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A minha impugnação – Alcibiades Kopumi

Depois de fracassada a tentativa de implodir a UNITA, através do famigerado Comité Renovador da UNITA-CRU, ou simplesmente Unita renovada, liderado por Eugénio Ngolo Manuvakola, surgido ainda no tempo de guerra, ao longo das duas duas últimas décadas, a UNITA vem enfrentando ataques ferozes e tem travado várias batalhas, muitas vezes silenciosas, mas todas elas de vida ou morte.

A reafirmação da sua identidade político-ideológica, lema que presidiu o seu X-° Congresso Ordinário, que teve lugar em Luanda, no ano de 2007, enquadrou-se nessa luta audaz e vital pela sua preservação.

Com efeito, é sobejamente sabido que acabar com a UNITA sempre foi e continua a ser o elemento nuclear da estratégia do MPLA que, não olhando para os meios, com recursos do Estado, através de aliciamentos, ameaças e chantagens, há décadas logrou estabelecer e manter bases ao nível do topo da hierarquia do Partido.

Por sua vez, estas bases feitas receptáculos internos daquela ignóbil estratégia se constituíram numa corrente revisionista defensora da tese da refundação da UNITA e do banimento da memória do seu Presidente Fundador.

No pós-guerra, das várias as manifestações subversivas, umas mais veladas que as outras, pode-se identificar como o apogeu a recente proclamação da dita Frente Patriótica Unida – FPU, cujos alicerces foram lançados pela Unita renovada e reforçados em 2011, com o surgimento do malfadado grupo de reflexão (anunciado pelo desconhecido e tão depressa desaparecido empresário Alberto Katenge), encabeçado pelos Dr. Abel Chivukuvuku e pelo Gen. Paulo Lukamba Gato, que o assumiram num acto público tido no Hotel Fórum, do qual também participaram os históricos Generais José Samuel Chiwale e Abraão Vituzi Lumai.

Um ano antes, em 2010, grandes manobras internas já tinham sido feitas pela mesma corrente com o objetivo de manter o controle sobre as organizações de massas do Partido (a JURA e a LIMA, que realizariam os seus os seus respectivos Congressos), de modo a facilitar a captura e descaracterização da UNITA na senda da tese da refundação.

Na JURA, por exemplo, a manobra consistiu em colocar à sua testa um jovem fraco, sem experiência nem percurso político, um autêntico desconhecedor das várias realidades e da história do Partido para o tornar numa marionete.

O jovem escolhido e apadrinhado, para o feito, por aquela corrente foi o Nfuka Nfuakaka Muzemba, que chegou mesmo a ser eleito ao cargo de Secretário Geral da JURA.

Uma nota:
Nesse Congresso, eu mesmo cheguei a engajar-me na disputa. Estava muito bem preparado, todavia, acabei por não ir à diante, porque depois de uma partilha de reflexões com o mano Emanuel Kapanda Samakuva Bianco e o meu irmão mais novo, o Adriano Abel Sapiñala (Didy), que também tinha as mesmas aspirações, desisti a favor deste, até porque, grosso modo, não só comungávamos da mesma visão de que o Partido estava sob um violento ataque que punha em causa a sua integridade, como também ambos tínhamos estabelecido como objectivo principal “Estancar os desvios político-ideológicos ao nível vida Direção do Partido”.

A isso, acrescia o facto de que teríamos de disputar a mesma base eleitoral, o que pelo número de concorrentes (teríamos sido 5), teria resultado numa dispersão de votos que ia se refletir de modo negativo, no score de cada um de nós em benefício da concorrência.

Decidi, então que o Didy avançasse, enquanto que eu o apoiaria, começando por assumir a Direção Geral da sua campanha. Foi uma decisão que tomei sem consultar a minha equipa, os meus conselheiros e os meus apoiantes que se sentiram traídos…

Apesar de ter reconhecido a falha e, consequentemente me ter retratado, até aos dias de hoje, volta e meia, alguns companheiros me repontam.

Voltando às patranhas, o primeiro passo para materializar aquela infame estratégia foi obrigar o Comité Nacional da JURA, (o órgão deliberativo reunido na sua última sessão antes do seu II-° Congresso Ordinário Congresso), a violar os Estatutos da organização, ao impor-lhe a aprovação daquilo que se convencionou chamar de “Cláusula habilitadora”, que na prática eliminava a condicionante do tempo mínimo exigido pelos Estatutos da JURA, para ocupar o cargo de seu Secretário Geral.

É manifesto que se tratou de um expediente ilegal, uma vez que só o Congresso tem a competência de alterar os Estatutos, ademais, ao ser inventada como um privilégio para o Nfuka Muzemba, o único entre os concorrentes que não satisfazia àquela exigência estatutária, a aludida norma feria de morte princípios do Estado de Direito, tais como o princípio da universidade, generalidade e o da abstração, todos eles de observância obrigatória em qualquer processo legiferante.

Nessa altura, como não podia deixar de ser, eu denunciei aquela grosseira violação; protestei, mas o inusitado envolvimento daqueles Mais Velhos naquele que foi mais do que um simples Congresso da JURA, criou um ambiente de tensão e de muito medo, tais que, tomados pelo receio de vir a sofrer represálias, mesmo perante o indiscutível, poucos tiveram a coragem de assumir a intransigente defesa da legalidade, aliás como sempre acontece em situações similares.

Pronto! Fui vencido e, apesar de não me ter dado como tal, a verdade é que aquele vício se cristalizou.

O segundo passo da mesma tramoia foi a tentativa de impedir que o Adriano Sapiñalã concorresse.

É importante referir que o visado não era apenas o Didy. Os visados éramos todos nós, especialmente pela extraordinária ameaça que representávamos à estratégia refundacionista.

Para aquela corrente, o Partido precisava de se “modernizar” e, portanto nós jovens forjados nas matas (de propósito ignoravam os nossos percursos nas cidades), representávamos o oposto!

O Gen. Abílio Numa, um homem de muita coragem, na altura Secretário Geral do Partido, chegou a dizer-me isso no seu Gabinete para onde me tinha convocado para tentar me demover da ideia de eu concorrer.

Estavam enganados, é óbvio, e o tempo se encarregou de o provar, bastando ver onde para o Nfuka Muzemba e onde está hoje o Adriano Sapiñalã.

Aproveito a ocasião para saudar a firmeza, a entrega que sempre presidiram a conduta dos outros então concorrente, nomeadamente a Helda dos Santos (a Baronesa) e o Osvaldo Júlio (meu eterno chefe).

A execução da vergonhosa missão de bloquear a nossa candidatura coube à Dra. Navita Ngolo, na qualidade de Presidente da Comissão Eleitoral do II-° Congresso Ordinário da JURA, que na Reunião do Comité Permanente do Partido, para a qual e naquela condição ela fora chamada para dar o ponto de situação sobre o andamento do processo do Congresso, no seu relatório declarou apuradas todas as candidaturas, menos a nossa, cujo candidato era de Adriano Sapiñalã, sob a alegação de que este faltou o requisito de ser membro do Comité Nacional da JURA!

É evidente que tal não correspondia à verdade, uma vez que o Didy não só era membro daquele órgão e também membro da Comissão Permanente do mesmo Comité Nacional da JURA, como também tinha sido membro do Executivo Nacional cessante da JURA, isso antes de ter sido chamado a desempenhar funções no Gabinete do Presidente do Partido!

Não restavam dúvidas de que nos queriam irradiar da corrida, amedrontados pela nossa tese fundamental de: “Estancar os desvios políticos ao nível da Direção do Partido.”

A crise tinha sido instalada, até mesmo dentro do próprio Comité Permanente do Partido!

Foi então que na qualidade de Director Geral de Campanha do Adriano Sapiñãlã, lancei mão à uma poderosa fórmula resolvente: A IMPUGNAÇÃO.

Imediatamente, elaborei o Ofício no qual impugnava a injusta decisão daquele órgão, dirigido em primeira instância à própria Comissão Eleitoral do II -° Congresso Ordinário da JURA, na qual referi que, caso essa se revelasse incapaz de sanar a desnecessária e inoportuna situação por si criada, outra IMPUGNAÇÃO, desta vez, de todo o processo do Congresso, por violação dos Estatutos da JURA, especialmente com a introdução da já referida “Cláusula habilitadora”, seria dirigida, gradativamente aos órgãos do Partido e aos do Estado, se tal viesse a ser necessário.

Contrariada na posição do grupo de interesse que ela representava, assumindo uma ostensiva postura de denegação, a Dra. Navita Ngolo recusou-se a receber o referido Ofício.

E, porque não tínhamos a perder, mergulhámos na elaboração da peça que seguiria para o Comité Permanente.

Foi nesse altura que o Dr. Liberty Chyaka veio ao nosso encontro e informou-nos que, na busca de uma saída airosa, na qualidade de Secretário Geral cessante, também tinha endereçado um documento à Comissão Eleitoral, com o fito de refutar aquela decisão ao atestar a qualidade de membro do Comité Nacional do Adriano Sapiñalã.

Em seguida, pediu-nos um compasso de espera e só avançarmos caso a sua demarche não surtisse o efeito desejado.

Felizmente, foi bem sucedido.
Tudo isso se passou numa única tarde!

Horas depois a Presidente da Comissão Eleitoral foi forçada a vergar-se à verdade e, lá o Adriano Sapiñalã foi também declarado candidato.

O Congresso teve lugar. O processo não foi liso, não foi justo nem transparente.
O Nfuka Muzemba, representando interesses estranhos e alianças “anti natura” ganhou o Adriano Sapiñalã na segunda volta e o resto é o que todos já sabem.

Enfim! Mudam-se os tempos e com eles as vontades, mas os interesses e mantêm-se os mesmos.

Para os minimamente avisados é evidente o padrão que se repete, o qual se denuncia nas acidentadas dinâmicas de alguns dos seus principais actores, na natureza atípica e no carácter controverso e até mesmo antagónicas das alianças internas e externas que se vão tecendo.

Infelizmente, o assinalável esmero empreendido no apresentar a coisa em diferentes formas e feitos tem levado meio mundo a deixar-se levar ou por incúria ou pela pura ignorância.

E atenção! Não é o conceito de alianças em si que está em causa, até porque este é um dos princípios fundantes da UNITA inscrito no ideário de Muangai.

O que é questionável são a qualidade e a boa-fé de alguns aliados circunstâncias daquela frente “patriótica”.

Seja como for, no tempo e no espaço a UNITA já provou a sua força.
“Qui vivra verra!”

“O povo que não conhece a sua história é obrigado a repi-la!”
Guia e Mestre, Jonas Malheiro Savimbi

Ps.
Para que a memória não se apague e, enquanto que muitos actores estão em vida e podem refutar ou dar precisões que venham a contribuir para garantir a sua fidedignidade, daqui em diante passarei a publicar, com alguma regularidade, alguns temas do meu futuro livro de memórias.

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