InicioCulturaMúsicaMúsica "Filhos da fome" retrata má governação de Angola

Música “Filhos da fome” retrata má governação de Angola

“Filhos da fome” é o título da música do rapper Nucho que retrata o sofrimento da população angolana. Em entrevista à DW, o músico fala da falta de pluralidade de opinião e o que chama de “desgovernação” de Angola.

Foi em Talatona, umas das zonas mais nobres de Luanda, que a DW África conversou com o rapper angolano Nucho. Como se explica alguém que vive em area tão privilegiada cria a música “Filhos da fome”?

“Eu sou uma pessoa do povo. Posso ter agora condições de vida melhores, mas eu não me esqueço de onde vim e sei bem para onde vou. Mesmo aqui em Talatona vês pessoas todos os dias a pedirem comida, a pedirem esmolas”, responde o músico.

“Existem bairros aqui dentro do Talatona onde não há água e não há luz. Talatona tem lixo. Talatona inunda sempre que existe chuva”, frisa o rapper.

Estas são algumas das razões que levaram Nucho a escrever “Filhos da fome”. Uma fome que mata, sobretudo no sul de Angola. “Todos os dias lá em casa temos fome e se a mamã não for zungar, ninguém come”, canta o rapper.

Homenagem a Inocêncio Matos
O tema da fome, muito partilhado nas redes sociais nos últimos dias foi escrito, a 11 de novembro de 2020. Segundo o autor, é também uma homenagem ao jovem Inocêncio Matos, o ativista angolano morto nas ruas de Luanda por um polícia, quando participava numa manifestação, no dia da independência angolana.

“Inocêncio Matos, um combatente pela liberdade e pela independência nos dias de hoje, que fez exactamente o que nossos kotas fizeram no passado, hoje sai à rua a pedir melhores condições de vida, porque é um filho da fome, e ao invés de o governo ouvir e tentar dar melhores condições a este jovem, o que faz e matar este jovem e o que faz é chamar os outros jovens de arruaceiro.”

Por isso, Nucho não tem dúvidas: A liberdade de expressão em Angola “é limitada”. Também é limitada a pluralidade de opinião na imprensa pública, diz o artista, que tem consciência de que esta música não tocará nos órgãos estatais.

“Os meios de comunicação públicos que são pagos pelos impostos de todos nós, não há espaço para liberdade de expressão. Existe uma agenda partidária do MPLA e basicamente apresenta-se e diz-se o que MPLA quer que se diga. Não vês o contraditório, não vês espaço para sociedade civil independente, não vês espaço para os partidos da oposição, vês apenas uma agenda do governo a ser martelada todos os dias, que não é propriamente a imagem real do país.”

Um país “desgovernado”
O rapper angolano conclui que Angola é um país “desgovernado”. “Nunca vi tanta fome como temos visto nos últimos tempos, pelo menos na última década”, lamenta.

“Flhos da fome” é uma dos temas do novo álbum “Origens”, com 12 faixas musicais, a ser lançado ainda este ano. Dedicado a Angola, o trabalho conta com participação de vozes como Totó e Walter Ananás.

O novo trabalho de Nucho, com várias sonoridades angolanas misturadas com Hip Hop, trará também outros temas como “Luanda”, o retrato de um contraste da capital angolana. Ou seja, uma revelação de duas realidades: a mansão dos grandes condomínios e o casebre do musseque.

“Em nome de todos os combatentes, não só os que morreram, mas também que perderam muito durante a guerra, não era para ser assim. Não era para ser, vocês cheios de dinheiro e o povo com fome. Vocês mataram o sonho enorme”, canta Nucho em “Filhos da fome”.

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