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Vítima de abuso sexual, psicólogo diz que ‘bloqueou’ o episódio por 13 anos

Uma interminável viagem de 45 minutos permaneceu oculta no inconsciente do gaúcho Marcel Ganzer por 13 anos. Marcel tinha 11 quando foi molestado por um homem de cerca de 40, no ônibus que o levava de Frederico Westphalen para Iraí, no norte do Rio Grande do Sul. Ele nunca contou a ninguém o que aconteceu. Bloqueou. Já na faculdade, ao ler um artigo sobre “traumas em homens que sofreram abusos sexuais na infância”, vivenciou uma espécie de revelação.

“A cena do abuso veio na minha cabeça com muita nitidez”, lembra ele, que estava com 24 anos, morava em Porto Alegre e cursava gestão ambiental. “Eu me perguntava como é que tinha passado tanto tempo sem me lembrar de nada.”

O abusador puxou conversa com ele no terminal rodoviário — todos os fins de semana, Marcel transpunha os 23 km que separam as duas cidades para visitar os avós e os primos. “Minha mãe me deixava ir sozinho, porque tinha muita confiança em mim.”

Desconfortável com a abordagem do estranho, ele saiu de perto. Por azar, o ônibus veio cheio. Apenas os dois assentos do fundo estavam vagos. Acomodado na janela, Marcel foi seguido pelo homem, que se sentou na poltrona mais próxima do corredor.

“Eu me lembro que fazia muito calor, estava um cheiro forte de suor, e ele começou a me alisar por cima da calça. Eu gelei. Enquanto me forçava a masturbá-lo, dizia que um dia minhas bolinhas iam crescer e ficar bem gostosas, como as dele.”

Isso explica muita coisa
A leitura do artigo despertou em Marcel a necessidade de avaliar a relação que tinha com o sexo. Ex-consumidor desenfreado de pornografia, ele conta que até os 26 anos “saía com todo mundo, sem manter contato com ninguém” e sentia um prazer particular em relações que envolviam “algum grau de masoquismo e submissão”.

O efeito de suas descobertas foi tão devastador que o levou a se mudar de cidade, de profissão e de estado civil. Hoje, aos 30 anos, mora em Florianópolis, trabalha com psicologia transpessoal e mantém uma relação estável com uma cozinheira que tem dois filhos.

Especializou-se em terapia de autoconhecimento masculino e criou um projeto chamado “Tenda do Sol”, que agrega homens dispostos a falar abertamente sobre questões como patriarcado, sexualidade, machismo e preconceito.

Ao explicar a transformação em sua vida, evoca a expressão xamânica “Noite Escura da Alma”: “É quando tudo aquilo em que você acreditava cai por terra.”

Para Douglas Duarte, falar abertamente sobre a violência sexual ajuda a dar visibilidade a um tema que as pessoas evitam.
(Imagem: Arquivo Pessoal)

Ponto fora da curva
Divulgar a experiência traumática não costuma ser comum entre homens que sofreram abuso. Marcel seria uma exceção. Quem afirma é o psicólogo Dênis Ferreira, 36, que há 15 anos estuda a sexualidade humana e atualmente escreve uma tese de doutorado sobre violência sexual contra homens.

“De uma maneira geral, os homens que foram sexualmente abusados sentem mais dificuldade de falar sobre o assunto do que as mulheres. Por uma questão cultural, eles não gostam de ser vistos como vítimas. Consideram um sinal de fraqueza”, diz ele.

No fim de 2020, Dênis se juntou a 12 profissionais de diversas áreas para fundar a ONG “Memórias Masculinas”, especialmente dedicada ao acolhimento de vítimas de violência sexual. Ele produz uma pesquisa com homens acima de 18 anos ( http://bit.ly/3jRcxnk) para entender de maneira mais ampla essa demanda. Diz que se trata de uma experiência pioneira no Brasil. “Em minhas buscas, encontrei organizações que lidam com o problema dos abusadores, não dos abusados.”

Ativa desde janeiro, a ONG realiza atendimento pontual, não de longo prazo. Até agora, recebeu chamadas de 31 homens, a maioria heterossexual.

Números oficiais
Entre 2009 e 2018, o Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), ligado ao Ministério da Saúde, registrou 31.826 ocorrências de abuso contra meninos e homens, ou 12,5% do total. O sistema reúne casos confirmados ou suspeitos que chegam a alguma unidade de saúde do país. Desde 2011, a notificação é compulsória.

Pelas contas do Forum de Segurança Pública, foram 9.490 registros. O fórum produz o Anuário de Segurança Pública, a partir de notificações enviadas por secretarias de seguranças de todos os estados do país. O número auferido representa 14,3% dos boletins de ocorrência de estupro e estupro de vulnerável.

Silêncio homofóbico
Dênis Ferreira acredita que existe subnotificação de casos, já que boa parte das vítimas não se sente à vontade para fazer o registro da ocorrência. Parece significativo que nenhum dos acolhidos pela ONG tenha se disposto a falar com a reportagem, nem mesmo sob a condição de anonimato. “O silêncio está ligado não só ao constrangimento de relatar a experiência traumática, mas também ao fato de o abuso ter sido cometido por outro homem. Os heterossexuais muitas vezes acreditam que isso pode levar a uma especulação a respeito de sua virilidade.”

O psicólogo homossexual Douglas Duarte, 28, abusado aos 10 por um vizinho que trabalhava na reforma de sua casa, acredita que não existe necessariamente uma relação de causa e efeito entre violência sofrida na infância e orientação sexual. “Hoje, eu vejo que sempre desejei uma figura masculina, tanto que não identifiquei o episódio como ‘violência’.” O abusador, que era pai de um garoto da mesma idade de Douglas, o cercou por alguns meses, até que o atraiu para o banheiro da casa.

Ao revelar publicamente que já foi vítima de abuso, Douglas pretende dar visibilidade a um tema que costuma ser evitado: “A violência sexual é mais comum do que as pessoas imaginam. A gente tem de falar dela. Quanto mais nós dividimos essas experiências, mais tiramos o assunto das sombras.”

Apesar de estar seguro de sua orientação sexual, Douglas conta que chegou a namorar meninas na adolescência, e que hoje muita gente pergunta “se isso era para esconder a experiência do abuso”. “Eu de fato me apaixonava e sentia atração por elas, mas agora vejo que me impunha aquele comportamento por causa da minha formação cristã. Encarava a relação heterossexual como única alternativa possível. O tempo e a distância me fizeram ver a homossexualidade com outros olhos.”

Experiência confusa
O efeito do abuso deixou marcas no publicitário Raphael Rocha, 32. Ele tinha 4 anos quando um tio o acariciou na rede, em uma festa de família, depois o levou para fazer pipi.

Casado há 14 anos, pai de uma menina de 1, Raphael afirma que nunca traiu a mulher, mas tem encontros virtuais com outros homens e consome pornografia na internet. “Mesmo me masturbando compulsivamente, não me sinto saciado.”

Segundo Dênis Ferreira, a hipersexualização pode ser sinal de que o abuso na infância “vem misturado a uma série de sentimentos contraditórios”. Raphael Rocha conta que na adolescência costumava “baixar as calças” para os garotos mais velhos que se reuniam em sua rua. “Eu sempre fui feminino, sofri bullying e até hoje tenho voz fina e ‘quebro’ o punho”, diz ele. Apesar dos questionamentos, Rocha mantém sua intenção de praticar apenas a heterossexualidade. “Casamento é para a vida toda.”

O preço de guardar um segredo tão “comprometedor”, inclusive da mulher, é alto. Quando a filha nasceu, Rocha sofreu uma depressão profunda. “Foi o gatilho que me levou a elaborar esse passado que me assombra. Lidar com a duplicidade sozinho ficou impossível. Eu me perguntava: ‘Quem sou eu nessa bagunça?’.”

O publicitário encontrou algum apaziguamento em grupos de homens que debatem a masculinidade na Internet, mas aparentemente ainda está longe de obter a resposta.

FonteUOL

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