InicioMundoAmérica do Sul'Hartazgo', o cansaço extremo que mobiliza os protestos na Colômbia

‘Hartazgo’, o cansaço extremo que mobiliza os protestos na Colômbia

Resposta brutal da polícia afunda popularidade de Iván Duque e não dá sinais de atenuar a insatisfação de manifestantes.

Como presidente mais jovem que a Colômbia já teve, o conservador Iván Duque tentou emplacar, em momento inadequado, uma reforma tributária considerada progressista e ambiciosa por boa parte dos economistas, mas esbarrou em obstáculos conhecidos: a desconfiança e a insatisfação dos colombianos, sobretudo a ala jovem, com o governo.

Diante da força da mobilização popular, desafiando os riscos da pandemia, Duque foi forçado a recuar e a suspender seu projeto fiscal para acalmar as ruas. Não adiantou.

Os protestos se intensificaram por todo o país e entram pela segunda semana, reprimidos com brutalidade e com o uso armas letais pela polícia, como mostram as imagens difundidas nas redes sociais. Até quinta-feira, a ONG Temblores registrava 37 mortos, mais de 800 feridos, 937 prisões arbitrárias e 89 desaparecidos como consequência da ação policial.

Ficou claro que a reforma tributária serviu apenas de estopim para evidenciar um fenômeno maior — o hartazgo –, que se traduz no esgotamento desencadeado pela desigualdade e pelo aumento da pobreza, amplificados pela pandemia do novo coronavírus. A economia caiu 7% no ano passado, com 42,5% da população vivendo na pobreza.

Em três anos de mandato, os projetos de Duque sempre enfrentaram a resistência popular ou colidiram com o Legislativo ou o Judiciário. Ele até tentou distanciar-se de seu mentor político, o ex-presidente Álvaro Uribe, mas é inviável desvincular um do outro.

Por influência de Uribe, Duque embarreirou o acordo de paz firmado entre o antecessor Juan Manuel Santos e as Farc, para pôr fim a 56 anos de conflito armado com o grupo guerrilheiro. Agora, o ex-presidente instiga os ânimos, conclamando o envio das Forças Armadas às ruas para conter os manifestantes.

Com apenas 30% de aprovação, a popularidade de Duque afunda pela gestão da pandemia, que matou 75 mil pessoas, e pelo gerenciamento da atual crise. O governo tentou associar os manifestantes a “terroristas” de grupos rebeldes, mas as imagens divulgadas por entidades de direitos humanos, como Anistia Internacional e Human Rights Watch, corroboraram a violência desproporcional por parte das forças policiais.

A um ano do fim do governo, as pesquisas põem na liderança o socialista Gustavo Petro, derrotado em 2018 para o atual presidente, com 38% das intenções de votos. Se as eleições fossem hoje, a Colômbia seria governada, pela primeira vez, por um representante da esquerda.

Sem possibilidade de reeleição, Duque hesita entre extremos. Ao mesmo tempo em que apela para o diálogo nacional com os setores insatisfeitos, dá a entender, mais uma vez por influência do uribismo, que decretar o estado de exceção no país, pela perturbação da ordem pública, está entre suas opções. Em outras palavras, dá mais munição para o hartazgo.

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