InicioCrónicas e ArtigosPrenda: “Mamborró passou por aqui”…

Prenda: “Mamborró passou por aqui”…

Era sempre assim: quando passasse pela rua, era normal o berreiro: “é o Mamborró das garotas”.

José Machado, ou se quisermos o Mamborró, deixou as suas impressões digitais pelo Bairro Prenda. É uma figura transversal de toda uma geração hoje na casa dos “entas”, que acompanhou de perto o percurso de um garoto forjado e lapidado na Sala Piô da Rádio Nacional de Angola.

Não há, na história da música infantil angolano, um cantor que tenha atingido o mesmo nível de popularidade do miúdo do Kwanza-Sul. E, convenhamos, haviam verdadeiros fenómenos musicais-mirins na altura.

Mal franqueou as portas de Luanda, via Dionísio Rocha, Mamborró deixou por terra outros vultos: de Gisela Gôis a Ângelo Ramos (Ângelo Boss), de Joseca a João de Assunção; enfim uma plêiade de excelentes vozes que já passeavam classe.

Em boa verdade, Mamborró chegou, viu e venceu na cidade grande, numa Luanda onde caíra feito meteoro. Num rápido abrir e fechar de olhos, o rapaz conquistou todos.

E, por isso, quando passasse pelas ruas, as crianças ‘berravam’ – e ainda berram – “olh’aquele que vem ali/é o Mamborró do karipim-pim”.

E Foi assim também no nosso Prenda. Era seguido ao milímetro, onde quer que passasse. Na rua era uma correria para vê-lo. Crianças e adultos praticamente acotovelam-se para estar próximo do menino-prodígio.

Nós, adolescentes, na altura, desafiávamos o sistema de segurança da célebre escola Augusto Ngangula (actual Instituto Simeone Mucune), ao tempo da directora Jujú, só para escalar a janela da sala 1 e poder ver o nosso astro. Revezávamo-nos, à janela, para alguns segundos de puro delírio.

Nem mesmo a presença dos guardas, quase sempre às corridas, inibia os muitos curiosos que tomavam de “assalto” a escola para aquele momento mágico. Os fins justificam os meios…

Ainda que de forma rara, Mamborró também era presença agradável em algumas partidas de futebol. Era vê-lo entre os colegas a defender a baliza da sua turma, graças a uma fugaz passagem pelos juvenis do 1º de Agosto, um outro prazer que conciliava com a música. O campo abarrotava, com a fauna feminina entre o grosso de espectadores. O miúdo arrastava multidões!…

Foi por via desta popularidade que o país quase veio abaixo com o boato da sua morte por assassinato, algures na Samba. Ouviram-se as mais estapafúrdicas versões, jorraram lágrimas a cântaros, mas tudo não passou do diz-que-disse. As fake news são antigas.

Era a primeira «morte» de Mamborró que, depois veio a saber-se, estava «vivinho da silva». Todas as «belinhas xuxús» ficaram mais sossegadas com a «ressurreição» do ‘Mamborró das nonós’…

Não era para menos: era um senhor-música, cuja harmonia acordes principais abertos evocavam pureza. E mais: a precisão das suas improvisações vocais conferiam um amplo espaço aos solos.

Explorava cada palavra, cada nota e mesmo no silêncio ouvia-se o seu cantar, porque os gestos das suas mãos em cada música escreviam ritmos numa atmosfera às vezes escura. Era um poeta, um ser único, que só pensa em verso e música.
E este era o Mamborró: um concentrado de talento, sentimento e poesia, que o nosso Prenda teve em doses.

Nós, no Prenda, estávamos bem servidos. Tínhamos várias estrelas, qual delas a mais cintilante. E Mamborró foi uma delas.

Pena é que a sua «segunda morte» não foi boato; não foi fake news. Foi na «vida real». O homem partiu mesmo. E a estrela apagou-se, definitivamente.

A sorte é que deixou o seu feromona lá no Prenda…

José dos Santos*
*Jornalista | In Facebook

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