-comentarista político aflorou com mais naturalidade. Apesar de não dar uma resposta objetiva, Marcelo condicionou o sucesso do sistema de governo a duas hipóteses.

Marcelo Rebelo de Sousa, presidente do Portugal, cumprimenta Jair Bolsonaro, em visita ao Brasil, em 2 de Agosto de 2021.
(Foto de arquivo
© AFP 2021 / MARCOS CORREA)

Semipresidencialismo exige poucos partidos, segundo presidente
A primeira é a de haver poucos partidos políticos, realidade muito longe da brasileira, com 33 registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já a segunda condição apontada por ele é ainda mais distante: ser um país em que não haja muitas disparidades socioeconômicas.

“Para ser um semipresidencialismo equilibrado, é preciso uma certa homogeneidade socioeconômica e geopolítica. Não pode haver clivagens drásticas. Coabitamos com o governo de esquerda, [e estamos] indo para 6 anos [de governo]. Exige da parte do presidente, do primeiro-ministro e do governo uma gestão particularmente trabalhosa”, explicou.

A ideia de implantar, no Brasil, um semipresidencialismo à portuguesa foi levantada por Temer e defendida por Gilmar Mendes e Dias Toffoli, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), durante o IX Fórum Jurídico de Lisboa, organizado por Mendes. Em entrevista à Sputnik Brasil, Temer disse que conversou com Marcelo sobre o tema.

O mandatário português ressaltou que se trata de “um produto essencialmente europeu”, com diferentes nuances: a francesa, presidencial; a finlandesa, parlamentar; e a portuguesa, equilibrada.

“No Brasil, há professores de Direito que gostam muito da ideia do semipresidencialismo. O presidente, ou melhor, o professor Michel Temer, que tem uma formação muito boa constitucionalista, gosta da ideia. Acho que é uma escolha que só os brasileiros podem fazer”, ponderou.

Após pedir mais um bolinho morno de maçã e mirtilos na sobremesa, Marcelo foi ponderado até falando de futebol. Otimista, acredita na classificação de Portugal para a Copa do Mundo de 2022, mesmo após a derrota para a Sérvia, de virada, por 2 a 1, em Lisboa. Agora, a seleção liderada por Cristiano Ronaldo terá que disputar a repescagem para garantir uma vaga no Qatar.

Adepto das máscaras protetoras contra o novo coronavírus e torcedor do Braga, time do Norte de Portugal, Marcelo foi presenteado pela Sputnik Brasil com uma máscara do Belenenses, equipe da capital que tem uma cruz similar à do Clube de Regatas Vasco da Gama.

Questionado sobre qual é o seu time no Brasil, ele adotou o mesmo discurso da final da Taça de Portugal, entre o Braga e Benfica, quando disse que, por ser presidente da República, tinha que esquecer que era torcedor bracarense. Mas, sem perder a esportiva nem vestir camisas de vários clubes.

“Agora, que sou presidente, não posso ter escolha, mas, antes, meu time no Rio era o Vasco”, revelou.

FonteSputnik

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