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Atentados matam ao menos 60 pessoas no aeroporto de Cabul; 12 mortos eram militares dos EUA

Dois atentados a bomba foram registrados na quinta-feira (26/8) no aeroporto de Cabul, que se tornou o local mais visível do drama dos afegãos e estrangeiros que tentam fugir do país após a volta do Talebã ao poder. Pelo menos 60 pessoas morreram — 12 delas eram militares americanos, segundo o Pentágono — e outras 140 ficaram feridas, disse um alto funcionário da área de saúde à BBC.

As explosões ocorreram nos arredores do chamado Abbey Gate, espaço que era ocupado por tropas britânicas e americanas e que agora abriga pessoas tentando embarcar em voos para fora do país, e em um hotel ali perto.

De acordo com o jornalista afegão Bilal Sarwary — que foi evacuado do país há poucos dias — diz que a explosão ocorreu em um canal de esgoto onde refugiados afegãos estavam tendo seus documentos de visto examinados. Ele relata que um homem-bomba detonou seus explosivos no meio da multidão antes que um segundo homem começasse a disparar.

Mulher ferida no atentado a bomba no aeroporto de Cabul.
(Foto: AFP / Wakil KOHSAR)

Há alguns relatos angustiantes sobre o que aconteceu no aeroporto. “Corpos foram jogados em um canal próximo”, disse Milad, que estava no local da primeira explosão, à agência de notícias AFP.

“Quando as pessoas ouviram a explosão, houve pânico total. O Talebã então começou a atirar para o ar para dispersar a multidão no portão”, disse uma segunda testemunha. “Eu vi um homem correndo com um bebê ferido nas mãos.”

Na confusão, a testemunha — que não foi identificada — disse que deixou cair os documentos que esperava usar para embarcar com sua esposa e três filhos. “Eu nunca mais vou querer ir (para o aeroporto)”, disse a testemunha à AFP.

Um intérprete afegão que trabalhou com as forças americanas os atentados e descreveu à emissora CBS como tentou ajudou uma menina que acabou morrendo em seus braços.

Uma multidão estava nos arredores do aeroporto esperando oportunidade para deixar o país
(DR)

“Muitas pessoas se machucaram e outras que estavam caídas no chão”, disse ele. “Eu vi uma menina lá e fui até ela, peguei-a no colo e comecei a levá-la ao hospital, mas ela morreu nas minhas mãos”, disse ele, estimando sua idade em cerca de cinco anos.

“Isso é de partir o coração. O que está acontecendo agora é de partir o coração, este país inteiro se desintegrou.”

“Eu tentei”, continuou o intérprete. “Eu fiz o meu melhor para ajudá-la.”

Pessoas feridas nos arredores do aeroporto de Cabul; inteligência indicava que explosões poderiam ser ‘iminentes’
(DR)

Talebã condenou ataques
Dados de inteligência já indicavam a possibilidade de ocorrer ataques suicidas de extremistas no aeroporto, por conta da visibilidade do local, enquanto países tentam evacuar o máximo possível de pessoas até o dia 31 de agosto, prazo determinado para a retirada total dos Estados Unidos do país asiático.

À BBC, o ministro das Forças Armadas britânicas James Heappey havia dito que a ameaça ao local era “grave” e poderia ser “iminente”. Por conta disso, os Estados Unidos, a Austrália e outros países haviam advertido seus cidadãos para que não se aglomerassem no aeroporto.

Havia uma grande multidão no local, apesar dos avisos de ataque iminente, que foram ignorados por muitos afegãos desesperados para fugir do Talebã.

Analistas acreditam que um possível autor dos ataques seja o chamado Isis-K, filial do grupo autodenominado Estado Islâmico (EI) que atua no Afeganistão e no Paquistão — e rival do Talebã. É considerado o mais extremo e violento de todos os grupos militantes jihadistas no Afeganistão. Foi criado em janeiro de 2015 no auge do poder do EI no Iraque e na Síria, antes que seu autodeclarado califado fosse derrotado e desmantelado por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos. O grupo recruta tanto afegãos quanto paquistaneses, especialmente membros desertores do Talebã afegão que não consideram sua própria organização radical o suficiente.

Um porta-voz do Talebã, por sua vez, condenou as explosões e afirmou que elas “ocorreram em uma área em que as tropas americanas eram responsáveis pela segurança”. Suhail Shaheen, outro porta-voz do Taleban, disse que o grupo está “prestando muita atenção à segurança e proteção de seu povo” em outro comunicado tweetado.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, também condenou o “ataque terrorista que matou e feriu vários civis” em Cabul”.

“Este incidente ressalta a volatilidade da situação no Afeganistão, mas também fortalece nossa determinação enquanto continuamos a fornecer assistência urgente em todo o país em apoio ao povo afegão”, disse o porta-voz Stephane Dujarric a repórteres, acrescentando que “pelo que sabemos neste momento” não houve vítimas entre funcionários da ONU.

Atentados devem continuar
A escala de tensão no país deve continuar porque é pouco provável que este seja o último atentado, afirma Mike Jason, ex-comandante militar dos Estados Unidos que atuou no Afeganistão.

“Os alvos (como o aeroporto) são muito lucrativos e simbólicos” para militantes radicais que queiram dificultar a evacuação de pessoas, afirmou Jason.

“Eles (militantes) têm os recursos, têm o alcance e têm os alvos — as multidões de pessoas indefesas que estão desesperadas (para deixar o país).”

“A ameaça do EI é real, e esperamos que esses ataques continuem”, disse o general americano Kenneth McKenzie.

De fato, como confirmou o repórter da BBC News em Cabul, Secunder Kermani, o aeroporto tem atraído multidões apesar dos alertas prévios de perigo de atentado.

“As pessoas estão em tal estado de desespero que que não vão prestar atenção a esse tipo de informação (sobre riscos de atentados). Estão ouvindo todo tipo de rumores e só o que querem é deixar o país. Muitos acamparam durante dias em condições extremas (no aeroporto).”

As explosões que abalaram o aeroporto de Cabul ocorreram no mesmo dia em que vários países anunciaram que estavam interrompendo as evacuações devido à deterioração da situação de segurança.

No entanto, Estados Unidos, Reino Unido e França já anunciaram que prosseguirão com suas operações para retirar seus cidadãos do país.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas tentam escapar do Afeganistão pela fronteira com o Paquistão.

FonteBBC

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