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Uma homenagem a Nito Alves: Para que a história não se apague

Familiares e sobreviventes do 27 de Maio de 1977, em Angola, insistem na verdade histórica. Com esse objetivo chega ao público o livro “MPLA – A Revolução Traída, 13 Teses em Minha Defesa”, de Nito Alves.

Decorridos quase 45 anos após os acontecimentos trágicos que, entre inocentes, vitimaram milhares de angolanos, acaba de ser apresentado em Lisboa a primeira edição em livro das 13 teses de defesa da autoria de Alves Bernardo Batista, conhecido por Nito Alves. O lançamento ocorreu “sem os receios de opressão de outrora”, como afirmou José Reis, presidente da Associação 27 de Maio.

O manifesto foi então escrito perante as acusações de fraccionismo de que Nito Alves estava a ser alvo no Comité Central do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). O partido – que continua no poder em Angola há 46 anos – pediu, na altura, que fosse constituída uma comissão de inquérito para o ouvir, bem como a José Van Dunem, outra das muitas vítimas do regime encabeçado pelo então Presidente Agostinho Neto.

“A comissão funcionou mal” e, face a isso, “Nito Alves acabou por avançar com um documento extenso, que seria a sua defesa perante as acusações que lhe eram feitas”, explica José Reis em declarações à DW. O presidente da Associação 27 de Maio destaca um dos aspetos relevantes do referido manifesto.

“No fim, na décima terceira tese”, refere Reis, “ele não propõe nenhum golpe de Estado como se diz, mas sim seis pontos que, se tivessem sido tomados em conta e discutidos no seio do Comité Central, se calhar não tinha havido o que aconteceu”.

Esta posição de Nito Alves era reflexo dos “problemas internos no seio do MPLA”, confirma Reis, que escreve o prefácio do livro.

José Reis, Presidente da Associação 27 de Maio.
(DR)

“Fazer o contraditório”
As 13 teses constituem atualmente o contraditório à versão dos vencedores, de acordo com a Declaração do Bureau Político do MPLA de 1977, a propósito da tentativa de golpe de Estado de 27 de maio daquele ano. Para José Reis, o manifesto, que andou intencionalmente escondido durante décadas, é “um documento político audaz, onde Nito Alves expõe a sua defesa contra a acusação de uma suposta má prática militante, o fraccionismo, que nunca foi provado”.

À volta do tema do fraccionismo não foi feito um debate interno no seio do MPLA. “O Comité Central nunca o discutiu e assim Nito Alves não pôde expor os seus argumentos no local próprio, no interior do Movimento, e viu-se obrigado a recorrer ao texto que hoje e aqui vos é apresentado em livro” – explicou Reis na sua comunicação.

Quem conhece Luanda, há de identificar facilmente a imagem usada na capa do livro. Trata-se de uma fortaleza, hoje Museu das Forças Armadas. Mas uma razão houve para os organizadores da obra terem escolhido a referida fotografia.

“Ela existe e resume-se à má reputação que a velha fortaleza ganhou, quando se sabe de fonte segura terem sido ali as masmorras de Nito Alves, José Van Dunem, Sita Valles, ‘Monstro Imortal’, Rui Coelho, etc., etc..”, segundo presidente da Associação 27 de Maio.

Segundo o mesmo, conforme se sabe, ali terá sido “o lugar de aviltamento e da tortura”, onde “foram mortas estas pessoas”. Porém, acrescentou, como nunca foram revelados os paradeiros dos seus restos mortais, o povo, que nestas ocasiões é pródigo em fantasiar, jura a pé juntos que também é ali na fortaleza que eles estão enterrados. “Um dia ficaremos a saber a verdade”, afirmou em tom de esperança diante de uma sala que se esperava repleta.

Público em Lisboa durante o lançamento do livro “MPLA – A Revolução Traída, 13 Teses em Minha Defesa”, de Nito Alves.
(DR)

“De racismo não tem nada”
A ocasião ficou marcada também pelos testemunhos de Carlos Cavaleiro, médico e amigo de Nito Alves ao longo de três anos na 1ª Região. Resumiu a história do MPLA, durante a luta de libertação nacional até à independência. “A fase mais difícil era lutar contra o neo-colonialismo”, sublinhou.

Explicou como conheceu o comandante Nito Alves, em 1974, e os vários momentos que partilhou com ele. “Ele descreveu-me pormenorizadamente tudo o que tinha acontecido no Congresso [do MPLA], falou-me na “Revolta Ativa”, falou-me de Daniel Chipenda, e uma das coisas que o impressionou bastante foi o racismo dentro do MPLA. Ele esteve bastante tempo a falar sobre isso”, revelou.

“Mal imaginava ele que, mais tarde, os seus retratores iam acusá-lo de racista. É evidente que Nito Alves de racista não tem nada”, desabafou. “Portanto, a acusação que lhe fizeram de racismo não tem qualquer fundamento”, acrescentou.

“O objetivo era simplesmente denegrir a sua imagem”, disse, fazendo notar depois o período de crise derivado da luta de correlação de forças no seio do MPLA. “E isto tudo terminou com o 27 de Maio, com aquele MPLA que nós temos hoje a governar Angola”, concluiu, depois de condenar frontalmente a chacina ocorrida naquele período.

Nito Alves, um mito?
Há muitos mitos sobre a figura de Nito Alves, considerado “um homem corajoso, sereno e íntegro”, que hoje estaria a festejar os seus 76 anos segundo as palavras de José Reis. Era o comandante da 1ª Região Político-Militar. Trata-se de “uma zona que estava longe das fronteiras com Brazzaville [Congo] e perto da capital Luanda, mas que teve sempre problemas graves de falta de alimentos e de armas, entre outros. No entanto, foi a região que resistiu até ao fim”, refere José Reis, na conversa com a DW.

Depois do Congresso de Lusaka, que acabou por não se concretizar, Nito Alves foi eleito para o Comité Central e depois cooptado por Agostinho Neto, primeiro Presidente de Angola, para o Bureau Político do MPLA. Alves foi também ministro da Administração Interna e do Território – e não do Interior como normalmente se diz –, tendo exercido o cargo até os acontecimentos que eclodiram com o 27 de maio de 1977.

“Quando não é dita a verdade sobre as pessoas, por exemplo quando não se diz que as pessoas morreram ou não se encontram os restos mortais dessas pessoas, o povo gera mitos”, argumenta José Reis. “Há com certeza mitos, mas também há muitas verdades”, acrescenta, aludindo ao documento apresentado em formato de livro no Auditório Agostinho da Silva, da Universidade Lusófona, em Lisboa.

E depois do perdão?
Tanto em Angola como em Portugal, os coletivos que representam esta causa vão continuar a trabalhar para honrar as vítimas e os respetivos familiares. Vão insistir na procura da verdade, em primeiro plano, ao que se seguirá a exigência de exumação dos corpos para a realização dos testes de ADN. São procedimentos, juntando as certidões de óbito, para que os restos mortais sejam entregues às respetivas famílias, de modo a fazerem o luto devido e merecido.

José Reis aplaude o pedido de perdão apresentado no dia 26 de maio passado pelo Presidente da República de Angola, João Lourenço, que exortou agir-se nesse sentido. “A História não se apaga. A verdade dos factos tem de ser assumida”, lembrou Reis as palavras então proferidas pelo chefe de Estado angolano.

Entretanto, para Kissama de Castro, da Associação “A Voz de Angola na Europa”, “o pedido de perdão não pode ser um ato de cinismo”.

José Fuso, outro elemento da Associação 27 de Maio, quer que este documento, agora em livro, tenha a dignidade que merece, devendo para isso ser debatido e estudado por todos aqueles que se interessam pela História de Angola. História que, segundo exortou um dos intervenientes no ato, deve também ser levada ao ensino básico e às universidades para conhecimento das futuras gerações.

FonteDW

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