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Subida dos preços muda hábitos das famílias

Angola tem registado, nos últimos dois anos, frequentes oscilações no preço dos principais produtos da cesta básica, situação que leva milhares de famílias, em particular em Luanda, a “reinventarem-se”, diariamente, ante um cenário de recessão.

A alta de preços é um facto desde finais de 2014, altura em que o país começou a ressentir-se da crise económica derivada da queda do preço do petróleo no mercado internacional, afectando, sobremaneira, os produtos alimentares.

A subida de preços dos produtos essenciais agudizou-se, desde o início da pandemia da Covid-19, em Março de 2020, particularmente na província de Luanda, deixando, entre os consumidores, um cenário de incertezas.

Conforme especialistas, na base disto estão, entre outras razões, a recessão económica, a escassez de alguns bens de primeira necessidade no mercado e os elevados custos na importação de certos produtos alimentares, como o arroz, açúcar e a farinha de trigo.

Trata-se de produtos cujos preços tendem a aumentar diária, semanal ou quinzenalmente, como demonstra o relatório do Índice do Preço do Consumidor Nacional (IPCN) referente ao período de Janeiro a Março do corrente ano.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados recentemente, indicam que o IPCN registou, entre Janeiro e Fevereiro de 2021, variação mensal de 2,07 por cento.

Em concreto, isto representou um aumento de 0,57 pontos percentuais, neste período.

Conforme os dados oficiais, a classe “alimentação e bebidas não alcoólicas” é a que mais contribuiu para o aumento do nível geral de preços, com 1,48 pontos percentuais.

Em vários mercados e armazéns retalhistas de Luanda, este cenário de alta dos preços é notório. O custo dos principais bens alimentares aumenta quase semanalmente.

Só na classe de alimentos, em Fevereiro, a cebola teve variação de preços de 9,50 por cento, o óleo de soja 3,36 por cento, o peixe carapau (fresco e congelado) 2,33 por cento, o arroz extra longo 2,51 por cento e a farinha de trigo 3,63 por cento.

Do total de 732 produtos que fazem parte da matriz de preços do consumidor, 24 traduzem-se na metade da inflação, segundo as autoridades, que consideram elevada a queda de 24 por cento observada nos dois primeiros meses do ano, a nível dos produtos importados, sobretudo aqueles não produzidos no país.

Na conjuntura actual, os produtos mais procurados e indispensáveis na dieta dos angolanos são os que também mais sofrem o aumento de preços, como é o caso do açúcar, arroz, óleo vegetal, massa alimentar e farinha de trigo.

A título de exemplo, no município de Viana, distrito urbano do Zango, o preço do saco de açúcar de 50 quilogramas (kg) subiu de 18 mil e 500/19 mil kwanzas, praticado em Janeiro e Fevereiro deste ano, para Kz 26 mil e 900/28 mil e 500, facto que elevou o custo do quilo de 500 kwanzas para Kz 700, nas cantinas e nos mercados informais.

O mesmo produto está a ser comercializado a 26 mil e 500/26 mil e 700 kwanzas nos armazéns adjacentes ao mercado do Asa Branca (município do Cazenga).

Além de ser o bem alimentar que mais sofre aumento do preço, o açúcar nacional (Kapanda), produzido no município de Cacuso (Vila de Kapanda), está mais caro (Kz 28.500) do que o açúcar importado, que varia entre 26 mil e 500 e 27 mil kwanzas.

Actualmente, a primeira ideia do consumidor é de que o produto “Made in Angola” tenha um preço mais baixo em relação ao importado, tendo em conta o custo de importação. Porém, a realidade do mercado interno do açúcar mostra o contrário.

Mesmo com a superação da meta de produção, com o alcance de 118 mil toneladas de açúcar, no exercício económico 2020, constata-se um contraste entre o preço do açúcar importado e o açúcar produzido em Kapanda.

Em 2020, a Companhia de Bioenergia de Angola (Biocom) superou a sua meta de produção, ao atingir 118 mil toneladas de açúcar, contra as 110 mil toneladas produzidas em 2019, segundo dados disponíveis no site da Biocom.

A produção da Biocom, em 2019, permitiu reduzir as importações do açúcar em cerca de 35 por cento das necessidades de consumo interno, estimadas em 80 por cento, bem como facilitou a poupança de cerca de 100 milhões de dólares norte-americanos, que seriam empregues na importação deste produto.

Com capacidade de produzir anualmente 250 mil toneladas de açúcar cristal branco, até 2022, a Biocom, inaugurada em Junho de 2014, é a primeira empresa em Angola a produzir e a comercializar açúcar, etanol e a energia eléctrica, a partir da biomassa.

A par do açúcar, o arroz é também um dos produtos que continua a ser “sufocado” pelo aumento do preço nos últimos meses, no mercado nacional, obrigando os consumidores a desembolsarem 500 a 600 kwanzas por quilo.

Apesar de ser um dos produtos mais consumidos em Angola, o preço do saco de arroz de 25 quilogramas disparou de Kz 10 mil e 500, em Janeiro e Fevereiro, para 13 mil e 200/14 mil e 300 kwanzas, em Março, em alguns armazéns de Luanda.

De acordo com dados do Governo angolano, até Março de 2020, Angola gastava mensalmente 26 milhões de dólares norte-americanos na importação de 15 mil toneladas de arroz.

Ainda em 2020, a fazenda “Arrozal”, vocacionada ao cultivo desse cereal, no município de Camacupa, província do Bié, perspectivou, quando finalizado, produzir exactamente o número de toneladas de arroz que o país importa em cada mês, 15 mil toneladas.

Já a Direcção Provincial da Agricultura, Pecuária e Pescas, em Malanje, previa a produção de quase 20 mil toneladas de arroz na safra 2020.

Ainda em relação ao aumento do preço dos produtos da cesta básica, a farinha de trigo também não é poupada, atingindo os 21 mil e 500/22 mil e 400 kwanzas (cada saco de 50 quilogramas), contra Kz 20 mil, entre Janeiro e Fevereiro deste ano. Deste modo, o quilo desse produto está a custar 400 kwanzas.

Em finais de 2019, Angola ambicionava tornar-se auto-suficiente em produção de farinha de trigo, a partir de 2020, na eventualidade de as três moageiras do país (Grandes Moagens de Angola – GMA, Kikolo e Grupo Leonor Carrinho) produzirem 280 mil toneladas por ano, cada, como se previa, perfazendo um total de 840 mil toneladas.

Nesse período, as necessidades do país em farinha de trigo rondavam as 520 mil toneladas, enquanto a produção local era de cerca de 420 mil toneladas/ano, volume que representa um défice anual de cem mil toneladas, que eram importadas regularmente, conforme dados do Ministério da Indústria, naquela altura.

Já o saco de fuba de milho amarelo de 25 kg subiu de Kz 8 mil e 500 para 13 mil e 200 a 14 mil e 300 kwanzas, ao passo que o quilograma custa Kz 450.

A fuba de milho branco (25 kg) importado está a ser vendida a 12 mil e 500, enquanto o quilo da chamada “fuba branca das pedras” nacional ronda entre 380 a 500 kwanzas, enquanto o preço da fuba de bombó elevou-se de 150 para 250 kwanzas.

O preço da caixa de massa alimentar (20 pacotes) também registou uma subida de Kz 950, saindo dos 3 mil 800 para 4 mil e 750 kwanzas, no primeiro trimestre de 2021.

Outro produto que também é afectado pelo aumento exponencial do preço é o óleo vegetal, cujo preço passou de 11 mil e 500 kwanzas (caixa de 12 litros) para Kz 14 mil e 500/15 mil e 800. A retalho, o bidão de 5 litros está a custar 5 mil e 300 kwanzas. A caixa de salsicha, que custava 9 mil e 900 kwanzas, actualmente disparou mais Kz mil.

No período em análise (de Janeiro a Março), o feijão foi um dos poucos produtos da cesta básica que não registou alteração no seu preço, apesar de os consumidores ainda considerarem alto. O saco de 50 kg desse produto se manteve em 32 mil kwanzas. O quilograma de feijão custa Kz mil e 200 a mil e 300.

Outro bem alimentar indispensável à mesa dos angolanos é o ovo, que está a ser comercializado a 38 mil kwanzas (a caixa de 12 cartões de 30 ovos cada). O cartão custa Kz 3 mil e 500, contra 2 mil e 500 vendidos em Janeiro e Fevereiro.

Embora a produção de ovos em Angola tenha aumentado significativamente, passando de 400 mil por dia, em 2012, para mais de um milhão e 700 mil, em 2019, actualmente o preço de cada ovo varia entre 125 e 150 kwanzas, nas cantinas e mercados, contra Kz 100 comercializado nos últimos três meses.

A frequente baixa produção de aves, assim como o encerramento de pequenos e médios aviários, em todo o país, e a falta de matéria-prima são apontados como as causas do aumento do preço do ovo no mercado nacional, segundo o presidente da Associação Nacional dos Avicultores de Angola (ANAVI), Rui Santos.

Congelados, frescos e hortícolas

No domínio dos produtos perecíveis e de conservação obrigatória em frigoríficos, a caixa de peixe carapau, de 30 kg, está a ser comercializada a 35 mil e 500 kwanzas, a de cachucho, de 15 kg, a 17 mil e 100, e a de pescada (também conhecido como peixe banana), de 10 kg, a 13 mil e 300, particularmente no mercado do Zango 1.

Se for fresco, sete payetas custam 100 kwanzas, cinco espadas grossas Kz 2.500, cada carapau 500 (o médio) e 1.000 (o grosso), o monte de cinco lambulas Kz 200, a macoa Kz 5.000, cinco cachuchos Kz 1.000, cinco kimbumbos Kz 2.000 e a corvina grande Kz 1.000.

Estas espécies e outras, como o galo, atum e linguado, encontram-se na Mabunda (Samba), Ilha do Cabo (Ingombotas) e na Boca do Rio e no Mundial (em Cacuaco).

Enquanto isso, o preço da caixa de coxa de frango varia de 9 mil e 300 a 10 mil e 900 kwanzas, numa altura em que a caixa de pescoço de porco está a ser vendida entre Kz 8 mil e 800 e 12 mil e 700. A espinha ou o espinhaço, também de porco, varia de 9 mil e 700 a 11 mil kwanzas, com a procura a aumentar diariamente na capital do país.

Apesar de Angola ter potencial para a agricultura em grande escala, com realce para as hortícolas e legumes, o aumento dos preços não poupa este segmento de alimentos.

Essa realidade é constatada no “Mercado do 30”, município de Viana, um dos maiores espaços comerciais a céu aberto de Luanda. Nesta praça, o balde de tomate de 10 kg, por exemplo, custa 2 mil e 500 kwanzas, enquanto 10 kg de cebola custa Kz 2 mil e 200. Já o balde de batata rena ronda entre 2 mil 500 e 3 mil kwanzas, enquanto a caixa de cenoura custa Kz 13 mil e 500.

Enquanto isso, a especulação dos preços de muitos produtos, mormente da cesta básica e outros do campo indispensáveis na dieta do angolano, aliada à perda do poder de compra das famílias, muitos cidadãos adoptaram uma novo estratégia ocasional e esporádica para suavizar os gastos e tentar diversificar a base alimentar em casa.

“Sócia” de alimentos “salva” famílias

Trata-se da já famosa “sócia” (contribuição monetária de várias pessoas para fazerem compras conjuntas de bens alimentares, que repartem de forma equitativa.

“Sócia de arroz, sócia de massa, sócia de açúcar, sócia de coxa…”. Essas são, entre outras expressões e cada vez mais frequentes práticas de socorro, que marcam o dia-a-dia de quem vai em busca de bens de primeira necessidade em armazéns e mercados informais de Luanda, associando-se a desconhecidos para partilhar as despesas.

O fenómeno “sócia”, que consiste na junção de dinheiro entre duas ou mais pessoas, para adquirir produtos alimentares comercializados em sacos, pacotes ou embalagens para depois serem repartidos, começou a ganhar terreno e mais relevância em meados de 2014, na capital do país, com o agravamento e a permanência da crise financeira em Angola.

A prática, que começou apenas com as pessoas de baixa renda, actualmente serve de “tábua de salvação” de milhares de consumidores que frequentam os armazéns e mercados de Luanda, devido ao “aperto financeiro” das famílias.

Por causa da subida dos preços e da redução do poder de compra dos cidadãos, agravada pela desvalorização do Kwanza e pelas restrições impostas pela pandemia da Covid-19, milhares de trabalhadores e desempregados enfrentam dificuldades na aquisição de bens de primeira necessidade para alimentação.

Fernanda Francisco, cozinheira de profissão, diz que pelo menos 200 mil kwanzas são gastos, em média, em sua casa, por mês, mas a quantidade de produtos que adquire com este valor é insuficiente para suportar os 30 dias.

Para cobrir os restantes dias, a cidadã usa os seus dotes e a sua criatividade, com a venda de bolos/bolinhos, nos dias de folga.

“Hoje, por exemplo, estou a trabalhar, mas tive de acordar às 4h00 para preparar alguns bolos e deixar com a filha que vai vender na escola dela”, contou.

Segundo a cozinheira, há 26 anos numa empresa pública, o seu pequeno negócio também começa a ficar ameaçado, devido à subida constante do preço da farinha de trigo, que já condicionou e paralisou a feitura do pão caseiro para alimentação diária.

Perante esse quadro, que considera “duro”, a cidadã referiu que tem sido um “sacrifício titânico” assegurar as refeições diárias, para permitir que a quantidade de alimentos adquiridos chegue pelo menos até dia 25 de cada mês.

Com um agregado familiar de oito pessoas, confessou que só consegue adquirir parte dos produtos da cesta básica, mensalmente, juntando os 150 mil kwanzas do seu esposo mais Kz 50 mil que tira do seu salário.

Mesmo com esses valores, Fernanda Francisco não escapa do novo modelo de sociedade ocasional e esporádica com pessoas conhecidas ou desconhecidas, por causa da constante alteração de preços dos produtos no curto espaço de tempo.

Exemplificou que, em Fevereiro último, comprou o saco de açúcar de 50 quilos a 22 mil kwanzas, mas, em Março, o mesmo produto custou Kz 27 mil. No mesmo período, recordou, adquiriu o saco de arroz de 25 quilos a 12 mil e 500 kwanzas, produto que hoje está a ser comercializado a Kz 13 mil e 200.

“O custo de vida está muito alto e o salário não compensa e nem cobre pelo menos a cesta básica”, desabafou.

Quem também lamenta a alta dos preços é a auxiliar de limpeza Maria Pedro, vinculada há 17 anos numa empresa pública, mas que tem recorrido à venda de bolinhos para preencher, parcialmente, a lacuna que o salário não cobre.

Para si, a “sócia” tem sido a “tábua da sua salvação” na compra de alimentos e única opção para o sustento familiar e uma dieta diversificada.

Viúva com duas filhas, Maria Pedro sublinhou que as compras, feitas com o seu salário, muitas vezes só chegam para 15 dias do mês.

De acordo com a trabalhadora, a variação quase diária ou semanal do preço dos produtos da cesta básica no mercado luandense deixa-lhe sem muitas opções para adquirir bens alimentares, facto que agrava cada vez mais o custo de vida da família.

Segundo Marinela Almeida, consumidora, a subida do preço de bens alimentares obrigou a reduzir drasticamente o número de refeições diárias, de três para duas (mata-bicho e jantar), de forma alternada.

A também cliente, que em média gasta 120 mil kwanzas na compra de bens alimentares, referiu que mesmo com a redução das refeições, as quantidades adquiridas de produtos apenas podem aguentar até dia 18 ou 20 de cada mês.

Com um agregado familiar de cinco membros, Marinela apela à revisão urgente dos preços dos bens de primeira necessidade, principalmente nesta fase de pandemia.

Por sua vez, a consumidora Carla Canga disse que também se socorre da junção de valores entre duas ou mais pessoas, no modelo designado de “sócia”, para adquirir bens alimentares para o sustento familiar.

Em consequência do aperto financeiro dos cidadãos e aumento da procura do fenómeno “sócia”, os retalhistas também já começam a comercializar a metade/meia de uma caixa de massa alimentar ou óleo vegetal, por exemplo, evitando que os clientes procurem parceiros para repartir os bens, através de intermediários.

Essa iniciativa, já visível em alguns armazéns adjacentes ao mercado do Asa Branca, no município do Cazenga, torna, por um lado, os produtos mais higiénicos, por não passar em muitas mãos ou por intermediários (jovens que cobram 150 kwanzas por cada junção de sócios e divisão do produto para duas ou três clientes).

Por outro lado, essa medida reduz as enchentes e confusões nos estabelecimentos comerciais, possibilitando o cumprimento do distanciamento físico entre as pessoas, apesar de colocar no “desemprego” vários jovens que ganham o “pão diário” na divisão dos produtos dos clientes, como forma de posto de emprego indirecto.

Retalhistas apontam dedo aos grossistas

Ibrahimu-Bah, revendedor de bens alimentares, num dos armazéns do mercado Asa Branca (município do Cazenga), justificou que o aumento ou diminuição do preço dos produtos no mercado depende muito do comportamento dos fornecedores-grossistas, que em um mês podem alterar/aumentar os preços duas ou três vezes.

Conforme o comerciante estrangeiro, residente há 13 anos em Angola, o preço dos produtos quase sobem todos os dias a partir da fonte (fornecedor), mas ninguém dá uma informação ou explicação exacta sobre as razões deste aumento.

“Não há uniformização do preço dos produtos a partir da fonte, cada grossista pratica de forma aleatória. Hoje, se pagares 23 mil e 500 kwanzas por cada saco de açúcar, de 50 quilos, amanhã poderás comprar o mesmo produto a Kz 25 mil”, denunciou.

Contou que, em alguns casos, os fornecedores-grossistas estipulam preços em função da quantidade de produtos que cada revendedor pretende, ou seja, quanto mais produtos o retalhista adquire, menor é o preço, enquanto a aquisição de menos produtos reflecte-se no aumento do preço.

Essa prática dos grossistas influencia também a aceleração do preço dos produtos da cesta básica em armazéns, cantinas e mercados a céu aberto, da capital do país, de acordo com Mário Darame, retalhista numa das cantinas do Zango 3, em Viana.

O guineense, residente e comerciante há sete anos em Angola, advoga mais organização e fiscalização imediata no modelo de venda dos produtos a partir da fonte primária, porque a actual política comercial dos fornecedores, para si, “não está clara”.

A propósito, a ANGOP tentou contactar, via telemóvel, três gerentes de fornecedores de produtos da cesta básica, em busca do contraditório, mas não teve sucesso.

Especialistas apontam causas

A limitação e/ou redução de quotas de importação de alguns produtos da cesta básica, prática de uma agricultura dependente somente da chuva e a liberalização tardia do mercado cambial (taxa de câmbio livre) são apontadas como as principais causas da constante subida dos preços dos produtos da cesta básica em Angola.

Conforme o economista José Lumbo, a liberalização tardia do mercado de câmbio, a redução significativa das Reservas Internacionais Líquidas (RIL) e a queda brusca do preço do petróleo no mercado internacional também aceleraram o aumento dos preços de bens e serviços essenciais aos cidadãos.

“Uma economia dependente, maioritariamente, de produtos importados, vive sérios problemas quando a sua moeda é depreciada/desvalorizada diante da moeda estrangeira de referência”, afirmou.

Em consequência dessa dependência, explicou, as empresas e, consequentemente, a economia nacional, fracassam, uma vez que os custos suportados na compra da moeda estrangeira se reflectirão no preço final do bem a ser vendido no território doméstico.

Diante desse cenário, José Lumbo advoga a criação de instrumentos que visam aumentar a oferta interna de produtos agrícolas, sem a dependência da chuva, bem como adopção de mecanismos que permitem a mobilidade dos bens produzidos no campo.

Para o economista, o Banco Nacional de Angola (BNA) deve divulgar os produtos financeiros, como o Mercado Futuro e a Cobrança Documental, que garantem vantagens para as empresas residentes, no capítulo das importações de produtos essenciais básicos.

Quem também partilha da mesma ideia é o economista Estêvão Catunda, que aponta a fraca capacidade de produção interna, insuficiência dos canais de distribuição e a desvalorização da moeda como factores determinantes da alta dos preços da cesta básica.

“A subida generalizada dos preços resulta em inflação. E a inflação pode ser endógena (resultante de factores internos) ou factores exógenos (dependente de outras economias, a chamada inflação importada) ”, esclareceu.

Para reverter a tendência crescente dos preços, Estêvão Catunda defende a necessidade de se apostar fortemente no cultivo e industrialização dos produtos que compõe a Cesta Básica e investir-se em infra-estruturas que viabilizem a sua distribuição.

Custo da importação

Entretanto, Angola registou aumento de 16 milhões de dólares na importação de produtos da cesta básica e outros bens essenciais, pagando um total de mais de USD 86 milhões no mês de Fevereiro de 2021, comparado a igual período de 2020.

Segundo o Ministério da Indústria e Comércio, o açúcar a granel e o arroz lideraram as intenções de importação, por se serem produtos ainda com uma resposta interna tímida.

Entretanto, alguns produtos registaram redução acentuada na sua importação, fruto da capacidade de produção interna que já dá resposta à demanda, como são os casos do alho, massa alimentar, farinha de milho, farinha de trigo, pensos higiénicos, fraldas descartáveis, guardanapos e vidro temperado em folha.

Quanto às exportações, Portugal, na Europa, e RDC (em África), continuam a ser os destinos preferenciais dos produtos angolanos, nas exportações não petrolíferas.

Governo aplica-se para inverter preços

Para contrapor e travar a subida galopante do preço de bens e serviços indispensáveis à população, o Mindecom apresentou, recentemente, o Plano de Desenvolvimento Industrial de Angola (PDIA), que tem como objectivo, até 2025, o aumento da produção industrial e redução da dependência do exterior em relação à produção destes bens.

A estratégia do Mistério da Indústria e Comércio é dar resposta, de igual modo, às necessidades de todos os segmentos de empresas, priorizando as acções que tenham maior impacto na diversificação industrial no país.

O PDIA vai também “adoptar sempre” os critérios de custo-benefício e privilégios complementares com outras iniciativas promovidas pelo Governo, não obstante as restrições orçamentais e financeiras actuais.

A par desse plano, foi também aprovado, ainda neste ano, um memorando que identifica as linhas de operacionalização da Reserva Estratégica Alimentar, criado em 2018, visando a estabilização de preços e garantia de fornecimento de bens da cesta básica a preços racionais e justos, no mercado interno.

A Reserva Estratégica Alimentar (REA) do Estado irá ainda contribuir para a reestruturação de infra-estruturas, nomeadamente, as vias secundárias e terciárias, facilitando o acesso aos produtos nacionais e o transporte de mercadorias para os principais centros logísticos.

Segundo o ministro da Indústria e Comércio, Victor Fernandes, o sector que dirige está atento à subida acelerada dos preços dos produtos de primeira necessidade à população, no mercado nacional e, em conjunto com o sector privado, trabalha afincadamente no sentido de influenciar a redução dos preços de bens alimentares no país.

Ainda no âmbito da reforma económica, iniciada em 2018, o Governo angolano criou, entre vários planos de acção, o Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (PRODESI) e o Projecto de Apoio ao Crédito (PAC), em 2019, este último com a finalidade de estimular os agentes económicos a produzirem 54 produtos.

Entre os 54 produtos, o destaque recai para as farinhas de trigo, de milho e de bombó, assim como abacaxi, açúcar, feijão, ovos, óleo vegetal, massa alimentar, cebola, sal, leite, mandioca, manga, mel, água de mesa, cimento, varão de aço, detergentes, fraldas descartáveis, guardanapos, papel higiénico, rolos de papel de cozinha, lixívia e embalagens de vidro.

Pretende-se, com a produção interna desses bens, reduzir a dependência do exterior e evitar a saída desnecessária de divisas, que podem ser canalizadas para a importação de bens de capital importância e equipamentos de apoio ao sector produtivo, com vista a tornar a economia nacional estável e mitigar o sofrimento da população.

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