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“A situação de Angola é dramática, quer do ponto de vista económico quer político” – Evaristo Mulaza

Em entrevista à TSF, Evaristo Mulaza, director do Jornal Valor Económico e diretor-geral do grupo GEM, tece duras críticas a João Lourenço após quatro anos de poder, pelas inúmeras promessas que diz terem ficado por cumprir, e sustenta que, “enquanto não forem feitas reformas profundas, o país não vai andar para a frente”

“Queremos o nosso gatuno” é a expressão de muitos internautas angolanos nas redes sociais. Acreditam que, apesar dos conhecidos e amplamente noticiados casos de corrupção no país, se vivia melhor em Angola no tempo de José Eduardo dos Santos. A um ano de novas eleições presidenciais, o mandato de João Lourenço é alvo de duras críticas por parte dos opositores, mas também de vários analistas, que sustentam que a vida dos angolanos piorou substancialmente e o xadrez político é agora mais difuso.

Em Luanda, a TSF ouviu a opinião de Evaristo Mulaza, director do Jornal Valor Económico e director-geral do grupo GEM, que defende que as promessas feitas pelo atual presidente no início do mandato “caíram em saco roto”, traçando um cenário negro e de futuro imprevisível no país.

Angola após 38 anos de poder de “Zedu”
“A situação é difícil, sob todos os pontos de vista”, assevera o gestor, em entrevista à TSF, garantindo que, por exemplo, na questão económica, “os principais indicadores dos últimos quatro anos, coincidentes com o mandato do atual governo, são preocupantes”. “O emprego é uma das maiores dificuldades que o país atravessa”, salienta Evaristo Mulaza, que, citando cálculos da Universidade Católica de Angola, dá conta de que “entre 2018 e o primeiro trimestre de 2021, foram destruídos mais de 400 mil empregos formais” no país.

“Neste momento, excluindo a participação do sector informal, a taxa de desemprego em Angola atingiria acima dos 85%”, aponta o analista. “São números que refletem uma situação dramática pela qual o país passa do ponto de vista económico, com reflexos no sector social”.

Mas nem só ao nível da economia, Angola enfrenta grandes dificuldades. “Há um quadro político caraterizado, particularmente nos últimos dois anos, por elevada crispação entre os principais atores políticos”, explica Evaristo Mulaza, descrevendo o que classifica de profunda “impossibilidade de comunicação”.

“Há um cenário de completo corte de comunicação, do ponto de vista político, entre o presidente – do partido que governa – e o líder do maior partido da oposição”, conta.

Presidenciais em 2022?
Ainda assim, ao contrário de muitos angolanos que parecem bastante cépticos em relação à realização das eleições previstas para o próximo ano, que deverão eleger o novo presidente do país, Evaristo Mulaza mostra-se mais otimista, acreditando que o ato eleitoral vai mesmo ter lugar. Além do que, apesar do “todo o poderoso MPLA” permanecer “agarrado ao poder” há várias décadas, o gestor confia na existência de alternativas políticas em Angola.

“A questão da ausência de alternativa não se coloca. E a UNITA, de Adalberto Costa Júnior, é claramente uma alternativa à assunção do poder”, afirma, referindo, no entanto, que “os sinais que têm sido dados através de propostas de alteração do pacote legislativo eleitoral tendem a dificultar ao máximo o processo e a transição que se cogita”.

Evaristo Mulaza adianta que, ao contrário do que tem acontecido nos últimos processos eleitorais, desta vez, “o MPLA quer proibir os cidadãos adultos sem bilhete de identidade (por não estarem registados) de votar”, “o que nunca foi uma questão impeditiva”, refere, estando também a ser proposto que o processo de apuramento de resultados seja centralizado (e não realizado a nível municipal como tem acontecido). “Começa a haver aqui uma antecipação por parte do partido do poder para controlar o processo”, reitera.

As promessas incumpridas de João Lourenço
Tendo apresentado como grande bandeira do início do mandato o combate à corrupção, João Lourenço tem deixado muito a desejar para a maioria dos eleitores angolanos. Evaristo Mulaza defende que “o governo continua a fazer algum marketing de que esta promessa tem produzido resultados”, mas refere a existência de uma “agenda para o combate seletivo à corrupção”, sustentando que processos ou referências que visam pessoas próximas do presidente da República “morrem ou não se fala deles”. “Não têm pernas para andar”, acrescenta. Razões que o levam a concluir que “infelizmente, mesmo a questão do combate à corrupção acabou por cair no descrédito”.

Por outro lado, Mulaza defende que, no plano económico e social, “a promessa de criação de 500 mil empregos também caiu por terra”. “Mais do que criar empregos, na verdade foram destruídos muitos empregos”, lamenta, referindo ainda promessas por cumprir também no plano político. “Houve um compromisso político de realização de eleições autárquicas e isso não sucedeu”.

“Resumindo, olhando para as principais promessas de João Lourenço, tudo caiu em saco roto”, remata o diretor do Valor Económico, considerando que a “Angola de hoje é isto: há dificuldades muito grandes, há muita gente a passar fome e há uma expectativa do que pode acontecer em 2022”.

Para Evaristo Mulaza, o maior receio que o MPLA vive atualmente é a divisão interna, já que há pessoas próximas de José Eduardo dos Santos que estão a ser recuperadas, incluindo pelos partidos da oposição. “Há uma leitura convergente na oposição de que, caso cheguem ao poder, vão tratar estes casos de uma forma diferente” e isso preocupa o MPLA. “Há este medo, porque o MPLA está dividido”, insiste.

Apelo de muitos angolanos nas redes sociais: “Queremos o nosso gatuno”
Com um cenário de encruzilhada e sem vislumbrarem saídas, há muitos angolanos que suspiram pelo tempo em que José Eduardo dos Santos esteve no poder (38 anos), por considerarem que tinham uma vida melhor. “Quando as pessoas fazem as contas em casa e não têm o que comer, é muito fácil estabelecer essas comparações e dizer que no tempo «do outro» não tinham fome”, descreve.

“Esse acaba por ser o melhor reflexo de que as políticas dos últimos cinco anos falharam”, refere, falando no “maior reflexo de que as pessoas estão desesperadas”.

Questionado pela TSF sobre os desafios que se colocam a Angola nos próximos anos, Evaristo Mulaza aponta a reforma do Estado como um dos pontos centrais, dando como exemplo a revisão constitucional.

“É preciso que este sistema de governo, que cria semideuses, seja revisto”, critica, por se tratar do que diz ser “apenas uma estratégia de preservação do poder”. Referindo o “problema da concentração de poder”, quer no que toca à Comissão Nacional de Eleições (CNE), quer por exemplo, em relação à Entidade Reguladora da Comunicação Social em Angola que “é formada de acordo com o paradigma partidário”.

“Ter uma CNE em que a maior parte dos membros são do MPLA, que é o partido que controla o poder, faz com que dificilmente tenhamos processos transparentes”, assegura, considerando que “enquanto não ultrapassar estes obstáculos, o país não vai andar”.

“Os angolanos não estão interessados em ter uma espécie de China em África. Ninguém disse ao MPLA que os angolanos querem o mesmo partido político a governar a vida toda. E é isso que o MPLA parece pretender”, conclui.

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