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Tomámos conhecimento

Eu tinha prometido a mim mesmo não voltar a falar na Covid-19 por uns tempos. Mas a posição da Europa “oficial” diante da maka da suspensão das patentes das vacinas contra o novo coronavírus não me permite esquecer esse assunto facilmente.

Se alguém ainda tem esperanças de que a humanidade sairia melhor, moralmente, da actual pandemia, é melhor desenganar-se de uma vez por todas. Faltam-me adjectivos (publicáveis) para qualificar a posição dos líderes europeus que se recusam a apoiar a pretensão dos países pobres (por uma vez, esqueçamos os eufemismos) de levantamento temporário das patentes das vacinas anti-covid, para permitir a sua produção e a sua distribuição a custos menores pelas regiões que continuam escandalosamente discriminadas no actual processo de vacinação global, em especial a África.

Como se sabe, tal pretensão, manifestada por centenas de países, é apoiada pelo presidente da maior potência mundial, Joe Biden, e pelo Papa Francisco, duas lideranças que não são, digamos assim, negligenciáveis.

Mas os mesmos líderes europeus que, servis – e apenas para dar esse exemplo -, apoiaram a invasão do Iraque decidida pelos EUA com base numa comprovada mentira, agora rebelam-se “corajosamente” contra a correcta posição norte-americana de subscrever a proposta de levantamento das patentes em questão.

A posição europeia é apoiada por todos os seus líderes, da direita à esquerda (os leitores decidirão se usarão aspas ou não). Ou seja, o grande “centrão” europeu está unido contra a suspensão das patentes.

Os seus argumentos são de uma clareza assustadora, não escondendo ao que vêm: defender os interesses estratégicos das grandes farmacêuticas – um dos pilares do sistema neoliberal, ao lado dos conglomerados financeiros e das bigtech – e manter as nações pobres numa posição de dependência. Comentarei aqui, brevemente, apenas dois deles.

O primeiro é que apenas a iniciativa privada é capaz de fomentar a inovação. Falácia. A história das invenções e do desenvolvimento tecnológico está cheia de descobertas e inovações realizadas pelos próprios estados (“inspiradas”, por exemplo, em razões militares), sem esquecer que grande parte da pesquisa privada é financiada pelos governos.

Por falar nas vacinas anti – covid, lembro que menos de 3% (leram bem: menos de 3%) da pesquisa da AstraZeneca foi feita com fundos privados. O segundo argumento é patético: a suspensão das patentes não resolve o problema da produção e da distribuição de vacinas. Como assim?

O que os países pobres reclamam é precisamente ter acesso livre às patentes para poderem produzir as vacinas de maneira massiva e distribui-las a um preço mais reduzido.

No caso de Angola, por exemplo, seria muito mais barato adquirir vacinas produzidas na África do Sul do que na Índia, China, Alemanha, Rússia ou Estados Unidos. O continente africano conseguiu vacinar até agora apenas 2% da sua população.

O que dizer, portanto, quando o presidente francês, Emanuel Macron, jura, com o ar mais seráfico possível, que a suspensão das patentes não resolve esse problema e que os africanos poderão (talvez fosse mais honesto dizer “terão de”) continuar a contar com a “Europa solidária”, seja lá o que isso for?

Quanto à declaração da presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, de que tem problemas “mais importantes” com que se preocupar do que o tema das patentes, a mesma fala por si. É caso para dizer: T. C. (tomámos conhecimento). Para não usar outra abreviatura, mais contundente e adequada.

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