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Indígena transexual se torna cacique de aldeia: ‘sempre fui respeitada’

Aos 30 anos, Majur Traytowu assumiu a função no lugar do pai, que teve que se afastar por motivo de saúde

Aos 30 anos, Majur Traytowu assumiu um grande desafio dentro da aldeia Aldeia Apido Paru da Terra Indígena Tadarimana, em Rondonópolis, a 218 km de Cuiabá, no Mato Grosso. Agora ela é cacique. A posição foi assumida depois que seu pai teve que se afastar da função para cuidar da saúde, há cerca de um mês. Além de ser a mais nova entre 19 irmãos, Majur é transexual. Mas nenhum dos dois pontos foi impedimento para que ela assumisse a função. O cacique é o chefe político da aldeia.

Os caciques são escolhidos por votação, mas Majur assumiu sem eleição após o afastamento do pai e todos os indígenas concordaram com a decisão. Ao Correio, ela conta que ser cacique nunca foi uma ambição dela, mas que naturalmente ela teve que assumir muitas funções na aldeia e isso a preparou para assumir o cargo.

Em 2017, passou no curso de fisioterapia e de antropologia e também no processo seletivo para ser agende de saúde indígena. Ela resolveu ficar na comunidade e assumir a vaga. “Sempre deixei claro para as pessoas e para a minha família que nunca quis liderar uma comunidade, só que devido a minha família abrir a Aldeia Apido Paru e também de ter muito contato com a organização e de ser bem ativa dentro da aldeia e também por estar no cargo de Agente Indígena de Saúde, eu tive que me aprofundar mais como liderança e assim me tornar a cacique. Só que deixando claro que nunca quis ter uma responsabilidade maior como agora”, explicou.

Apesar da grande responsabilidade, ela não se intimida. “Então, eu fui bem preparada desde pequena até chegar nesse cargo onde estou. Para mim não está sendo difícil, amo desafio”, afirma.

A transexualidade
Majur se descobriu transexual aos 12 anos e ela lembra que há relatos de outros indígenas que não se identificam com o sexo que nasceram. “Pra mim é uma coisa que já existiu, segundo a informação que a minha mãe me contou”, relata. “Desde pequena já me via que eu era totalmente diferente das outras pessoas. E os anos foram se passando e eu me preparando até hoje”, completa.

Em 2018, a indígena protagonizou o documentário Majur, do diretor Rafael Irineu. No curta-metragem, ela relata o processo de se descobrir transexual e suas funções na aldeia. De acordo com ela, o filme foi fundamental para que as pessoas na aldeia pudessem a compreender de forma melhor e que isso serve de inspiração para outras pessoas. “Eu vi que depois do documentário Majur mudou muito. Os jovens indígenas sabe que me refiro a posição sexual”, explica.

Na Aldeia, que tem cerca de 70 indígenas, ela diz que foi totalmente aceita. “Nunca sofri preconceito, se já sofri não me lembro, sempre fui bem respeitada”, afirma.

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