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Mercenários russos deixam rasto de medo e destruição na República Centro-Africana

Os russos entraram no país a pedido do Presidente Faustin-Archange Touadéra para combater os rebeldes, e quando chegaram as populações ficaram contentes com a sua vinda, mas ainda não sabiam que o pior estava para vir, e o pior tem sido um rasto de destruição e violência, com inúmeros testemunhos de mulheres arrancadas da sua casas e violadas

Quando os mercenários russos chegaram a Alindao, uma cidade no sul da República Centro-Africana (RCA), como funcionários de uma empresa ligada ao Kremlin, o Grupo Wagner, que tem vindo a intervir no país a pedido do Presidente Faustin-Archange Touadéra, para repelir os rebeldes – com quem recentemente chegou a um acordo de cessar-fogo, no que o Presidente João Lourenço se empenhou visivelmente – as populações sentiram-se aliviadas, porque, efectivamente, os rebeldes desapareceram. Mas o sossego não durou muito.

De acordo com os Estados Unidos, Evgeny Prigozhin, um russo muito ligado a Vladimir Putin, está por trás do Grupo Wagner, que terá, segundos algumas fontes, mais de 3 mil mercenários a combater na RCA.

A Rússia admite que tem cerca de 1.100 instrutores no país ao abrigo de um acordo entre Moscovo e Bangui, celebrado em 2018, mas que não estão armados.

Num país onde a França, antiga potência colonial, é vista com muita hostilidade, a Rússia foi ganhando espaço e tem hoje um papel importante neste país da África Central, quase vizinho do problemático Mali. Ao mesmo tempo que, e num período pós-guerra fria, é-lhe favorável manter áreas de influência, e o continente africano é uma delas, que disputa com a China.

Mas a presença russa na RCA deu já origem a diversas queixas de alegados abusos dos direitos humanos, queixas essas que chegaram ao conselho de segurança das Nações Unidas, que tem o país sobre embargo de importação de armas.

Com uma longa história de instabilidade, golpes e insurreições armadas, a RCA é para o Grupo Wagner, e como disse um diplomata em Bangui, citado pelo Financial Times, “um laboratório perfeito”.

E ao longo do caminho, os mercenários ocupam áreas de mineração de ouro e diamantes, fustigaram as minorias étnicas muçulmanas e fulani (ou fulas) e chegaram mesmo a momentos de tensão com membros da missão de paz da ONU Minusca, que tem no terreno cerca de 15 mil homens.

O Grupo Wagner tem vários clientes nos países africanos como Moçambique, Madagáscar, Sudão ou Líbia, sendo que neste último país foram mesmos acusados de cometerem crimes de guerra. E ao que tudo indica, o seu próximo cliente é Mali, fala-se que as autoridades locais terão contratado cerca de mil paramilitares, vulgo mercenários, ao Grupo Wagner, quando Paris anunciou uma redução das tropas francesas no território, isto é, passaria para metade o número de soldados franceses no Sahel, que neste momento são cerca de cinco mil.

E a história repete-se: Bangui também se virou para a Rússia quando a França retirou as suas tropas após uma fracassada missão de três anos em que não conseguiu pôr fim à sangrenta guerra civil que decorria na RCA.

Hoje, os cidadãos que vêm passar nas ruas de Bangui os camiões com esta tropa fortemente armada, tem a sensação de que o governo não os consegue controlar. Sorcha MacLeod, membro de um grupo de trabalho do Conselho de Direitos Humanos da ONU, tem afirmado que os russos e outros estrangeiros “estão envolvidos em violações dos direitos humanos e potencialmente envolvidos em crimes de guerra”.

O ministério das Relações Exteriores da Rússia diz que se existem essas acções, as autoridades russas não foram formalmente informadas acerca delas.

“Se as insinuações sobre essas atrocidades tivessem algum fundamento real, e a população local estivesse protestando activamente, a liderança da RCA dificilmente teria insistido numa maior presença de especialistas da Rússia”, afirmou um responsável pelos negócios estrangeiros da Rússia.

Enquanto acontece esta troca de acusações e este jogo de palavras, há empresas que estão em listas negras, nomeadamente, dos Estados Unidos, e que estão a operar no sector da mineração na República Centro-Africana, um país em que os doadores internacionais, como a União Europeia e o Banco Mundial, dão o equivalente a metade do orçamento do país, estimado em 400 milhões de dólares.

“De certa forma, a União Europeia e o Banco Mundial estão a pagar os mercenários, o que é uma posição muito difícil sustentar”, partilhou com o Financial Times um diplomata em Bangui, e teme-se que seja uma questão de tempo até que os mercenários russos e os militares das Nações Unidas integrados na Minusca entrem em conflito aberto no país.

Na cidade mineira de Bria, há testemunhos de que os mercenários russos passaram por ali e roubaram tudo o que podiam a pessoas que devem estar entre as mais pobres do continente africano.

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