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“FP-25 foram mais mortíferas do que as Brigadas Vermelhas ou os Grapo”

Quase três décadas depois, dois dos agentes da Judiciária que perseguiram as FP-25 lembram aqueles dias. Sobretudo o fatídico 16 de agosto de 1987 quando perderam o colega, Álvaro Militão. Artigo originalmente publicado na edição do Expresso de 16 de abril de 2021.

Rui Dias e João Paulo Ventura recordam o 16 de agosto de 1987 com uma precisão impressionante. Lembram-se de tudo sobre o dia em que a tentativa de captura de dois operacionais das FP-25 fez a última vítima da organização terrorista. Álvaro Militão, agente da Polícia Judiciária, membro da Direção Central de Combate ao Banditismo (DCCB), ficou na história como a 17ª, e última, vítima mortal da organização. Morreu com um tiro direto no coração, numa perseguição automóvel em Lisboa, junto à atual sede da RTP em Lisboa.

O Opel Kadett, quase novo, que Álvaro Militão conduzia, capotou junto à antiga rotunda do Batista Russo. A perseguição continuou até ao terminal dos contentores, onde as brigadas da DCCB conseguiram capturar António Manuel Batista Dias, o “Professor”, e Alberto Teixeira de Carvalho, o “Xavier” (que a PJ apenas conhecia através de uma fotografia, nunca o tinham visto). “Só quando chegámos à base Mike (sede da DCCB na Av. José Malhoa, em Lisboa) é que soubemos que o Militão tinha morrido”, conta João Paulo Ventura, que tinha entrado na PJ há apenas três meses, com 24 anos.

Os dois receberam o Expresso na nova sede da PJ, numa sala onde estava colocado um baú com G-3 capturadas às FP-25, ao lado de várias armas e engenhos explosivos, escolhidos no vasto espólio na posse da Judiciária. “Tenho aqui esta FN Browning, uma 9 mm, que matou no dia 16 de agosto de 1987 o agente Álvaro Militão dos Santos, meu colega de curso, meu colega de brigada e meu colega de viatura.” Rui Dias ia no mesmo carro, mas saiu no momento em que tentaram ensanduichar o BMW dos fugitivos, para descarregar a sua mini Uzi. Apeado, no meio da confusão, acabou por continuar a perseguição noutra viatura, sem ter noção de que o colega tinha morrido.

Os dois agentes escreveram um livro detalhado sobre a história da DCCB, onde as FP-25 ocupam oito páginas com os principais marcos desses tempos. Mas esse tratamento sucinto não esconde que o ponto 4.1.a — ‘Terrorismo doméstico de extrema-esquerda, dossiê FP-25’ — é “o mais marcante, lapidar e paradigmático desta unidade orgânica da PJ e o seu principal crédito ou ativo”. 41 anos depois sobre o nascimento das FP-25 ninguém na Polícia tem dúvidas sobre isso.

Um caso mal resolvido
Foi no dia 20 de abril de 1980 que o rebentamento simultâneo de vários petardos em diferentes locais do país e o lançamento de panfletos anunciou a existência das FP-25. 41 anos depois, Nuno Gonçalo Poças lançou-se na tentativa de fazer a história de um caso. Porque é que um advogado com 35 anos se põe a fazer a história de uma organização já contada noutras obras, jornais e reportagens televisivas?

“É um caso mal resolvido, por causa da narrativa de que não tinha acontecido nada de especial e de que o Otelo nunca tinha pertencido às FP. Essa narrativa é totalmente destruída pelos factos.” O último acórdão do processo — que teve várias fases de sucesso, nos anos 80, com condenações e penas de prisão efetiva —, já de 2001 “explica detalhadamente quem pertencia às FP-25”, apesar das absolvições condicionadas pela amnistia.

Nuno Gonçalo Poças tem 35 anos e quis olhar para trás, “sem estados de alma, para ver o que correu mal”.

Na altura, o país queria olhar para a frente e enterrar o caso FP, um fenómeno de terrorismo tardio, nascido em democracia plena e a caminho da entrada na CEE. “Nessa altura fazia sentido que as pessoas quisessem olhar para a frente. Acho é que a maneira como o processo foi resolvido, com interferência do poder político, fez com que a questão não ficasse resolvida, ficou escondida.” É esse destapar que tenta fazer de forma sistemática em “Presos Por um Fio, Portugal e as FP-25 de Abril” (Ed. Casa das Letras), que é publicado no 41º aniversário das FP.

Um rasto que impressiona
João Paulo Ventura tem os números da cabeça e desfia-os com a facilidade de quem não esquece o que aconteceu: “203 ações violentas, 17 mortes, 108 roubos à mão armada…” Nuno Gonçalo Poças conta 18 mortes, porque a avó do bebé morto em São Manços teve um ataque cardíaco fatal quando soube da morte do neto, um caso que ainda hoje impressiona.

Além de tardia, as FP carregam números que impressionam: “Se olharmos à escala, pelos poucos anos em que atuaram e ajustando aos dez milhões de habitantes, as FP-25 foram mais mortíferas que as Brigadas Vermelhas, a Action Directe, os Baader Meinhof e os Grapo.” As contas, feitas assim, são especialmente duras. Com a precisão da taxonomia criminal, João Paulo Ventura arruma o tema: “Foi uma criminalidade extremista, ideológica e muito violenta.” Seguimos em frente, mas às vezes é obrigatório olhar para trás.

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