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China: Será possível uma aliança estratégica com a Rússia?

Após o fracasso da cimeira sino-americana de 18 de março, no Alasca, ganhou força a ideia de uma parceria entre Moscovo e Pequim contra o Ocidente.

O inimigo do meu inimigo é meu amigo. Quantos grandes impérios e nações ilustres não caíram por alienarem muitos inimigos que acabaram por se unir? Os Estados Unidos da América parece que estão agora a repetir este erro.

Ao decretar que Pequim e Moscovo são os seus principais adversários, Washington prepara-se para lançar contra as duas nações não apenas uma guerra de sanções, mas também uma guerra económica, política e ideológica.

Pressiona-se a China, demonizando-a pela violação dos direitos [da minoria muçulmana] dos uigures; pelo coronavírus; pelo uso ilegal de patentes; pelo protecionismo; pela política agressiva no mar da China Meridional; pela “repressão” da população de Hong Kong. Aplicam-se sanções económicas, estimulando o terrorismo na Ásia Central [através do apoio ao islamismo em território da ex-União Soviética] e agindo contra empresas chinesas de alta tecnologia.

De igual modo, a pressão acentua-se sobre a Rússia, a pretexto dos casos Skripal e Navalny*, exacerbando o conflito no Donbass [província do Leste da Ucrânia onde uma guerra entre o exército nacional e separatistas pró-Rússia já causou pelo menos 13 mil mortos]; com o financiamento de forças destrutivas em solo russo; impondo sanções e represálias por pretensos “ciberataques e ingerência nas eleições norte-americanas”; ou fazendo da Rússia o inimigo número um da Europa.

Alguns especialistas norte-americanos tentaram, durante anos, incutir às suas elites a ideia de que não se pode conter, simultaneamente, a China e a Rússia sem virar um país contra o outro. Isso lançaria Moscovo nos braços de Pequim. No passado, os norte-americanos acabaram por reforçar as posições chinesas nos Estados em que tentaram aplicar sanções, como o Irão e a Venezuela, por exemplo.

“Desde então, Pequim aumentou fortemente as suas importações de petróleo provenientes daqueles dois países”, constata Steve Hanke, investigador na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, Maryland, EUA.

Não há, porém, nenhum país que possa fortalecer a China mais do que a Rússia: com transferência de tecnologia, fornecimento fiável de energia barata, apoio político a regiões-chave do mundo, e garantia de estabilidade no “quintal” da China na Ásia Central.

Moscovo e Pequim estabeleceram um certo entendimento mútuo. Estes dois atores defendem a criação de um mundo multipolar e instrumentos de governança internacional para substituir os mecanismos norte-americanos (moeda de reserva mundial, instituições financeiras internacionais).

A Rússia e a China não interferem nos assuntos uma da outra, respeitam as suas soberanias e zonas de influência respetivas. Na Ásia Central, Moscovo e Pequim trabalham em conjunto em torno de um objectivo comum: obter um desenvolvimento económico sustentável e resistir ao islamismo, para que a região seja um “quintal” estável para os dois países.

Aviso aos rivais Até agora, porém, não se tratava de uma “aliança” na cena mundial. Pequim não estava preparada para essa ideia. Na realidade, os chineses não ajudaram os russos a contornar as sanções, mostraram-se cautelosos na cena internacional, abstendo-se de intervir fora da sua zona de influência.

Eles davam a impressão de quererem evitar um conflito com os norte-americanos, como se esperassem que as tensões diminuíssem quando Donald Trump se fosse embora [da Casa Branca]. Mas a situação não acalmou.

Os chineses perceberam, finalmente, que são um verdadeiro alvo e que isto está para durar. Só mudou a estratégia; se Trump preferia a retirada, os burocratas da administração de Joe Biden preferem um longo estado de sítio.

O fracasso total da recente cimeira sino-americana no Alasca, durante a qual os responsáveis pelos Negócios Estrangeiros dos dois países trocaram acusações duras, e até insultuosas, abriu definitivamente os olhos aos chineses.

Depois daquele encontro, vários média evocaram uma futura aliança russo-chinesa para enfrentar a pressão norte-americana. E não foram apenas os média norte-americanos, mas também os chineses. “Sejamos honestos – nenhum país da região pode afrontar a Rússia ou a China, e ainda menos lutar contra as duas potências em simultâneo.

Se um país se quiser opor à China e à Rússia, reforçando uma aliança com os EUA, será um desastre”, lê-se num editorial do [jornal oficial] Global Times. Uma referência discreta à intenção do Japão e de outros Estados da região.

A simples menção de uma tal aliança reforça, desde logo, a sua importância aos olhos dos rivais regionais de Pequim, não interessados em que a China ganhe ainda mais poder graças a uma aliança como Moscovo. Isso poderá motivar Tóquio a encerrar a questão das ilhas Curilas [onde subsiste uma disputa territorial com a Rússia desde a Segunda Guerra Mundial] tem confiança.

Em privado, especialistas chineses dizem que a viragem de Moscovo para a Ásia é apenas tática, não estratégica. Por outras palavras, “assim que o Ocidente voltar a chamá-la, a Rússia não lhe resistirá”.

À primeira vista, isto parece infundado, porque a proporção de russos que considera a pátria um país europeu está em queda livre: 52%, em 2008; 37%, em agosto de 2019; 29%, em fevereiro de 2021.

As elites e a classe média russas continuam, porém, profundamente eurocêntricas. É certo que estas começam a perceber que os smartphones chineses não são piores do que os norte-americanos ou os sul-coreanos, mas não deixam de se ver, a si mesmas e à Rússia, como parte da Europa.

E, no confronto entre Ocidente e Oriente, elas estarão sempre ao lado do primeiro, na condição, é claro, de que o Ocidente desperte e aprenda a considerar a Rússia um parceiro igual e membro da família europeia, e que aceite olhar para o espaço pós-soviético como zona de influência russa.

A relutância chinesa parece, pois, bastante justificada, e também parecem baixas as probabilidades de formação de uma aliança sino-russa contra o Ocidente. É preciso que as elites russas mudem de prioridades, até se poder contemplar verdadeiramente essa perspectiva.

* O Kremlin é suspeito de ter tentado matar, por envenenamento, Sergei Skripal, antigo espião russo e agente duplo dos serviços secretos britânicos, em 2018, e Alexei Navalny, o principal líder da oposição a Vladimir Putin, em 2020.

Skripal e a sua filha sobreviveram, tal como Navalny, que está agora na prisão e cuja organização política foi proibida. e investir no Extremo Oriente [russo], de modo a contrabalançar, de certa forma, a influência chinesa nos corredores do Kremlin.

Também os aliados tradicionais da Rússia se sentirão estimulados, designadamente a Índia, da qual os EUA se vêm aproximando mais. As elites eurocêntricas Será que as palavras se traduzirão em atos? Será que Moscovo e Pequim conseguirão formar uma aliança verdadeiramente operacional? É muito improvável.

Nomeadamente, porque a Rússia se mantém renitente em apoiar a expansão chinesa na Ásia do Sudeste e não quer perder a sua influência naqueles países. Mas também porque Pequim tem tendência a usar a Rússia como ponta-de-lança na cena internacional.

A razão principal, todavia, continua a ser a falta de confiança. Não que os russos tenham medo da “ameaça chinesa”: sondagens indicam que cerca de 75% têm uma boa opinião da China, e 40% consideram-na um país aliado. A China é que não tem confiança.

Em privado, especialistas chineses dizem que a viragem de Moscovo para a Ásia é apenas tática, não estratégica. Por outras palavras, “assim que o Ocidente voltar a chamá-la, a Rússia não lhe resistirá”.

À primeira vista, isto parece infundado, porque a proporção de russos que considera a pátria um país europeu está em queda livre: 52%, em 2008; 37%, em agosto de 2019; 29%, em fevereiro de 2021. As elites e a classe média russas continuam, porém, profundamente eurocêntricas.

É certo que estas começam a perceber que os smartphones chineses não são piores do que os norte-americanos ou os sul-coreanos, mas não deixam de se ver, a si mesmas e à Rússia, como parte da Europa.

E, no confronto entre Ocidente e Oriente, elas estarão sempre ao lado do primeiro, na condição, é claro, de que o Ocidente desperte e aprenda a considerar a Rússia um parceiro igual e membro da família europeia, e que aceite olhar para o espaço pós-soviético como zona de influência russa.

A relutância chinesa parece, pois, bastante justificada, e também parecem baixas as probabilidades de formação de uma aliança sino-russa contra o Ocidente. É preciso que as elites russas mudem de prioridades, até se poder contemplar verdadeiramente essa perspectiva.

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