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Feliciano Lukanga, consultor financeiro: “Os bancos fabricam muitos números para passar pelo supervisor”

Esteve ligado ao sistema bancário nacional e hoje actua como consultor financeiro. Na Grande Entrevista Expansão, defende mais profissionalismo no desenvolvimento da banca e realismo na implementação de programas para a diversificação e crescimento da economia.

O País prepara-se para tornar o Banco Nacional de Angola numa instituição independente do poder político com a alteração da lei BNA que está em discussão na Assembleia Nacional. Como avalia a banca angolana?

Os nossos jovens estão a receber mal o testemunho da banca. Antes, havia mais rigor na selecção de quem ia trabalhar na banca. Hoje, temos muitos fantasmas. Indivíduos que não dominam a banca. Vão para a banca com o intuito de ficarem ricos e esquecem-se que a função primária do bancário é satisfazer o cliente, porque o dinheiro é do cliente. Infelizmente, hoje, muitos entram na banca já a pensar ganhar milhões, casas, carros… Vulgarizámos a banca, por isso, está na situação em que se encontra.

Que situação?

Lastimável. A actividade tradicional da banca é a captação de depósitos e a concessão de crédito à economia, famílias… Mas aqui, por exemplo, o crédito é um problema. Sem esquecer a falta de brio de muitos colaboradores do sistema financeiro.

Há gerentes que não sabem o seu papel, preocupam-se mais com a vaidade do que com os clientes das suas agências. Muitos clientes têm contas movimentadas indevidamente por funcionários bancários…

Falta ética na banca?

De que maneira. Além de terem pouca formação on job, muitas pessoas entram para a banca por conhecimento de alguém, ignoram todas as regras e fazem o que lhes apetece. Hoje um médico pode ser bancário!

Mas a carreira constrói-se e as pessoas têm de começar de algum ponto. Não se pode esperar de todos os bancários o mesmo nível…

Sim. Mas nós destruímos a base. Hoje muitos bancários não querem fazer carreira, querem logo ser chefes e com as recomendações, infelizmente, isso está a acontecer. A juventude não é a única culpada disso. O testemunho está a ser mal passado. Estamos a incutir na juventude a ideia de que a banca hoje é para ter dinheiro, ser rico. Nós esquecemos que o dinheiro é do cliente.

Não há coisas boas na banca?

Claro que há coisas boas. Mas, em condições normais, os bancários não deveriam meter-se em negócios como se metem, até porque têm muitos privilégios como funcionários. Uma das situações que colocou a banca neste lugar, que não merece, é estarmos a construir bancos como se de uma instituição familiar se tratasse. O pai emprega a mãe, os filhos e o resto da família, o que em muitos casos é errado. Com este conceito familiar ninguém toma medidas quando há anomalias. E isso também está a contribuir para a degradação da banca.

A banca comercial não funciona como quer. Existe o Banco Nacional de Angola (BNA) que regula e controla o sistema. E tem havido vários pronunciamentos neste sentido. Qual deve ser o papel do BNA no cenário que retrata?

Será que o BNA tem quadros suficientes para reagir junto dos bancos comerciais? Penso que não. Há quadros com responsabilidade no BNA que não passaram pela banca. Saem das escolas para o banco central. Isso é inadmissível. A banca é muito técnica e é preciso conhecê-la. Hoje, os bancos fabricam muitos números, aquilo que chamamos de martelar para passar pelo supervisor.

A banca comercial passa ao BNA informação falsa?

O supervisor, de acordo com os números que lhe vão apresentando, vai aceitando. O BNA, se não tiver pessoas capazes de fazer a supervisão, não tem como condicionar. Grande parte dos bons quadros, especialistas de banca e finanças, está ao serviço da banca comercial.

O BNA deveria ser mais interventivo?

Sim. O BNA tem de ser gerido de outra forma. Temos administradores que nunca passaram pela banca e respondem por grandes áreas no BNA e isso não ajuda ao desempenho do banco. A banca é muito sensível. Um dos grandes erros que, às vezes, cometemos é metermo-nos em níveis onde não estamos.

Que avaliação faz da actual situação económica do País?

Estão a ser elaboradas boas políticas, mas agora é preciso fazer cumprir, o que está difícil. As pessoas passam a vida com discursos bonitos, bem elaborados, mas isso só não basta. Por exemplo, no caso da dívida pública, o discurso institucional é que está a ser paga, ok. Mas, como consultor, acompanho casos de dívidas mesmo certificadas e com todas as peças completas que aguardam o seu pagamento há anos. E a pandemia da Covid-19 veio piorar. Tudo agora é via e-mails ,que muitas vezes não são respondidos. Existem credores do Estado que estão a ser pagos com taxas de câmbio de anos anteriores que hoje não conseguem cobrir os custos. Em muitas situações, o Estado não tem sido um ente de bem porque tem contribuído para a morte de muitos empresários.

Têm fechado muitas empresas?

Bastantes. E os que estão a resistir estão a fazer com grandes sacrifícios, altas taxas de juro do crédito que tiveram e muito deste crédito também não tem sido pago. Há clientes que têm solicitado moratórias aos bancos, porque não estão a conseguir pagar nos prazos previstos.

Esta questão do crédito não está associada à ligeireza com que alguns foram concedidos?

Não é por aí. O cliente, quando recorre a um crédito, a sua principal obrigação deve ser pagar este empréstimo. Infelizmente, existem privilegiados que recebem milhões e milhões de kwanzas e não pagam. Por exemplo, no BPC, fui responsável pela área de controlo dos 20 maiores devedores e, quando fui ao fundo de alguns processos, cheguei à conclusão que havia casos em que os valores saiam e no mesmo dia a conta era encerrada. Estas contas eram abertas e, muitas vezes, sem processos.

Alguma vez relatou esses casos à administração do banco ou à justiça?

Enquanto funcionário e responsável desta área, fui fazendo a minha parte. Mas recebia muitos alertas de colegas para ter cuidado.

Beneficiou de algum crédito no BPC?

Beneficiei de crédito enquanto funcionário. E paguei. A garantia do meu crédito foi o meu salário e, rigorosamente, todos os meses era descontando até à conclusão do crédito.

Olhando para o retrato que faz da banca, o que é preciso para que funcione de acordo com os padrões exigidos?

Ser bancário é algo muito sério e exige pessoas sérias. A banca tem de ser definida cá e não como acontece muitas vezes, com os bancos de matriz estrangeira a dominarem o mercado.

A sustentabilidade da economia angolana passa por onde?

Seriedade. Sério daquilo que estamos a fazer. Para além de sermos académicos.

 

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